A senha já estava dada no convite conjunto: “O governador do Espírito Santo, Renato Casagrande, e o ministro da Cidadania em exercício, Lelo Coimbra, convidam para a entrega de 33 carros de passeio e 6 micro-ônibus para atender as Apaes do Estado”. Durante a solenidade, realizada na Praça do Papa, na manhã da última sexta-feira, o governador e o ex-deputado federal mostraram grande entrosamento e trocaram deferências em público. Estamos falando, respectivamente, do maior adversário político de Paulo Hartung (sem partido) e de um dos maiores aliados históricos do ex-governador, se não o maior. Por isso, a reaproximação política entre Casagrande e Lelo chama tanta atenção.
Para Casagrande, é importante ter em Lelo um ponto de referência dentro do governo Bolsonaro (do qual seu PSB não faz parte). Afinal, de derrotado nas urnas em 2018, Lelo foi alçado a secretário especial de Desenvolvimento Social do governo Bolsonaro, nº 2 do Ministério da Cidadania, comandado pelo também emedebista Osmar Terra. Já do ponto de vista de Lelo, essa reaproximação se insere em um movimento estratégico para ele se reposicionar no novo ciclo político aberto após 2018. Afinal, na eleição passada, além de sua tentativa frustrada de reeleição na Câmara, Lelo assistiu ao desmantelamento do grupo político de Paulo Hartung no Estado. Isto é, do seu grupo.
Agora, pensando não só no presente mas também em seu futuro político, Lelo precisa construir um novo caminho; uma trilha própria, que independe de Paulo Hartung. Isso passa por sua atuação no governo Bolsonaro, a qual pode mantê-lo vivo como ator relevante no cenário político local. Passa, ainda, por um reposicionamento em relação a outras forças políticas estaduais. A começar por Renato Casagrande, de quem Lelo agora se apresenta como parceiro institucional.
Na solenidade de sexta, diante de dezenas de prefeitos, deputados etc., Lelo celebrou o simbolismo daquela “ação conjunta”. Casagrande foi além. Chamou o presidente estadual do MDB de “nosso ministro” e comemorou, provocando aplausos: “Como é bom ter Lelo como ministro! Você conquistou um espaço importante no ministério, e recebê-lo aqui como ministro é um orgulho para o Espírito Santo”.
Nesse clima, o próximo “convite casado” pode ser o do casamento político.
“Torço para que o governo Casagrande dê certo”
Confira a entrevista exclusiva de Lelo Coimbra à coluna:
O senhor e Renato Casagrande estão se reaproximando politicamente?
Vim ao Estado hoje (sexta) na condição de ministro em exercício. Essa condição me torna um ministro de todos. Por isso, era importante que eu pudesse fazer essa entrega em harmonia com o governo e com o governador. Pessoalmente, acho que, no meu papel, estando como ministro interino ou não, no espaço em que estou representando os capixabas, é importante que eu busque, da melhor forma possível, ajudar o Estado, ajudar o governo, ajudar os municípios a construir os seus caminhos. Esse evento foi montado compartilhadamente. Eu e o governador conversamos em Brasília na semana passada. Programamos fazê-lo dessa forma, para construir, primeiro, um ambiente em que eu possa ajudar o governo, com os instrumentos que temos no Ministério da Cidadania. E, segundo, para estabelecer um formato de relacionamento republicano e saudável com o governo Casagrande. Eu torço para que o governo dê certo. Sinto que o governador incorporou o conceito de reajuste fiscal como algo permanente, com que ele também se compromete. Se a sociedade capixaba entendeu que o governador devesse ser Casagrande, ele tem o meu apoio no sentido de buscar caminhos juntos.
O grupo político de Paulo Hartung realmente acabou?
Na vida pública nada acaba. Se redimensiona. Além disso, nós passamos por um período em que há a busca por novos atores políticos. Novos momentos da política precisam ser construídos. As lideranças se renovam. O próprio governador Paulo Hartung anunciou que não participa mais de processos eleitorais. Então há um novo ambiente criado. Cada vez mais, esse novo ambiente vai ser coletivo. E as pessoas precisam ter um norte de para onde elas vão. Se elas acabam choramingando orfandades e não gerando perspectivas de para onde vão, acabam fazendo parte daquela famosa panela de caranguejo: todo mundo que vê alguém sobressair, vai lá e puxa para baixo. Ao final, morrem todos na água quente, não é isso? Então acho que houve um ciclo que envolveu Paulo Hartung, como há um ciclo que envolve Renato, como novos ciclos começam a se desenhar. Qual será a magnitude deles, não sabemos. Então é o ciclo natural da vida pública. Ninguém acaba. Um personagem, que é o governador, decidiu não mais participar do processo de ação política.
E, nesse novo ciclo da política capixaba, onde o senhor se situa? Podemos dizer que, hoje, o senhor e Hartung caminham em direções diferentes? Estão trilhando caminhos independentes?
Pela própria natureza do que cada um está fazendo, os caminhos são distintos. O governador está indo para a iniciativa privada. Cada um contribuiu e contribui com a história do Estado e do Brasil a seu tempo. Se o objeto é comum, de fazer o bem às pessoas e responder a responsabilidades para as quais as pessoas te chamam, o caminho é um só para todos. As formas de caminhar é que vão sendo diferentes, pela forma como as lideranças vão se reposicionando.
O convite feito ao senhor para ocupar essa posição no ministério passou de alguma forma por Paulo Hartung?
Não, em absoluto. Esse é um convite que tem origem nas relações que estabeleci em Brasília, especialmente as relações pessoais que temos eu e o ministro Osmar. Nós somos amigos há 12 anos e sempre trabalhamos alinhados nos três mandatos que exercemos juntos na Câmara Federal.
O senhor não submeteu isso, então, a Paulo Hartung?
Não. Em absoluto.
E quanto a seu futuro político? O senhor ainda pensa em disputar eleições?
Primeiro, tenho uma responsabilidade de conduzir a vida partidária (no MDB-ES). Estamos conversando com os parceiros sobre como é que fortalecemos o caminho e como é que limpamos o trilho onde houver trilho sujo. Meu futuro político está em aberto. Quero reconstituir alguns caminhos. Quero fortalecer relações que tenho. Não faço conflito de relações preexistentes com relações presentes ou relações futuras. Acho que meu norte é o de ser um político maduro, no sentido literal da palavra, com bons aprendizados, com uma boa contribuição a dar nos espaços em que eu estiver, seja de gestão, seja de mandato. E eu estou aí. Vamos conversar... Estou militando institucionalmente, no momento, como gestor. Se lá adiante os elementos de uma disputa se apresentarem, eu estarei conversando sobre ela. Acho que temos um cenário futuro que é uma folha em branco.
Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.