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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Marcelo Santos entre Erick e Casagrande na eleição da Assembleia

Deputado dá sinais de que está insatisfeito com movimento do governo Casagrande e de que pode reeditar aliança com Erick Musso para complicar candidatura do Palácio

Publicado em 14/01/2021 às 02h04
Atualizado em 14/01/2021 às 14h04
Marcelo Santos entre Erick Musso e Renato Casagrande
Marcelo Santos entre Erick Musso e Renato Casagrande. Crédito: Amarildo

Erick Musso (Republicanos), Marcelo Santos (Podemos) ou Dary Pagung (PSB)? Qual dos três para a presidência da Assembleia no biênio 2021-2022? Mantendo a fleuma e o discurso institucional, o governador Renato Casagrande (PSB) diz que os três são bons nomes para o cargo. Reservadamente, outros agentes do governo afirmam que o Palácio Anchieta prefere Marcelo ou Dary, em detrimento do atual presidente. Mas Marcelo pode estar recuando, ou dando sinais de que pode tirar o time de campo nessa disputa não declarada.

Pelo que apuramos, Marcelo está aborrecido com o governo Casagrande – especificamente, com esse negócio de o Palácio ficar alimentando a candidatura dele e a de Dary ao mesmo tempo. O veterano deputado fez chegar a um emissário de Casagrande que está incomodado e se sentindo usado pelo governo. Por essa ótica, o governo poderia estar usando Marcelo para inflar a candidatura de Dary, o líder de Casagrande no plenário.

Na última terça-feira (12), o governador anunciou, em sumária cerimônia no Palácio Anchieta, a publicação do edital para contratação das obras de construção de quatro píeres para reinício da operação do sistema de transporte aquaviário entre Vitória, Vila Velha e Cariacica. Além de Casagrande, da vice-governadora Jaqueline Moraes (PSB) e do secretário estadual de Mobilidade e Infraestrutura, Fábio Damasceno (PSB), só dois deputados estaduais participaram do anúncio no gabinete do governador: precisamente, Marcelo e Dary. Casagrande se fez acompanhar dos dois.

Marcelo não parece ter gostado de ter sido colocado no mesmo patamar que Dary, não só pelo pano de fundo da eleição da Assembleia, mas pela própria pauta da cerimônia. Há muitos anos, ele é o presidente da Comissão Permanente de Infraestrutura, Mobilidade Urbana e Logística da Assembleia. Dary é apenas membro da comissão. Marcelo é de Cariacica, defende há muito tempo a volta do aquaviário e empenhou-se pessoalmente na inclusão de um terminal em sua cidade (no bairro Porto de Santana). Dary é de Baixo Guandu. Oficialmente, foi convidado para a solenidade como líder do governo.

Ainda na terça-feira, pelo que a coluna apurou, Marcelo fez chegar ao governo seu descontentamento pela maneira como tem sido tratado. No resto do dia, permaneceu bastante silencioso. Na manhã do dia seguinte (esta quarta-feira, 13), para surpresa de muitos, publicou em sua conta no Instagram um story no qual aparece ao lado de Erick Musso, conversando animadamente, no que parece um gabinete da Assembleia.

Sentados a uma mesa de reuniões, os dois não dizem absolutamente nada; só se deixam filmar juntos e dando risadas (especialmente Erick). O objetivo foi apenas esse: mostrar que os dois estão literalmente rindo juntos. A legenda, vaga e enigmática: “Conversando com o presidente da Assembleia, deputado Erick Musso, sobre as próximas ações do Parlamento Capixaba”.

Story de Marcelo Santos com Erick Musso (13/01/2021)
Story de Marcelo Santos com Erick Musso (13/01/2021). Crédito: Reprodução Intsgram de Marcelo Santos

É claro que isso foi um recado de Marcelo para o Palácio Anchieta. Afinal, nessa guerra de nervos, Marcelo seria a aposta do governo Casagrande para substituir Erick Musso na presidência, em um acordo que passaria pela formação de uma chapa de consenso e pela ida de Erick para o secretariado do governo estadual.

