Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

O delegado que poderia ajudar Audifax na eleição a prefeito da Serra

Candidatura do delegado Márcio Greik a prefeito da Serra pelo MDB poderia prejudicar Vandinho Leite e Sérgio Vidigal, favorecendo Audifax e candidatos mais simpáticos a ele. Entenda por quê

Publicado em 01/10/2020 às 05h02
Atualizado em 01/10/2020 às 13h59
Candidatura do delegado Márcio Greik a prefeito da Serra pelo MDB poderia prejudicar Vandinho Leite e Sérgio Vidigal, favorecendo Audifax e candidatos mais simpáticos a ele. Entenda por quê
Candidatura do delegado Márcio Greik a prefeito da Serra pelo MDB poderia prejudicar Vandinho Leite e Sérgio Vidigal, favorecendo Audifax e candidatos mais simpáticos a ele. Crédito: Amarildo

No fim de 2019, ainda sem saber quem seria o seu candidato à sucessão no Executivo da Serra, o prefeito Audifax Barcelos (Rede) chegou a sondar o delegado da Polícia Civil Rodrigo Sandi Mori para se filiar a um partido e se lançar, com o seu apoio, como candidato à prefeitura. Sandi Mori não se interessou. Audifax acabou lançando o vereador Fábio Duarte (Rede), seu líder na Câmara Municipal. No entanto, na reta final do período de definição de candidaturas, um outro delegado, este da Polícia Federal, despontou não só como pretenso candidato a prefeito da Serra como também como agente político muito interessante para Audifax na eleição serrana.

Na Serra, muitos agentes políticos (adversários de Audifax ou não) apontam a atuação pessoal do prefeito, durante o período das convenções, na tentativa de viabilizar a candidatura de Greik, delegado que se apresenta como um bolsonarista convicto, de direita etc. Ideologicamente, isso nada tem a ver nem com a história nem com o perfil político de Audifax, que sempre militou em partidos de esquerda ou centro-esquerda (nesta ordem: PT, PDT, PSB e Rede). Por que, então, esse interesse? 

A resposta está em duas vertentes: pragmatismo político e estratégia eleitoral. Um dos políticos serranos que assinalam a intercessão de Audifax em benefício de Greik é o presidente municipal do próprio MDB, o ex-vereador Aloísio Santana. Ele atribui esse imbróglio de cores serranas ao veeeeeelho motivo que explica de algum modo quase tudo na política da cidade há pelo menos 12 anos: “Existe uma briga velada entre Audifax [Barcelos] e Sérgio [Vidigal]”.

Segundo Santana, Audifax foi um dos grandes incentivadores do lançamento da candidatura de Márcio Greik a prefeito pelo MDB para embolar ainda mais o jogo e dificultar um pouco mais o possível retorno de Vidigal à Prefeitura da Serra. Faz sentido. É o que explicamos a seguir.

QUANTO MAIS, MELHOR

Para Audifax, por essa perspectiva, quanto mais candidatos no 1º turno, melhor. Tirando Greik, a Serra já tem o expressivo número de oito candidatos a prefeito. Em teoria, com os votos ainda mais pulverizados, um dos candidatos pelos quais o prefeito nutre simpatia poderia avançar ao 2º turno, possivelmente contra Vidigal, com uma votação ainda mais baixa no 1º turno. Ou seja: a pulverização dos votos interessa muito ao prefeito para derrotar o seu arquirrival. 

A PRESENÇA (LITERAL) DE AUDIFAX NESSA HISTÓRIA

Diga-se de passagem, não se pode mesmo ignorar a participação de Audifax nesse episódio. O prefeito mantém alguma influência sobre o MDB na Serra. É do partido, por exemplo, seu ex-líder na Câmara Municipal, Luiz Carlos Moreira. No dia 23 de setembro (um domingo), Audifax esteve em pessoa na convenção do MDB, assim como militantes da Rede. 

Em discurso emocionado, o próprio Márcio Greik citou conversa que o prefeito teve com ele, incentivando sua candidatura, naquela mesma manhã. Segundo Aloísio Santana, Audifax chegou a conversar com ele, longamente e a sós, durante a convenção, buscando influenciar a decisão do MDB para que fosse em favor do delegado federal. As gestões de Audifax não bastaram. A direção do MDB da Serra bateu pé e manteve o apoio a Vandinho. Este ganhou o apoio do MDB, mas poderia ter perdido muito nessa história.

O FATOR VANDINHO LEITE

Se a presença de Márcio Greik nesse pleito poderia gerar alguma avaria eleitoral a Sérgio Vidigal, o potencial dano para Vandinho Leite seria ainda maior. Antes das convenções, o delegado fez sua campanha basicamente centrada em um ponto: adoração por Jair Bolsonaro. A vinculação com o ex-presidente era explorada pelo pré-candidato até em um jinglezinho lançado por ele. 

Mas esse discurso e esse perfil de “direita conservadora bolsonarista” batem exatamente com o filão que está sendo ocupado por Vandinho (ou seja, ali na Serra, “esse nicho já tem dono”). Assim, ajudando a emplacar Márcio, Audifax não só tiraria o MDB da chapa de Vandinho como teria ativo nesse pleito um candidato que poderia dividir votos com o deputado tucano dentro do mesmo nicho – ou seja, alguém que poderia muito bem tirar votos de Vandinho Leite. 

Para Audifax, contar com Márcio Greik nesse jogo seria matar duas bolas com a mesma tacada: além de embolar ainda mais o meio de campo para Vidigal, o delegado poderia ameaçar, de saída, as aspirações de Vandinho de chegar ao 2º turno – em benefício de outros candidatos muito mais simpáticos ao atual prefeito, como Bruno Lamas (PSB), Luciana Malini (PP) e Alexandre Xambinho (PL), além, obviamente, do candidato do partido de Audifax e apoiado por ele, Fábio Duarte (Rede). 

Em tempo: na eleição municipal passada, em 2016, vencida pela chapa Audifax/Márcia Lamas (PSB), a chapa adversária no 2º turno tinha Vidigal na cabeça e Vandinho como vice. Coincidência ou não, são os dois candidatos que agora poderiam ser prejudicados por esse movimento de Greik incentivado discretamente (ou nem tanto) pelo atual prefeito. 

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