Esta é da série “As voltas que a política dá” (e a volta em questão foi das mais rápidas): o prefeito de Vila Velha, Arnaldinho Borgo (Podemos), escolheu dois vereadores que foram aliados de primeira hora de seu antecessor, Max Filho (PSDB), durante o mandato passado, para exercerem as funções de líder e vice-líder dele no plenário da Câmara Municipal.
O líder de Arnaldinho será o vereador Rogério Cardoso (DEM), enquanto seu vice-líder será Osvaldo Maturano (PSDB). Na legislatura passada, os dois estiveram entre os vereadores mais próximos do então prefeito Max Filho. Agora líder de Arnaldinho, Cardoso foi líder de Max na primeira metade do último mandato, de 2017 a 2018. Seu partido, o DEM, apoiou a reeleição de Max e fez parte da coligação dele em Vila Velha. Já Maturano chegou a trocar de partido e, em abril do ano passado, filiou-se ao PSDB para poder concorrer à reeleição pelo partido de Max.
A indicação oficial dos dois pelo prefeito Arnaldinho já é oficial: foi lida na sessão plenária da última quarta-feira (13). Conversamos com ambos nesta quinta (14). Cardoso e Maturano negam qualquer tipo de conflito. E põem panos quentes nas brigas entre o atual prefeito e seu antecessor.
Eles são exatamente os dois vereadores mais experientes da Câmara de Vila Velha. Cardoso, o decano, está iniciando o 5º mandato consecutivo, enquanto Maturano está começando o 3º seguido. Desde que chegou à Câmara, no segundo governo de Max Filho (2005/2008), Cardoso sempre foi vereador da base, passando pelas administrações de Neucimar Fraga, Rodney Miranda, Max de novo e, agora, Arnaldinho. Aos 47 anos, ele acredita que sua experiência tenha sido um dos critérios determinantes para a escolha do novo prefeito.
“Ele queria uma pessoa experiente, uma pessoa que conhece os trâmites da Casa e também a máquina pública. Esses foram os critérios: conhecimento técnico e vivência da cidade. Acima de tudo eu amo a minha cidade e quero vê-la crescendo econômica e socialmente. Então aceitei esse desafio porque amo Vila Velha, independentemente de partido político.”
De acordo com o novo líder, certamente também pesou na escolha o fato de Arnaldinho ter sido colega dele e de Maturano no plenário, nos últimos dois mandatos, de 2013 a 2020 (os dois cumpridos por Arnaldinho como vereador). “Foram oito anos de uma boa convivência. Nunca tivemos nenhum tipo de problema. Sempre debatemos muito bem os projetos e a boa política.”
Segundo Cardoso, ele não teve problema com Arnaldinho nem mesmo quando era líder de Max e o então vereador fazia oposição ao então prefeito. “Arnaldinho começou com uma oposição mais ferrenha nos dois últimos anos do mandato [2019/2020]. E, nos dois últimos anos, o líder de Max já não era eu, e sim o Reginaldo Almeida.”
De fato, no mandato passado, Arnaldinho exercitou uma “oposição ferrenha” a Max, com direito a declarações como “Nada funciona em Vila Velha”, “A cidade é um mar de lama” e “A prefeitura está sucateada”, entre outras críticas pesadas. Perguntei como Cardoso avaliava tais declarações não agora, mas até o ano passado, quando ainda era integrante da base de Max Filho na Câmara. Ele evitou a bola dividida:
“Cada vereador tem a sua visão da cidade. Eu posso entender que a máquina pública está funcionando, mas o colega pode entender que não está funcionando bem. Então, no campo das ideias, a gente tem que entender a opinião de cada colega. Cada um tem o seu olhar e a sua visão política.”
E qual era o olhar dele, enquanto aliado de Max? “Algumas áreas eu achava que funcionavam bem. Já em outras áreas realmente havia uma reclamação maior da sociedade. Então, quando a sociedade reclama, alguma coisa realmente está acontecendo.”
