Em meio à batalha para conter a expansão do coronavírus no Espírito Santo, o governo Casagrande decidiu realizar uma importante mudança no comando da Secretaria de Estado de Trabalho, Assistência e Desenvolvimento Social (Setades). Por aspirações eleitorais, o secretário Bruno Lamas (PSB) pediu exoneração, já se despediu da equipe e retomará o seu mandato na Assembleia Legislativa. Para o lugar do aliado político, o governador escolheu uma técnica: a subsecretária estadual do Trabalho, Emprego e Geração de Renda, Cyntia Figueira Grillo, agora promovida a secretária.
A nova chefe da Setades já atua há anos na pasta. Com graduação em Administração pela Univeneto (2005), foi gerente de Benefícios e Transferência de Renda no governo passado de Paulo Hartung (2015-2018). Na função, cuidava da gestão do CadÚnico e do Bolsa Família no Espírito Santo, além do Bolsa Capixaba, o programa estadual de transferência direta de renda a famílias tecnicamente em situação de pobreza ou de extrema pobreza, em complementação ao auxílio proveniente do Bolsa Família (programa federal).
No início do atual governo de Casagrande, foi mantida na equipe e promovida a subsecretária de Estado do Trabalho, Emprego e Geração de Renda.
Antes de chegar à Setades, Cyntia Grillo foi secretária de Assistência Social de seu município, Venda Nova do Imigrante, na Região Serrana do Estado. Também foi presidente do Colegiado de Gestores Municipais de Assistência Social (Cogemases), órgão responsável pela articulação das ações e programas, justamente, com a Setades.
A coluna apurou que o governo decidiu promover a subsecretária à chefia da secretaria por dois motivos: o seu perfil técnico e a necessidade de não descontinuar programas, sobretudo num momento em que a Setades adquire importância ainda maior, por conta da pandemia do coronavírus.
Basta atentar para as três vertentes que compõem o nome da secretaria: Trabalho (num momento em que muitos estão com empregos ameaçados e perdendo renda), Assistência (quando muitos precisarão ainda mais dela) e Desenvolvimento Social (colocado em risco em razão da pandemia).
A Setades é, precisamente, a secretaria encarregada de dar cobertura, com uma rede de proteção social, aos cidadãos e cidadãs mais vulneráveis do Espírito Santo, os quais agora devem ficar ainda mais vulneráveis em função da crise econômica resultante da pandemia.
MAIS DO QUE NUNCA, É IMPORTANTE PROFISSIONALIZAR A PASTA
Comentário pessoal do colunista: o momento não permite mesmo o aparelhamento da Setades (e de nenhuma secretaria-fim do governo) e a utilização da secretaria para promoção de aliados políticos, normalmente com fins eleitorais.
Não me refiro especificamente ao deputado estadual Bruno Lamas (correligionário de Casagrande no PSB e pré-candidato a prefeito da Serra nas eleições de outubro). Infelizmente, essas têm sido práticas tradicionais na Setades há muitos anos. Sai governo, entra governo, o chefe do Executivo reserva o comando da Setades para acomodar e agradar políticos do seu próprio partido ou de partidos aliados.
Nos últimos cinco governos, para fazer um recorte contemporâneo, desde a chegada de Paulo Hartung ao Palácio Anchieta (2003), a Setades tem sido quase um “feudo” de partidos de esquerda, como PSB, PDT e, principalmente, o PT, que, salvo por alguns hiatos, apoiou os três governos de Paulo Hartung e o primeiro de Casagrande (2011-2014).
Nos dois primeiros mandatos de Hartung, por lá passaram, por exemplo, Helder Salomão, Givaldo Vieira e Carlos Casteglione, todos do PT. Na primeira gestão de Casagrande, a pasta passou para Rodrigo Coelho (então no PT).
No último governo de Paulo Hartung, a ex-deputada Sueli Vidigal (PDT) ficou lá no primeiro ano (2015), Rodrigo Coelho (então no PDT) chefiou a pasta no segundo (2016), depois Casteglione (PT) ficou no comando por alguns meses, até que, enfim, a secretaria recebeu um sopro técnico, com a nomeação da economista Andrezza Rosalém (sem partido).
Aí Casagrande voltou ao governo e, com ele, a prática de escolher políticos para comandar a Setades, agora felizmente interrompida.
À coluna, durante a gestão de Lamas, chegaram relatos de nomeação de muitos aliados do secretário e pessoas ligadas ao PSB (sobretudo da Serra).
VINDA “DA ITÁLIA”
Como registrei acima, Cyntia Grillo foi secretária de Assistência Social de Venda Nova do Imigrante, município da Região Serrana com intensa presença de descendentes de imigrantes italianos, vindos principalmente das regiões do Trento e do Veneto, ambas localizadas no extremo norte da Itália, próximas à região da Lombardia, o epicentro da disseminação do coronavírus no país.
O campus da Univeneto, onde a nova chefe da Setades formou-se em Administração, também fica em Venda Nova do Imigrante, terra dela. O sobrenome Grillo, obviamente, é italiano.
A Itália, como se sabe, é um dos países com maior número de vítimas da Covid-19.
LAMAS VOLTA PARA A ASSEMBLEIA
A exoneração de Bruno Lamas, a pedido, será publicada nesta quinta-feira (2), no Diário Oficial do Estado. Ele retornará para a Assembleia Legislativa. Tecnicamente, de acordo com resolução do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ele só precisaria se desincompatibilizar do cargo de secretário de Estado no dia 4 de junho (a quatro meses do 1º turno). Mas preferiu fazê-lo agora para se concentrar na construção da sua pré-candidatura a prefeito da Serra.
Nesta terça-feira (31), Lamas já se despediu da equipe na Setades e a sucessora dele no cargo já foi apresentada internamente.
E EUSTÁQUIO DE FREITAS?
Com o retorno de Lamas à Assembleia, o suplente dele, Eustáquio de Freitas (também do PSB), que estava a substituí-lo, volta a ficar sem mandato. Com certeza será aproveitado em algum espaço do governo Casagrande. Provavelmente, na Casa Civil, ajudando o secretário Davi Diniz na articulação política com os deputados estaduais. Atualmente, Freitas é líder do governo no Legislativo estadual.