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VITOR VOGAS

O novo viés ideológico de Vandinho

Publicado em 16 de Fevereiro de 2019 às 22:15

Públicado em 

16 fev 2019 às 22:15
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas
Da tribuna em plenário, o orador faz discursos inflamados contra “a esquerda” (uma genérica “esquerda”); acusa professores de promoverem a “ideologia de gênero”, praticarem “doutrinação ideológica” e ensinarem “pouca vergonha” em sala de aula; exalta a retomada da aliança entre Brasil e Israel. E por aí vai.
Quem é esse orador? Sem conhecer o autor das palavras e apenas lendo a transcrição dos discursos, o leitor poderia deduzir: Jair Bolsonaro; talvez, Magno Malta, quando ainda estavam no Congresso. Não estaria longe da verdade.
Mas não. O parlamentar em questão é Vandinho Leite (PSDB), que acaba de retornar à Assembleia Legislativa após uma primeira passagem, compreendida entre 2007 e 2015. E volta de modo surpreendente. Dos 30 deputados estaduais recém-empossados, entre reeleitos e estreantes, ninguém tem mantido uma postura mais fora do previsível do que o único “reestreante”.
Vandinho retorna à Casa visivelmente determinado a se firmar como uma espécie de porta-voz do discurso magno-bolsonarista no parlamento estadual. Para isso, de imediato, tem radicalizado em uma pauta conservadora de costumes de fazer inveja ao ex-senador gospel (Magno, aliás, tem a ver com as origens políticas de Vandinho, que é evangélico e já pertenceu ao PR).
Questionado pela coluna, o próprio deputado se definiu como um político conservador e de centro-direita. Em alguns momentos, com base em seus discursos da tribuna, acrescentaríamos o prefixo “ultra” a essa autodefinição. Tudo bem. Tudo normal e legítimo. Até o ponto em que começa a passar do limite do respeito e ofender colegas. Não se pode confundir discurso duro com discurso agressivo. Foi o que ocorreu na última terça-feira.
Em conformidade com a estratégia adotada, o primeiro projeto apresentado por Vandinho foi o “Escola Sem Doutrinação” (nos mesmos moldes do “Escola Sem Partido”), arquivado por inconstitucional (o que, de fato, é). Ele recorre.
Na segunda, o deputado Majeski (PSB) subiu à tribuna para contestar o “Escola Sem Partido” e projetos do mesmo gênero – se é que se pode falar em “gênero”. Não citou Vandinho nem fez menção específica ao projeto dele. Apenas discursou contra iniciativas do tipo.
Argumentou que as causas dos maus resultados da educação brasileira nada têm a ver com um suposto trabalho de conversão de estudantes do ensino básico ao marxismo, mas com questões estruturais muito mais concretas e realistas, como a evasão escolar, a infraestrutura precária das escolas e a sub-remuneração dos docentes; que projetos desse tipo não atacam os verdadeiros problemas da educação brasileira; e que a melhoria do ensino não passa por vilanizar professores e tratá-los como ameaças, antes por valorizá-los. Majeski, enfim, argumentou.
Vandinho não entendeu assim. Sentindo-se ofendido pela fala do ex-colega de PSDB, subiu à tribuna para rebatê-la. E referiu-se ao pronunciamento de Majeski como uma “farra bizarra”.
Pode-se discordar da argumentação de Majeski, mas, analisando-a sem paixões, não houve nela bizarrices nem fanfarronices, tampouco ofensa a Vandinho.
O que se seguiu foi uma fala exaltada, muitos tons acima do normal – o que inclusive foge ao padrão de Vandinho, em geral muito calmo e cordial no trato com a imprensa e com colegas. Dessa metamorfose na tribuna, depreendem-se outros dois pontos reveladores da estratégia de Vandinho: alta dose de performance e predisposição para polarizar em plenário com Majeski. Este mordeu a isca, voltou ao plenário correndo e chamou Vandinho de “criatura bizarra”, no que também errou feio. Enfim, um triste espetáculo.
A questão que fica é: por que Vandinho está fazendo isso? A resposta óbvia é: para chamar atenção. Mas por que chamar atenção assim? Aí a resposta está no calendário eleitoral.
