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Eleições 2020

Mais firme e mais segura, Célia foi bem melhor que Euclério no debate de Cariacica

Euclério foi para o encontro com a estratégia de explorar o antipetismo, mas estava muito tenso e cometeu erros básicos, enquanto candidata petista mostrou-se mais preparada para o debate

Publicado em 24 de Novembro de 2020 às 22:27

Públicado em 

24 nov 2020 às 22:27
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Debate entre os candidatos a prefeito de Cariacica, Célia Tavares (PT) e Euclério Sampaio (DEM)
Debate entre os candidatos a prefeito de Cariacica, Célia Tavares (PT) e Euclério Sampaio (DEM) Crédito: Ricardo Medeiros
É o tipo de afirmação que deve ser usada com parcimônia, a menos que tenha havido uma diferença de desempenho muito ampla e gritante entre os dois contendores. Foi o caso, sem sombra de dúvida, do debate promovido por A Gazeta e pela Rádio CBN Vitória entre os candidatos que disputam o 2º turno da eleição à Prefeitura de Cariacica, Célia Tavares (PT) e Euclério Sampaio (DEM). A candidata do PT se saiu muito melhor que o adversário e o superou com sobras. Diante de um Euclério Sampaio muito tenso e um pouco enrolado em alguns momentos, Célia mostrou-se mais firme, mais clara, mais segura e mais preparada para o debate.
Em alguns momentos, professora que é por formação, a ex-secretária de Educação de Helder Salomão “doutrinou” o adversário, não no sentido de “doutrinação ideológica”, mas porque, por vezes, pareceu “lecionar” para Euclério, que não memorizou bem a cartilha para o debate e cometeu o erro mais elementar que pode ser cometido por qualquer debatedor. Traindo insegurança e/ou falta de preparação suficiente para um debate contra uma adversária dura, o deputado simplesmente começou a ler a maior parte do tempo, recorrendo sem pejo às suas colas, nas respostas, réplicas, tréplicas e até em perguntas dirigidas a Célia, que, atenta, não perdoou:
“E, se vocês estão reparando, ele só consegue ler. Ele fica lendo lá… Realmente, Cariacica não aguenta não…”
O debate foi o confronto entre um candidato bem mais denso (profundo) e outro bem mais tenso. Revelando certo nervosismo desde o início, Euclério, ao ser apresentado pelo mediador, o jornalista Geraldo Nascimento, deu “boa tarde” para ele (às 19h10) e, no ato, corrigiu-se. Mais para o fim, falou que a sua prioridade seria a saúde, quando quis dizer educação, e logo em seguida emendou-se.
Com dicção que não o ajudou muito e novamente expondo nervosismo, Euclério trocou algumas palavras: “Lutando como o crime organizado, lutando como a corrupção”, disse ele, querendo dizer “contra”. Em alguns momentos, administrou mal o tempo. Na tréplica a uma pergunta formulada por jornalistas de A Gazeta, o mediador do debate teve que lembrá-lo de que ainda tinha 40 segundos para falar, mas ele já não tinha o que acrescentar.
Em outros momentos, o candidato descuidou-se da língua, cometendo erros básicos de gramática diante do público e da professora: “Pra mim chegar onde cheguei, teve um professor que me ajudou”; "Além de ter trago prejuízo aos comerciantes, [...]”.
Enquanto isso, Célia mesclou firmeza com leveza. Mostrou-se muito segura, mas leve e sorridente, a não ser nos trechos de embates mais contundentes. Ao ser apresentada pelo mediador, sorriu para a câmera.
Didática, chegou a explicar (muito claramente) o conceito de “ambiência” – o desenvolvimento de um ambiente atraente para negócios e propício para investimentos – e explicou, também de forma clara, o ciclo da microeconomia, isto é, como fazer girar a roda da economia local dos pequenos empreendedores.
Em um debate específico sobre segurança pública, Célia também chegou a ler (como Euclério), mas, diferentemente do deputado, não recorrendo a uma cola, e sim para provar a ele o que está realmente escrito no seu plano de governo sobre a Guarda Municipal.
Euclério havia alegado que o plano dela dizia que ela é contra a criação da Guarda. “O candidato mostra despreparo para ler programas de governo. Teremos Guarda Municipal, com formação permanente, para proteger direitos”, começou Célia, prometendo, ainda, a criação da Secretaria de Segurança e Direitos Humanos e criticando a militarização da segurança pública: “Militarização, por si, não resolve”.
Na réplica, Euclério, policial aposentado, lançou mão de um discurso mais “linha dura” contra a criminalidade, salientando sua profissão de origem: “Pretendemos agir com firmeza e rigor no combate à criminalidade. De segurança eu entendo um pouco, mas entendo o bastante”. E insistiu na sua versão sobre o plano de Célia para a área.
Então, na tréplica, a petista apelou para a leitura do próprio plano e pareceu mesmo uma professora repassando a cartilha com o aluno desatento: “Já que o candidato tem dificuldade, vou fazer a leitura: [...] É isso que está escrito. Como alguém não está preparado para governar a cidade, inventa coisas no plano de governo de quem discutiu com a cidade”.

