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Vitor Vogas

O ensurdecedor silêncio de Bolsonaro sobre o pai de família fuzilado

Presidente prefere um silêncio cômodo e condescendente quando a situação demandava condenação imediata e veemente por parte do líder da nação. Ao se calar sobre ato tão grave, quando todos os olhos e ouvidos se voltam para ele, Bolsonaro passa a mensagem de que tais brutalidades passam a ser toleráveis desde que praticadas por agentes do Estado

Publicado em 10 de Abril de 2019 às 21:41

Públicado em 

10 abr 2019 às 21:41
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas
Presidente Jair Bolsonaro preferiu o silêncio sobre a morte de um músico no Rio de Janeiro Crédito: Reprodução/Instagram

Quando o deputado Jair Bolsonaro (PSL) bradava contra homossexuais, dizendo, por exemplo, que preferiria a morte de um filho gay ou que bateria em casal gay se visse os dois a se beijarem na rua, o problema não estava no que isso poderia representar ao pé da letra.

Ninguém esperava, afinal, que o deputado cumprisse suas bravatas e partisse, pessoalmente, para agressões físicas a homens que manifestassem afeto em público.

O problema, na verdade, é bem maior: está na legitimação de um discurso anti-homossexuais, o qual, levado para a prática, legitima crimes de ódio contra a comunidade LGBT no Brasil, motivados pela homofobia e perpetrados por cidadãos comuns, não raro autoproclamados "de bem" e "defensores da família".

Esses crimes se multiplicam no Brasil como praga, e a perspectiva não é de que isso mude, até porque tampouco mudou o discurso de Bolsonaro, agora presidente, sobre o tema. Desde que chegou ao cargo, nem uma palavra condenando esse tipo de crime. Em vez disso, no discurso de posse, anunciou o fim da era do "politicamente correto". Isso sem falar no golden shower. A patrulha antigays, mais do que nunca, sente-se legitimada para agir. E o presidente, o que tem a ver com isso? Pois é.

De igual modo, Bolsonaro tem encorajado, sistematicamente, o uso de violência desproporcional por parte de agentes do Exército e de forças de segurança pública, e até por parte de cidadãos civis, como forma de resolução de conflitos. Fazia-o como deputado, o fez na condição de candidato e agora continua a fazê-lo, de maneira inconsequente, investido do mandato de presidente da República.

Caro(a) leitor(a), espero que me entenda: a questão aqui é simbólica. E, no mundo político, sinais são tudo. Ninguém espera que o presidente da República vá literalmente pegar em armas e praticar atos de violência com as próprias mãos. Mas as palavras dele (ou o silêncio eloquente, em certos casos) têm influência maior do que as de qualquer outra autoridade sobre o comportamento dos cidadãos brasileiros, sobretudo aqueles que o seguem e que o admiram. É ele, afinal, o nosso chefe de Estado e do governo. É ele o líder da nação. Como tal, tem a responsabilidade de ditar os rumos do país.

Sem embargo, indiferente ao peso simbólico atrelado a qualquer mensagem que parta do presidente da República, Bolsonaro segue falando, ou calando, conforme as conveniências e as convicções político-ideológicas do Jair, não do presidente Bolsonaro. Segue se comportando como se fosse um candidato em eterna campanha, sem assumir a condição de estadista que lhe exige o cargo para o qual foi eleito.

Frequentemente, fala (aliás, tuíta) quando não deve, e o que não deve, quando melhor seria calar. Em contrapartida, tem preferido o conforto do silêncio quando a situação demanda uma mensagem imediata de condenação veemente, que não deixe dúvida quanto à reprobabilidade do ato praticado.

Foi assim, por exemplo, no episódio do assassinato sem qualquer justificativa possível do pai de família por homens do Exército no Rio. Com o carro metralhado por 80 disparos, o músico morreu diante da mulher e do filho de sete anos, a caminho de um chá de bebê. Bolsonaro, o líder da nação, para quem todos olharam no momento, simplesmente preferiu calar. E assim persiste até agora.

Dele, sobre essa covardia, não tivemos nem sequer uma tuitada - logo ele, tão pródigo em tuítes. Muito conveniente para ele, assaz inquietante para nós, o silêncio de Bolsonaro não é privilégio concedido a um presidente da República. Silêncio esse que, porém, nada tem de impensado ou gratuito.

O que devemos concluir então, nós que nos voltamos aflitos para o nosso presidente nesta hora, em busca de um sinal (de uma direção!) em face de ato tão cruel e vil executado por agentes que representam o braço armado do Estado? Que está tudo ok no tocante a essa questão? Que daqui para a frente será assim? Que "incidentes" como esse são aceitáveis? Que atrocidades dessa ordem (ordem?) devem ser naturalizadas e tratadas como meras "fatalidades"?

A violência contra civis inocentes deve ser agora assimilada como parte do cotidiano de uma grande cidade brasileira, sempre que o gatilho for puxado pelo dedo de um agente do Estado? Vida que segue então, é isso? A barbárie está liberada agora? Às favas com o Estado de Direito?

APOLOGIA DA VIOLÊNCIA

A violência é companheira inseparável da oratória de Jair Bolsonaro, não só na forma - com sua retórica agressiva, de alguém sempre pronto para brigar e "metralhar" adversários (figura de linguagem usada pela próprio na campanha) -, mas, acima de tudo, no conteúdo. E é isso o que mais preocupa.

Sistematicamente, mesmo depois de ostentar a faixa presidencial, Bolsonaro tem estimulado a violência como via legítima para resolução de conflitos sociais ou pessoais no país.

Ele o faz quando promove o culto desmesurado às armas com declarações e gestos literais (não raro teatrais); o faz quando dá declarações, voltadas principalmente para os militares, onde encontra enorme aderência, na lógica de que "bandido bom é bandido morto", "atirem primeiro, perguntem depois, pois o governo lhes garantirá total retaguarda jurídica".

Nem é preciso se estender aqui em elaborações sobre garantias fundamentais dos cidadãos, os conceitos de legítima defesa e de excludente de ilicitude. É evidente o risco concreto de excessos, punindo inclusive inocentes, em consequência do efeito simbólico desse tipo de discurso sobre policiais militares, homens das Forças Armadas e até mesmo civis que veneram o presidente.

Para piorar, semelhante discurso é endossado e reforçado por outras autoridades de menor calibre, mas igualmente responsáveis por indicar os rumos a seus concidadãos, como o governador do Rio, Wilson Witzel, autor da famosa frase "tem que mirar na cabecinha"...

Era óbvio que não tardaria muito para mirarem em qualquer cabeça, encorajados e crendo-se legitimados por esse tipo de discurso inconsequente. E agora, infelizmente, ainda mais que antes, pelo silêncio condescendente do próprio presidente da República.

Receio que, lamentavelmente, muitos outros "incidentes" assim estão por vir.

Vitor Vogas

Vitor Vogas Vitor Vogas

Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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