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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica aqui, diariamente, informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Nem Mano nem o hermano. PT não ouviu ninguém

Publicado em 01/11/2018 às 22h24

O ex-presidente uruguaio José Pepe Mujica virou um símbolo respeitável da esquerda latino-americana, seja pela dignidade e pela resistência como preso político durante os 12 anos de sangrenta ditadura civil-militar em seu país, seja pela humildade, pela simplicidade e pela honorabilidade que sempre demonstrou no exercício do mais alto cargo de comando da República Oriental do Uruguai.

Em meados de março, menos de um mês antes de ser preso, Lula protagonizava a sua caravana pelo Sul do país. Realizou um comício no Parque Internacional, um território compartilhado, na divisa entre as cidades de Santana do Livramento e Rivera. Para o ato, o convidado especial foi o aliado Pepe Mujica. Ele fez um discurso marcante. Cobrou que a esquerda “cuide enormemente” da conduta dos seus líderes, que devem adotar um estilo de vida “do povo”, e criticou a centralização em uma figura única.

Não se sabe até que ponto o pronunciamento de Mujica foi propositalmente endereçado a Lula. Mas o fato é que caiu como uma luva para o ex-presidente brasileiro e líder maior do PT. Como sempre, porém, os conselhos não foram ouvidos pelos dirigentes do partido. Aliás, quando é que o PT se dispõe a ouvir alguém e a aceitar críticas, mesmo aquelas vindas de aliados?

“Nós da esquerda também cometemos erros. Também nos equivocamos”, reconheceu Mujica. Parece óbvio, não? Não para o PT. A capacidade de admitir erros e expiá-los é algo que não consta no manual dos líderes petistas. Coube a Haddad, já na reta final da campanha, fazer, muito timidamente, uma autocrítica a que nem Lula nem Dilma jamais se dispuseram. Uma autocrítica por erros que nem eram dele pessoalmente. Essa soberba do PT custou caro ao partido, insuflando ainda mais a rejeição à legenda, até por parte de eleitores que antes votavam nela, mas que se desiludiram.

“Não queremos aprender que as derrotas da esquerda são filhas de suas divisões”, prosseguiu Mujica. “Desde a Revolução Francesa, da Espanha franquista, da Alemanha nazista, isso foi possível porque a esquerda se dedicou a lutar entre si, muito mais do que lutar com a direita. Temos de aprender, em toda a América Latina, que, sem unidade, não há poder. E ninguém tem a verdade total.”

Mujica aí foi profético. Na eleição presidencial brasileira, a falta de unidade entre as forças políticas de centro-esquerda foi, precisamente, um dos fatores determinantes para a vitória de um candidato de extrema-direita. Em vez de se unir a outras forças do mesmo campo para enfrentar Bolsonaro, o PT, agindo como portador da “verdade total”, insistiu em manter o protagonismo, levou até o limite a farsa da candidatura de Lula e, como se não bastasse, sabotou a aliança do PDT de Ciro com o PSB, minando a sustentação da candidatura do ex-governador do Ceará. No segundo turno, sem humildade, petistas esperaram a adesão automática, por gravidade, de Ciro ao palanque de Haddad. Ficaram esperando.

Na sequência, Mujica deu outro conselho que o PT teria feito muito bem se tivesse ouvido e seguido anos antes:

“Nós que brigamos pela igualdade temos o dever de viver como vive a maioria do nosso povo, e não como vive a minoria privilegiada. Os partidos de esquerda têm de cuidar enormemente da conduta e da vida da gente que os representa.”

Nesse aspecto, Lula e Mujica são opostos. Enquanto este se manteve imune às seduções do poder político e econômico, Lula se deixou embriagar por ele e então “aburguesou-se”.

O ex-líder dos metalúrgicos do ABC chegou à Presidência como um representante das massas e símbolo máximo da ascensão dos trabalhadores ao poder na América Latina. Mas, segundo as investigações da Lava Jato, o ex-presidente traficou influência junto ao governo Dilma em benefício de mega-empreiteiras, que em troca lhe teriam pago com imóveis, reformas e outros mimos que aumentaram o seu patrimônio – embora mantido oculto, em nome de terceiros. Por sua vez, o ex-guerrilheiro José Dirceu enriqueceu prestando falsas consultorias.

Figura única

Atualmente senador, Mujica também criticou a centralização de lideranças em uma “figura única”: “As mudanças [sociais] não podem se respaldar em uma figura única e o futuro não é uma figura única. Há que se construir o partido”.

E aí talvez o erro capital do PT: nascido em 1980 como partido trabalhista de base (jamais “comunista”, é bom que se diga), o PT, com o passar do tempo, acabou trocando aquela que sempre foi a sua maior virtude – o trabalho de organização e mobilização das bases – pela centralização em torno de uma casta de dirigentes (os capas pretas) e, acima de tudo, pelo desenvolvimento do lulopetismo: o culto à figura do grande líder e a idolatria em face de Lula como “filho do Brasil” e “pai dos pobres”, uma imagem reforçada pela narrativa épica que normalmente acompanha a biografia do ex-retirante nascido em Garanhuns (PE).

O PT, enfim, preferiu ignorar os sábios conselhos do hermano. Agora que sai derrotado de uma eleição presidencial pela primeira vez desde 1998, precisa ouvir os conselhos do Mano. Será o assunto da coluna de amanhã.

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