O ANTIPETISMO COMO ARMA DE EUCLÉRIO

Euclério veio para o debate com uma estratégia cristalina: a de trazer para o confronto o petismo, ou melhor, o antipetismo, associando Célia de todas as maneiras a episódios de malfeitos praticados por líderes nacionais do PT, a fim de transferir para a adversária a rejeição ao partido nutrida por boa parte do eleitorado. Tal estratégia se materializou no fato de que, só no primeiro bloco, Euclério tratou a adversária, pelo menos dez vezes, como “a candidata do PT”. Depois parei de contar.
O candidato do DEM também trouxe para o debate o hábito, segundo ele, de petistas, de lotearem a máquina pública e inchá-la com os “companheiros”. Célia refutou o loteamento enquanto foi secretária de Educação. Euclério insistiu na questão dos malfeitos, apresentando-se como “o deputado que mais luta contra a corrupção e o crime” e voltando a vincular a roubalheira ao PT: “Temos que acabar com o negócio do rouba, mas faz”; “Meu nome nunca foi envolvido em Lava Jato, em corrupção”; “É escândalo em Brasília, é escândalo em Cariacica. É esse o modelo de gestão do Partido dos Trabalhadores?”
O candidato do DEM chegou ao extremo de evitar usar a expressão consagrada “tapete vermelho” (cor do PT) ao fazer um aceno ao empresariado local: “O nosso foco é estender um tapete azul para os empresários”.
Enquanto Euclério citou sem moderação “a candidata do PT”, a própria em momento algum renegou o partido durante o debate. Ao contrário, abraçou-o orgulhosamente, inclusive no figurino escolhido (um terninho vermelho). E tratou de driblar as cascas de banana atiradas por Euclério (os casos de corrupção nos governos Lula e Dilma, fatos irrefutáveis e ponto fraco de qualquer candidato do PT a qualquer cargo eletivo desde então).
Em compensação, Célia buscou enfatizar a sua própria honestidade e a de seu padrinho e maior apoiador político: o deputado federal e ex-prefeito Helder Salomão, de quem foi secretária de Educação por oito anos (todo o governo Helder), entre 2005 e 2012. Assim como o ex-prefeito, aliás, Célia jamais renegou o PT durante a sua campanha. A contrário, buscou sempre resgatar o legado deixado pela administração do PT na cidade, liderada por Helder e tendo-a como partícipe.

FECHADA COM HELDER

Por sinal, o número de vezes em que Célia mencionou o nome de Helder durante o debate se aproxima do de vezes em que Euclério referiu-se à “candidata do PT”. “Cariacica sente saudades de Helder. As pessoas me dizem isso nas ruas”, afirmou ela.
“Tem um ditado que diz ‘diga-me com quem andas e eu te direi quem és’. Eu ando com Helder Salomão. O outro candidato, Cariacica sabe com quem anda…”, disse Célia, mais para o fim, insinuando algo que, na verdade, ela exteriorizou ao longo de toda a contenda: um possível vínculo político entre Euclério e Juninho (Cidadania), e um possível apoio velado do atual prefeito ao deputado do DEM, com a mobilização de comissionados da prefeitura para a campanha de Euclério, o que este rebateu.

O RENEGADO JUNINHO

Mais de uma vez, Célia aludiu à administração de Juninho (por sinal, muito criticada por ela, mas não por Euclério) como o “governo que apoia esse candidato” e “oito anos do governo que o apoia”. Aliás, usou muito a palavra “abandono” para se referir à atual administração, sempre associando-a a Euclério – portanto, vinculando esse “abandono” ao adversário.
Em contraponto, Euclério tratou de afastar do seu colo o prefeito Juninho (que, em resumo, foi o personagem mais rejeitado no debate). “O prefeito não me apoia”, afirmou, lembrando que Juninho na verdade foi vice de Helder no segundo mandato do petista e afirmando que o candidato a vice-prefeito de Célia tem uma irmã trabalhando na prefeitura.

EUCLÉRIO PARA TODOS

Euclério buscou se apresentar como um candidato agregador, que governará sem preferências partidárias e ideológicas: “Pregamos a união de todos”. Também enfatizou seu amplo leque de aliados, citando com destaque o governo Casagrande, “o prefeito mais bem avaliado do Estado, Gilson Daniel, de Viana” e “quase todos os deputados estaduais”.