Diplomático, o ex-líder de Max, agora líder de Arnaldinho, não classifica como “exageradas” as críticas feitas pelo então vereador ao então prefeito. “Não vou falar em exagero. Era o olhar dele. Na visão de gestor dele, ele não concordava com as atitudes do Max Filho.”
MATURANO: NO PARTIDO DE MAX, MAS COM ARNALDINHO
Estreante na função de vice-líder, Maturano está animado e brinca que, na verdade, será o “líder-adjunto” de Cardoso. Ele também destaca sua experiência como fator capital na indicação de Arnaldinho. Aliado de Max na gestão passada (tanto que filiou-se ao PSDB), agora define-se como “aliado de primeira hora de Arnaldinho”. Pelo partido de Max, ele e o estreante Welber da Segurança foram os únicos vereadores eleitos em Vila Velha.
Maturano diz que apoiou Max até o fim do 2º turno. Com a vitória de Arnaldinho, realinhou-se politicamente ao lado do prefeito eleito. E diz não ver nenhuma dificuldade nessa transição: “O meu partido não é o partido ao qual estou filiado. O meu partido é a cidade. O meu partido é se o prefeito tem estabilidade, se o prefeito vai conseguir governar...”
Ele tampouco vê dificuldade, muito menos constrangimento, em passar de grande aliado de Max a vice-líder de Arnaldinho, no tempo da virada de mandatos, mesmo seguindo filiado ao partido do ex-prefeito:
“Na minha cabeça funciona assim: quem me deu o mandato? Foi o povo. O mandato é do povo. O povo coloca você lá para representar a comunidade. O que as pessoas esperam de quem vai estar no mandato? O cara espera que eu vá para lá fazer oposição raivosa? Não. O cara espera que eu trabalhe e dê todas as condições possíveis para o prefeito fazer um bom governo. E é claro: chancelar coisas corretas, não coisas erradas, lesivas à cidade”.
“BRIGA DE MARIDO E MULHER”
Evidentemente, o “reposicionamento” de Cardoso e Maturano no tabuleiro político de Vila Velha chama ainda mais a atenção porque a campanha a prefeito da cidade no segundo turno foi a mais “violenta” da Grande Vitória, com trocas de ofensas entre Max e Arnaldinho em debates com ampla repercussão.
Maturano não aprova o tom dado por ambos à campanha. “Não concordo com pessoalização de campanha. Isso eu não faço. Campanha para mim tem que ser debatida no campo das ideias. Não vejo isso como um ganho porque ficam mágoas, ressentimentos… Isso não é bom para a cidade.”
Mas, assim como Cardoso, ele evita censurar diretamente o agora prefeito (e “chefe”) por declarações feitas contra Max no ano passado (quando ele ainda se postava ao lado do então prefeito): “Em briga de marido e mulher não se mete a colher. Isso é briga dos dois e eu não tenho nada com isso. Eu não mandei ninguém, não avalizo nem chancelo isso…”
Por fim, Maturano adianta como eles tratarão, na Câmara, um colega que venha a fazer a Arnaldinho uma “oposição ferrenha” (palavras de Cardoso) como a que o próprio Arnaldinho fez a Max nos últimos dois anos:
“Não tenho perfil de briga. Como é que eu trataria hoje um vereador que fizesse oposição acalorada? Eu vou ser o cara que vai ‘descalorar’ o negócio. Minha postura na Câmara sempre foi pacificadora e de buscar a convergência. Ele [Arnaldinho] teve uma decisão política, criou uma estratégia de ser uma oposição firme e acentuada. ‘Ah, poderia não ter sido nesse calor todo’... Mas é o mandato do cara, e a mim não cabe julgar. A população julgou o mandato dele e deu o que a ele? A maior votação da Grande Vitória. Então, quer dizer, até que ponto ele estava errado? É complexo isso...”
Põe complexo nisso!