O entendimento geral é que, se Marcelo for o “candidato oficial”, é mais fácil convencer Erick a ceder em favor dele, já que os dois têm excelente relação e são aliados no atual comando da Assembleia. Além de ser o atual vice-presidente, Marcelo foi o principal articulador da primeira eleição de Erick, quando o deputado de Aracruz desbancou Theodorico Ferraço (DEM), no início de 2017.

Assim, com a “solução Marcelo Santos”, não haveria de modo algum ruptura, mas acordo entre as partes. Já se o Palácio Anchieta optar por Dary Pagung (líder do governo, deputado do PSB e desafeto com quem Erick já teve profundas desavenças), essa candidatura oficial será uma demonstração de força por parte do governo e, no limite, enfrentamento direto com Erick e seu grupo político. Os dois lados podem medir forças.

Exatamente por saber que representa para o governo a melhor esperança de uma solução diplomática, Marcelo está buscando se valorizar no jogo, isto é, receber do governo o valor que entende ter neste momento delicado deste processo decisivo para Casagrande. E, justamente por isso, mandou via Instagram o seu recado cheio de conotações, do qual podemos depreender:

1) Ele não vai brigar de jeito nenhum com Erick por causa da Mesa Diretora. Só topa encabeçar uma chapa se for essa uma chapa de consenso;

2) Se o governo quiser que ele seja o candidato oficial à presidência da Assembleia, ele tem que ser devidamente valorizado nesse processo;

3) Se o governo quiser que ele suceda Erick, o governo tem que se entender de uma vez por todas com o atual presidente e “resolver a vida” de Erick. Mas construir candidatura contra Erick, ele não vai. Na perspectiva de Marcelo, o governo é que tem que se encarregar de construir sua candidatura junto aos outros deputados e chegar a algum acordo de benefício mútuo com o atual chefe do Legislativo.

MARCELO TÁ DE BOA

A bem da verdade, Marcelo está muito à vontade nesse processo, pois não precisa da presidência, isso está longe de ser uma obsessão para ele e, ao contrário do governo e de Erick, ele não tem nada a perder nesse jogo: só a ganhar ou, na pior hipótese, empatar. O que vier para ele é lucro.

Se o governo quiser bancar sua candidatura, nos termos expostos acima (sem racha com Erick), bem, ele topa. Se não quiser, ele “fica de boa” do mesmo jeito, mantendo o bom espaço que possui na Casa atualmente.

Após ajudar a eleger mais de 20 prefeitos aliados pelo interior no ano passado, além de Euclério Sampaio (DEM) em Cariacica, Marcelo possui hoje um tamanho político que lhe permite prescindir da presidência (algo que ele nunca teve, de qualquer maneira), a não ser que o governo queira fazê-lo presidente. O que ele não aceitará de modo algum é, por exemplo, continuar sendo vice-presidente da Mesa, mas tendo sentado à presidência Dary no lugar de Erick. Entende que isso seria subestimá-lo. Aí prefere se manter ao lado do atual presidente e preservar o arranjo atual (como, aliás, insinua em seu story).

Por sinal, o aparentemente despretensioso story da velha raposa contém uma ameaça implícita que “entendedores entenderam”: se o governo não valorizar Marcelo nesse processo e decidir bancar Dary Pagung, Marcelo pode entrar nessa eleição de novo com Erick (isto é, contra Dary e, portanto, contra o próprio governo). O atual presidente agradece e, literalmente, dá risadas.

Mas essa história, incluindo os seus stories, ainda há de ter algumas reviravoltas até o fatídico 1º de fevereiro.

QUEM FOI CHAMADO?

Oficialmente, a explicação do Palácio Anchieta acerca da solenidade do aquaviário é que o cerimonial convidou todos os deputados da Grande Vitória, além de Dary Pagung (na condição de líder), mas apenas ele e Marcelo se fizeram presentes. Por não ser da Grande Vitória, Erick Musso nem sequer foi convidado.

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