DOIS PROJETOS EM OPOSIÇÃO

Curiosamente, tanto Célia quanto Euclério apresentaram a disputa entre eles como a antítese entre dois projetos, mas com definições muito distintas sobre o que seria essa antítese. Célia buscou traduzi-la em termos de "mudança pra valer" (representada por ela) versus “continuidade do abandono” (segundo ela, encarnada por Euclério, que, mais uma vez, seria apoiado veladamente por Juninho).
Já Euclério colocou a disputa em termos de “filho da cidade” (ele mesmo) contra "alguém que vem de fora" (a adversária, que, segundo o deputado, teria vindo do município de Fundão).
Esse foi, aliás, um dos pontos que dominou boa parte do debate.

QUEM É DE ONDE?

A bem da verdade, quem “jogou a primeira pedra” neste capítulo à parte da contenda foi Célia, ao afirmar que Euclério vem de Vila Velha, onde até chegou a ser candidato a prefeito, em 2004.
Primeiro Euclério defendeu-se. “Prefiro discutir propostas. Nunca neguei que morei um período pequeno em Vila Velha. Nasci e cresci em Cariacica, a cidade que escolhi para viver. Moro e amo minha cidade.” Também disse nunca ter negado que, “como empresário”, tem negócios em Vitória e Vila Velha. “Tentar me desvincular de Cariacica é uma ofensa.”
Depois retrucou que Célia, na verdade, viria de Fundão. “Eu nunca perguntei por que a senhora mora em Fundão. [...] Tira o pai de casa pra dizer que mora em Nova Brasília… Isso é muito feio!”
E esse, a partir de então, tornou-se um mote recorrente do candidato no decorrer do debate. Célia, de passagem, afirmou que sua região são os bairros de Nova Brasília e Itanguá.

DESABAMENTO DA ESCOLA

Euclério também trouxe para o debate um ponto muito sensível e delicado que marcou de maneira triste a gestão de Helder Salomão (e da própria adversária, na Secretaria de Educação de Cariacica): o desabamento do telhado da escola municipal de ensino infantil Amélia Virgínia Machado, no dia 1º de dezembro de 2010, durante o segundo mandato de Helder como prefeito, levando a óbito duas meninas. “Mortes ocorreram”, cravou Euclério.
Célia não poupou o adversário na réplica: “O candidato demonstra incompetência, insensibilidade e despreparo. Eu não respondo a nenhum processo por uma fatalidade que ocorreu”, argumentou a candidata, cobrando do oponente “respeito à dor das famílias”.
Em resposta, Euclério elevou o tom, em seu momento mais assertivo em todo o debate: “Quem não respeita a dor de um pai e de uma mãe que perdeu um filho por causa da incompetência administrativa da gestão do PT?”
Célia retrucou ostentando a sua ficha limpa: “Quando não se tem propostas, se faz ataques. Usar a dor das famílias por uma questão de fatalidade que ocorreu… [...] Nós fomos investigados pelo Ministério Público e pela polícia. Fomos investigados por um setor do Ministério Público que perseguiu a gente. Procure saber se há algum processo contra mim e contra Hélder. Esse jogo sujo e esse jogo baixo Cariacica não aguenta mais…”
Ainda na área da educação, a professora jogou uma casca de banana, na qual Euclério escorregou, instando o candidato a destacar uma das metas do Plano Nacional de Educação (PNE). Euclério falou em 30 metas. Professoralmente, ela o corrigiu: na verdade, só há 20 metas. “O senhor poderia ter citado algumas, mas misturou alhos com bugalhos. [...] Realmente, incompetente o senhor é. O senhor disse aqui que o Plano Nacional de Educação tem 30 metas.”

EMPODERAMENTO FEMININO

Como possível segunda mulher eleita prefeita no Espírito Santo em 2020, num universo de 78 municípios, Célia dirigiu a Euclério uma pergunta específica sobre aumento da participação feminina na política. Euclério se embananou um pouco. Não citou nenhuma ação específica, e sim a sua candidata a vice e candidatas a vereadora da sua coligação, mas não soube citar o nome de uma delas, chamando-a de “a pastora do PROS”. “Temos diversos projetos e vamos construí-los a muitas mãos junto com as mulheres”, mencionou, vagamente.

CURIOSIDADE

“A verdade vencerá a mentira”, disse Célia nas considerações finais, numa espécie de paráfrase do slogan de Lula na campanha presidencial de 2002: “A esperança vencerá o medo”.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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