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Divisão na hora errada

Neto Barros versus PMs: caso clássico de excessos dos dois lados

Ao acusar alguns policiais de não cumprirem seu dever, prefeito acirrou ânimos em momento inoportuno. Na reação, porém, entidades o acusaram de fazer algo que ele não fez: generalização. No meio da briga, quem perde é o cidadão...

Publicado em 05 de Junho de 2020 às 16:40

Públicado em 

05 jun 2020 às 16:40
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Neto Barros fez as declarações durante uma live com a vice-governadora Jaqueline Moraes
Neto Barros fez as declarações durante uma live com a vice-governadora Jaqueline Moraes Crédito: Reprodução da internet
O desentendimento entre o prefeito de Baixo Guandu, Neto Barros (PCdoB), e associações de policiais e bombeiros do Estado, é o caso clássico em que há excessos dos dois lados, tanto nas declarações do prefeito como na reação das entidades. Os dois lados estão certos, mas nenhum deles tem razão.
Na última quarta-feira (3), em uma live conduzida pela vice-governadora Jaqueline Moraes (PSB), Barros criticou o “fanatismo político” que, segundo ele, leva alguns policiais militares, apoiadores ou simpatizantes do presidente Jair Bolsonaro (abertamente contra o isolamento social), a se recusarem a garantir o cumprimento de regras impostas por decretos relacionados ao isolamento social, no combate à pandemia do novo coronavírus. Segundo Barros, em sua cidade, “tem policial” que participou até de carreatas contra as medidas. Ele arrematou que “o vírus do fanatismo” é tão grave quanto o coronavírus.
Os policiais reagiram, por meio da Frente Unificada de Valorização Salarial. Em nota, a entidade defendeu que a Polícia Militar do Espírito Santo é uma instituição de Estado e, como tal, zela pelo Estado Democrático de Direito, é apartidária e regida pelos princípios constitucionais da legalidade e da impessoalidade. Ótimo! Que seja assim mesmo, como manda a Constituição Federal. Se todos de fato agem assim, estão todos de parabéns.
A Frente também alega que as declarações do prefeito acirram ânimos num momento que exige harmonia e esforço conjunto contra a pandemia. O tom de Barros, realmente, soou excessivo e pode ter gerado um antagonismo desnecessário e acirrado a polarização política na cidade.
Entretanto, a nota da Frente vai além e acusa Barros de ter feito algo que, sinceramente, o prefeito não fez: generalização a “todos os policiais”. De acordo com a nota, “a crítica do prefeito é gravemente generalizadora, estereotipada, repugnantemente ofensiva e baseada no senso comum em definir a todos [os] policiais como ‘bolsonaristas’”.
Vendo e revendo o vídeo com as declarações do prefeito (o único filiado ao PCdoB no Espírito Santo), não se encontra essa generalização. Ao contrário, Barros ainda teve o cuidado de sublinhar que se trata de “uma minoria”: "É bom ressaltar: não são todos os policiais militares e integrantes das Forças Armadas que são bolsonaristas. É uma minoria". Palavras dele. Além disso, em seus exemplos, o prefeito em nenhum momento disse “a PM” ou “os policiais” (no plural), e sim “tem policial que faz isso”, “tem policial que faz aquilo”... Difícil falar em “generalização”, cotejando, friamente, o teor da acusação da Frente com as palavras efetivamente ditas pelo alcaide.
Outra ponderação: assim como não se pode generalizar, também não dá para negar que o bolsonarismo tenha encontrado solo fértil para prosperar em alguns setores das Forças Armadas, das forças policiais nos Estados e de outras forças de segurança. Há setores (vamos frisar: setores) dessas instituições em que o bolsonarismo de fato se enraizou fundamente e encontra grande número de adeptos.
Basta ver a quantidade expressiva de representantes dessas forças eleitos pelo PSL (e apoiando Jair Bolsonaro) no Brasil inteiro, nas eleições de 2018, em cargos parlamentares no Congresso e também aqui, na Assembleia Legislativa do Espírito Santo.
Todo cidadão brasileiro, incluindo militares, tem pleno direito de manter sua preferência política pessoal, como indivíduo. O desafio (e aí Barros chamou atenção para um ponto importante) é não permitir que essa idiossincrasia, como cidadão, influencie, muito menos atrapalhe, o cumprimento do dever funcional do policial, como membro de uma instituição que serve ao Estado – e não a esse ou aquele político ou governante de momento.

CADÊ A UNIÃO DE ESFORÇOS?

De todo modo, a celeuma foi instaurada e, no arremate da nota, a Frente Unificada comunica que adotará “as providências legais e interpelatórias quanto a estas (sic) declarações”. Ou seja, a questão deve ir parar na Justiça. Imagine o “climão” instaurado, agora, na cidade, entre o prefeito e a polícia.
Definitivamente, esse quiproquó ideológico entre o Poder Executivo municipal e a instituição Polícia Militar do Espírito Santo era tudo o que os guanduenses não necessitavam neste momento que, de fato, conclama ao trabalho conjunto e harmônico de todos, a começar pelas instituições públicas que devem ser as primeiras a dar o exemplo. Para o bem do povo guanduense, seriam bem-vindas a união de esforços e a superação da querela.

Adeus, Carreiro! E Victor Hugo, Montesquieu, Hannah Arendt...

Secretário de Comunicação Social da Assembleia Legislativa na Era Erick Musso, o jornalista Fernando Carreiro anunciou, na última quarta-feira (3), a sua despedida do cargo, para tocar outros projetos profissionais (atenção: tem campanha chegando). Na carta em que informou a decisão à imprensa e ao mercado, logo nas primeiras linhas, lê-se uma citação de Victor Hugo. Escritor apreciado por… Carreiro, o ícone do Romantismo francês era presença constante em discursos feitos pelo presidente da Assembleia, Erick Musso, ao lado de outros, como os filósofos Montesquieu e Hannah Arendt. Caiu o último resquício de dúvida quanto a quem era o ghost writer de Musso…  

Aliás, 100% de certeza nós teremos se, no próximo discurso de Musso, o presidente da Assembleia não fizer nenhuma referência a “O Espírito das Leis” (clássico de Montesquieu).

Cena Política

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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