Neto Barros versus PMs: caso clássico de excessos dos dois lados
Divisão na hora errada
Neto Barros versus PMs: caso clássico de excessos dos dois lados
Ao acusar alguns policiais de não cumprirem seu dever, prefeito acirrou ânimos em momento inoportuno. Na reação, porém, entidades o acusaram de fazer algo que ele não fez: generalização. No meio da briga, quem perde é o cidadão...
Na última quarta-feira (3), em uma live conduzida pela vice-governadora Jaqueline Moraes (PSB), Barros criticou o “fanatismo político” que, segundo ele, leva alguns policiais militares, apoiadores ou simpatizantes do presidente Jair Bolsonaro (abertamente contra o isolamento social), a se recusarem a garantir o cumprimento de regras impostas por decretos relacionados ao isolamento social, no combate à pandemia do novo coronavírus. Segundo Barros, em sua cidade, “tem policial” que participou até de carreatas contra as medidas. Ele arrematou que “o vírus do fanatismo” é tão grave quanto o coronavírus.
Os policiais reagiram, por meio da Frente Unificada de Valorização Salarial. Em nota, a entidade defendeu que a Polícia Militar do Espírito Santo é uma instituição de Estado e, como tal, zela pelo Estado Democrático de Direito, é apartidária e regida pelos princípios constitucionais da legalidade e da impessoalidade. Ótimo! Que seja assim mesmo, como manda a Constituição Federal. Se todos de fato agem assim, estão todos de parabéns.
A Frente também alega que as declarações do prefeito acirram ânimos num momento que exige harmonia e esforço conjunto contra a pandemia. O tom de Barros, realmente, soou excessivo e pode ter gerado um antagonismo desnecessário e acirrado a polarização política na cidade.
Entretanto, a nota da Frente vai além e acusa Barros de ter feito algo que, sinceramente, o prefeito não fez: generalização a “todos os policiais”. De acordo com a nota, “a crítica do prefeito é gravemente generalizadora, estereotipada, repugnantemente ofensiva e baseada no senso comum em definir a todos [os] policiais como ‘bolsonaristas’”.
Vendo e revendo o vídeo com as declarações do prefeito (o único filiado ao PCdoB no Espírito Santo), não se encontra essa generalização. Ao contrário, Barros ainda teve o cuidado de sublinhar que se trata de “uma minoria”: "É bom ressaltar: não são todos os policiais militares e integrantes das Forças Armadas que são bolsonaristas. É uma minoria". Palavras dele. Além disso, em seus exemplos, o prefeito em nenhum momento disse “a PM” ou “os policiais” (no plural), e sim “tem policial que faz isso”, “tem policial que faz aquilo”... Difícil falar em “generalização”, cotejando, friamente, o teor da acusação da Frente com as palavras efetivamente ditas pelo alcaide.
Outra ponderação: assim como não se pode generalizar, também não dá para negar que o bolsonarismo tenha encontrado solo fértil para prosperar em alguns setores das Forças Armadas, das forças policiais nos Estados e de outras forças de segurança. Há setores (vamos frisar: setores) dessas instituições em que o bolsonarismo de fato se enraizou fundamente e encontra grande número de adeptos.
Basta ver a quantidade expressiva de representantes dessas forças eleitos pelo PSL (e apoiando Jair Bolsonaro) no Brasil inteiro, nas eleições de 2018, em cargos parlamentares no Congresso e também aqui, na Assembleia Legislativa do Espírito Santo.
Todo cidadão brasileiro, incluindo militares, tem pleno direito de manter sua preferência política pessoal, como indivíduo. O desafio (e aí Barros chamou atenção para um ponto importante) é não permitir que essa idiossincrasia, como cidadão, influencie, muito menos atrapalhe, o cumprimento do dever funcional do policial, como membro de uma instituição que serve ao Estado – e não a esse ou aquele político ou governante de momento.
CADÊ A UNIÃO DE ESFORÇOS?
De todo modo, a celeuma foi instaurada e, no arremate da nota, a Frente Unificada comunica que adotará “as providências legais e interpelatórias quanto a estas (sic) declarações”. Ou seja, a questão deve ir parar na Justiça. Imagine o “climão” instaurado, agora, na cidade, entre o prefeito e a polícia.
Definitivamente, esse quiproquó ideológico entre o Poder Executivo municipal e a instituição Polícia Militar do Espírito Santo era tudo o que os guanduenses não necessitavam neste momento que, de fato, conclama ao trabalho conjunto e harmônico de todos, a começar pelas instituições públicas que devem ser as primeiras a dar o exemplo. Para o bem do povo guanduense, seriam bem-vindas a união de esforços e a superação da querela.
Adeus, Carreiro! E Victor Hugo, Montesquieu, Hannah Arendt...
Secretário de Comunicação Social da Assembleia Legislativa na Era Erick Musso, o jornalista Fernando Carreiro anunciou, na última quarta-feira (3), a sua despedida do cargo, para tocar outros projetos profissionais (atenção: tem campanha chegando). Na carta em que informou a decisão à imprensa e ao mercado, logo nas primeiras linhas, lê-se uma citação de Victor Hugo. Escritor apreciado por… Carreiro, o ícone do Romantismo francês era presença constante em discursos feitos pelo presidente da Assembleia, Erick Musso, ao lado de outros, como os filósofos Montesquieu e Hannah Arendt. Caiu o último resquício de dúvida quanto a quem era o ghost writer de Musso…
Aliás, 100% de certeza nós teremos se, no próximo discurso de Musso, o presidente da Assembleia não fizer nenhuma referência a “O Espírito das Leis” (clássico de Montesquieu).
Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo