Os sete juízes do TRE-ES barraram por unanimidade, nesta
sexta-feira (11), a candidatura de Gilvan da Federal (PL) à reeleição na Câmara
dos Deputados. O motivo: ele está inelegível por ter sido condenado em três
instâncias pelo crime de violência política contra mulher. A decisão do TRE-ES
é emblemática. Mais que emblemática, é pedagógica. Não só para o deputado, mas para
toda a classe política. E para todos nós, como sociedade.
Na política (como na vida), o insulto não pode prosperar. O
ataque não pode prosperar. O desrespeito não pode prosperar. A agressão verbal
não pode prosperar. Mas essas têm sido as marcas do fazer político de Gilvan.
Ao longo dos últimos seis anos, o deputado transformou o
insulto em regra; o ataque em forma de fazer política; o desrespeito em arma; a
agressão verbal em modus operandi.
Tudo isso com assombroso grau de naturalidade, como se a política fosse isso aí
mesmo... como se fosse normal e aceitável proceder dessa maneira. Não é.
Desde os primórdios, na Câmara de Vitória, a prática
política de Gilvan tem sido um terremoto de fúria e violência verbal e
simbólica. Em seus primeiros meses de vereança, estupefata, parte da imprensa e
da sociedade capixaba passou a se indagar: o que é isso que estamos a assistir?
De onde vem tamanha fúria? Por que sempre essa raiva toda? E o que essa ira
constrói?
Sistematicamente, Gilvan tem tratado adversários não como o que
são (adversários!), mas como inimigos odiáveis e desprezíveis que nem deveriam
existir e que, portanto, precisam ser combatidos com todo o vigor. “Combatidos”
é pouco. Aniquilados. Política com P não é isso.
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Não se trata só de Gilvan. O deputado tornou-se um arquétipo de certo comportamento político que tem se multiplicado nos últimos anos, impulsionado
pela polarização ideológica nacional e pela “ditadura dos algoritmos” que regem
as redes sociais, universo onde o ódio nutrido pelos haters em suas bolhas gera muito engajamento (e votos).
Tal comportamento político não pode ser banalizado, sob o
risco de caminharmos a passos largos para uma realidade distópica que subverte não
só o ideal como a própria finalidade real da atividade política, concebida como
o espaço do confronto saudável (e respeitoso!) de ideias.
Na democracia, desde a Grécia Antiga, a política não é um octógono
nem uma jaula de vale-tudo, onde vence quem vocifera mais alto e demonstra
maior desprezo pelo oponente. Política é, por definição, a arena do debate
público – mais que tudo no Parlamento, cuja essência é exatamente essa.
Imaginemos uma Câmara dos Deputados formada por 513 Gilvans.
Ou por 100 Gilvans que fossem... uma centena de “pitbulls sem coleira”, como costuma dizer Magno Malta (PL). Que
debate seria possível ali? Alguém conseguiria se ouvir? Onde é que iríamos parar?
A Câmara é, por excelência, a Casa de representação do povo,
a caixa de ressonância popular que ecoa – e para onde escoam – as aspirações da
nossa sociedade. De certo modo, a Câmara reflete a imagem do povo brasileiro. Ao
mesmo tempo, porém, o comportamento dos nossos representantes, ali instalados
por vontade popular, também inspira e influencia o comportamento social, num
jogo de espelhos que se refletem mutuamente.
Dizendo-o de outra maneira, nossos parlamentares servem de
exemplos para nossa sociedade. Espera-se, pois, que se comportem de maneira
exemplar, com a responsabilidade exigida pelo cargo. Esse comportamento
gilvanesco não pode ser banalizado, muito menos naturalizado. Seria um atalho
para a barbárie.
Como a Justiça, inclusive a Eleitoral, é pródiga em
reviravoltas, Gilvan ainda poderá quem sabe receber do TSE alguma boia de
salvação. De todo modo, tornemos ao ponto: a negativa à sua candidatura tem
efeito pedagógico. O próprio poderia aproveitar a ocasião para se propor uma
autorreflexão.
Nada indica que o fará.
Aparentemente inalterável, o deputado segue obstinado a
aplicar sua “doutrina da fúria e da agressão gratuita”. Foi assim, por exemplo,
quando sugeriu que a ex-ministra Gleisi Hoffmann seria “uma prostituta do
caramba”.
Por essa fala, recebeu um “gancho” da Comissão de Ética da
Câmara, em maio de 2025: suspensão do mandato por três meses, após denúncia por
quebra de decoro parlamentar apresentada pela própria direção da Casa, a qual,
ineditamente, pediu a suspensão de um deputado antes mesmo da eventual
instauração de processo disciplinar.
Assim também quando Gilvan literalmente desejou a morte do
atual presidente, Lula da Silva, razão pela qual, no último 18 de agosto, tornou-se
réu por decisão da Primeira Turma do STF, em ação criminal por injúria
qualificada proposta pela Procuradoria Geral da República (uma das muitas a que
responde, em vários foros).
“Nem o diabo quer o Lula, por isso que ele está vivendo aí. Superou o
câncer. Tomara que ele tenha uma taquicardia, porque nem o diabo quer a
desgraça desse presidente que está afundando o país. Quero mais que ele morra
mesmo”, disse o parlamentar, dentro da Câmara, em abril de 2025.
Aliás, se puxarmos da memória, pelo que exatamente o atual
mandato de Gilvan é e será lembrado? Por algum projeto de lei? Alguma relatoria
importante? A presidência de alguma comissão? Alguma bandeira concreta de interesse
do povo capixaba, além daquela que sempre carrega?
O que vem à mente são precisamente episódios como os já
citados, além de outros como, por exemplo, o bizarro “desafio” lançado por ele
ao senador Marcos do Val em meados de 2024.
À época, eles vinham se estranhando, a ponto de quase terem
chegado às vias de fato no saguão de um aeroporto. Dias depois, Gilvan subiu à
sagrada tribuna da Câmara para chamar o desafeto a resolver suas diferenças da
maneira mais primitiva que o ser humano conhece: luta corporal.
De novo: isso é a antítese da ideia de política, tal como concebida
pelos “inventores da democracia”, lá na ágora: arena pública para o diálogo, o debate
salutar de ideias, o enfrentamento (no bom sentido) de propostas, o respeito às
diferenças de pensamento, a tolerância à dissonância, o exercício do dissenso em
busca da produção dos consensos possíveis em nome do interesse público e
coletivo, sempre visando ao bem maior da população.
Isso é política. Não é a
Por fim, cabe um comentário que diz respeito muito
intimamente aos interesses específicos do povo capixaba.
No sistema bicameral do Congresso, a Câmara é a Casa que
representa a população brasileira. Por isso, as 513 cadeiras dão divididas
proporcionalmente ao tamanho da população das 27 unidades da federação. Com 2%
da população brasileira, o Espírito Santo tem pouco menos de 2% dos assentos:
apenas dez deputados federais.
De modo inversamente proporcional ao tamanho de nossa bancada,
o Estado tem imensas demandas históricas, cujas soluções passam necessariamente
por Brasília.
Cada um dos dez deputados conta muito na resolução das
questões reais, objetivas e urgentes para a população capixaba.
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