O ano de 2019 é um ano espremido entre duas eleições. Vandinho está com um olho no passado recente (2018) e o outro no futuro próximo (2020). Da eleição de outubro passado, vem a inspiração bolsonarista. Político inteligente que é, Vandinho quer surfar na onda do presidente, como não deixam dúvida as pautas e o estilo escolhidos por ele para dar início ao mandato na Assembleia. Isso, podemos apostar, visando à próxima eleição municipal.
Em 2020, o deputado quer ganhar a disputa a prefeito da Serra, município onde Bolsonaro teve 58,3% dos votos válidos no 2º turno contra Haddad e cujo eleitorado é particularmente sensível a esse discurso conservador de cunho neopentecostal. Prova disso foi o pleito de 2016, no qual um combalido Audifax Barcelos (Rede) virou uma eleição praticamente perdida contra Sérgio Vidigal (PDT) com uma retórica na linha “voltei do mundo dos mortos, aleluia!”.
Enquanto isso, Vandinho pisa no acelerador. Sua primeira sessão solene? Será no próximo dia 27. Adivinhem o tema. Homenagem à “restauração da aliança Brasil & Israel”. Simbolicamente, os Bolsonaros e Magno Malta estarão presentes.
Vitória de Casagrande
Com a desistência do deputado Marcelo Santos (PDT) e o caminho escancarado para Luiz Carlos Ciciliotti (PSB), quem mais ganha, claro, é Renato Casagrande (PSB). Além de vedar os vazamentos na parede da sua base, evitando o seu desmoronamento, o governador atinge o objetivo estratégico de emplacar no TCES um aliado de sua mais absoluta confiança. Foi claro o recado para o mercado político, em um momento de autoafirmação: “quem dita as cartas no Espírito Santo de novo sou eu”.
Quem mais perde
Quem mais perde são os deputados que não queriam nem ouvir o nome de Ciciliotti para a vaga do conselheiro Valci Ferreira no TCES. E não eram poucos.
Luiz Ciccione
Um exemplo da resistência que o nome de Ciciliotti provoca em alguns deputados – principalmente reeleitos que conviveram com o dirigente do PSB no governo passado de Casagrande, quando ele foi chefe da Casa Civil (2011-2013): “É o rei da barrigada. Se ele for para o Tribunal de Contas, eu sei que lá terei um conselheiro que nunca vai me atender em nada!”, diz um deputado que chegou a assinar a lista de Marcelo.
Em tempo
Ciciliotti é sobrenome italiano e, na língua de Dante, “ciccione” significa “gorducho”, “barrigudo”.
Marcelistas
Teriam votado em Marcelo, com certeza: Hudson Leal (PRB), Pazolini (PRP), Assumção (PSL), Bahiense (PSL), Torino (PSL), Favatto (Patri) e Xambinho (Rede).
Bunker na presidência
Na quinta à noite, véspera do anúncio de Marcelo, o “Estado-Maior” do deputado reuniu-se no gabinete do presidente da Assembleia, Erick Musso (PRB), para avaliar a situação. O clima já era de derrota.
Traições e duplicatas
Na sexta, logo após o anúncio, apoiadores de Marcelo reclamavam reservadamente de “traição”. Ao menos três deputados teriam assinado a lista de Marcelo e também a de Ciciliotti, de modo que eles não contavam realmente com todos os votos que antes julgavam seguros.
Revalida o líder
O deputado Enivaldo dos Anjos (PSD) pretende apresentar um projeto de resolução para que o líder do governo em plenário, cargo ocupado por ele no momento, seja “revalidado” a cada seis meses. Esse será o “prazo de validade” da liderança. A cada semestre, o governador poderá substituir ou confirmar o ocupante do cargo. Assim, nem o governador fica constrangido de fazer a troca quando o líder não vai bem, nem o próprio líder fica constrangido de seguir no cargo quando já não o quer.
Como é hoje
Na prática, hoje, o exercício do cargo não tem duração pré-definida, e o governador muda o seu líder quando bem entende.
Mas já?
Será que Enivaldo já se cansou do fardo da liderança?
Vice-líder
A propósito, o vice-líder de Casagrande será o deputado Freitas (PSB). Para aumentar o espaço de atuação do correligionário de Casagrande, Enivaldo já cedeu para Freitas a vaga de titular para a qual havia siso escalado na estratégica Comissão de Justiça.
“SEU PREFEITO”
Casagrande recebeu vereadores de Vitória na quarta de manhã. Seu correligionário, Davi Esmael, chegou atrasado. O governador o saudou: “Davi, meu vereador”. Davi retrucou: “Quero ser o seu prefeito”. E Casagrande: “Vou perguntar ao Luciano”. 

Vitor Vogas

Vitor Vogas Vitor Vogas

Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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