A presidente estadual do Partido dos Trabalhadores (PT), Jackeline Rocha, será a candidata a vice-prefeita de Vitória na chapa puro-sangue encabeçada por João Coser, na tentativa do ex-prefeito de voltar a comandar o Poder Executivo na Capital. Jackeline foi escolhida pelo próprio Coser, que quer ter a correligionária como parceira de chapa.
Até meados de março, Jackeline era considerada a pré-candidata do PT à Prefeitura de Vitória. Ela não só queria disputar o cargo como se preparava para isso. Porém, com a movimentação interna de Coser para se tornar o candidato do partido de Lula em Vitória, o ex-prefeito automaticamente passou a desfrutar da preferência dos petistas, deixando Jackeline sem espaço.
Em 17 de junho, ela mesma chegou a dizer à coluna que não concorreria a nenhum cargo na eleição municipal deste ano, concentrando-se na tarefa de construir as chapas do PT nos diversos municípios da Grande Vitória e do interior, na condição de presidente estadual do partido. Agora, curiosamente, o próprio Coser (que de certo modo removera Jackeline do páreo) traz a companheira de volta para a disputa majoritária em Vitória, mas no papel de sua coadjuvante dentro da chapa petista. Não deixa de ser uma reviravolta.
Dentro da colcha de retalhos de tendências que é o PT, Jackeline pertence à corrente Construindo um Novo Brasil (CNB), a mesma do ex-presidente Lula, enquanto João Coser faz parte da Alternativa Socialista (AS). No Espírito Santo, as duas mantêm uma aliança de muitos anos que garante aos dois grupos o controle do partido em solo capixaba, revezando-se no comando do diretório estadual do PT.
Em maio de 2017, na penúltima convenção estadual do PT, João Coser foi eleito presidente estadual da sigla, derrotando Givaldo Vieira com margem mínima de votos, graças ao apoio da corrente de Jackeline. Em outubro de 2019, na última convenção, veio a retribuição: Jackeline foi eleita sucessora de Coser na presidência estadual, derrotando por estreita diferença o deputado federal Helder Salomão, graças ao apoio do ex-prefeito de Vitória e sua corrente.
Microempreendedora, Jackeline Rocha é nascida em Colatina e tem pouco menos de 40 anos. Em 2018, concorreu ao governo do Estado. Com 7,4% dos votos, ficou em 3º lugar, atrás de Renato Casagrande (PSB), eleito, e Carlos Manato (então no PSL).
O próprio Coser já indicara que pretendia vir para a disputa em Vitória mesmo sem coligação. Agora, a chapa puro-sangue vermelho vira a “chapa JJ: João e Jackeline”. O ex-presidente da Câmara de Vitória Reinaldo Bolão (PT) chegou a ser cotado para a posição de vice. Mas as motivações de Coser para preferir sua pupila são várias. Abaixo, listamos e explicamos alguns fatores que influíram na escolha:
O PERFIL DE JACKELINE
Afora o fato de ambos serem petistas, Jackeline tem um perfil completamente distinto e portanto complementar ao de Coser. No espelho da chapa, será o reflexo invertido do ex-prefeito de 64 anos. Homem, branco, descendente de italianos, formado em Direito, pai de família e sessentão, Coser é o retrato do establishment político e socioeconômico do Espírito Santo – por mais que tenha trajetória, sobretudo nas origens, ligada a movimentos sociais e sindicais.
Por sua vez, Jackeline é mulher, negra e, na comparação com Coser, muito jovem. Nunca exerceu cargo eletivo e agora, ao lado do ex-prefeito, disputará sua primeira eleição ao Executivo de Vitória. Evidentemente, sua presença “equilibra” a chapa e visa atrair votos de eleitores desses segmentos pelo corte de gênero, etnia e idade. Ela poderá “dialogar” melhor com eleitores mais jovens, que mal se lembram ou nem sequer viveram as administrações de Coser em Vitória, de 2005 a 2012.
A UNIFICAÇÃO DO PT E DAS BASES DO PARTIDO
Embora possa ser tranquilamente apontado como o principal líder do PT no Espírito Santo, João Coser não é unanimidade dentro do próprio partido e de suas bases. Muitos militantes petistas avaliam que, como presidente estadual e líder máximo da legenda no Espírito Santo desde antes do “Fora, Dilma”, ele foi passivo, quase omisso, na defesa de Lula, Dilma e do próprio PT nos anos mais duros de impeachment, antipetismo etc.
Além disso, para muitos petistas, Coser entregou o partido de bandeja para Paulo Hartung – apoiou e foi secretário estadual de Desenvolvimento Urbano por quase todo o último governo do então emedebista, de 2015 a 2018.
Como militante bem mais jovem, conectada com as bases do partido e dona de bom trânsito com outras correntes internas por ser a presidente estadual, Jackeline poderá ajudar Coser a vencer resistências internas e unificar a militância do PT em torno da candidatura dele a prefeito de Vitória. Ou seja, vai ajudar a garantir que todo o eleitorado do PT em Vitória vote nele, o que é essencial para as pretensões de Coser de chegar ao 2º turno.
Para aspirar a passar de fase, Coser precisará reter pelo menos 20% dos votos no 1º turno, em uma disputa a prefeito que deve ter em torno de dez competidores. Para isso, o PT tem que fazer o seu dever de casa: unificar sua base e garantir que não sofrerá perdas de votos para outros candidatos que se apresentam do centro para a esquerda (PSB/Rede, PCdoB e PSOL).
Em 2016, por exemplo, o ex-secretário estadual de Justiça Perly Cipriano não chegou a 3,5% dos votos em Vitória e quase ficou atrás do advogado André Moreira (PSOL). Por óbvio, muitos simpatizantes do PT não votaram… no candidato do PT. Agora, Coser não pode se dar ao luxo de perder um só “voto cativo” do eleitorado petista. E é aí que também entra Jackeline Rocha.
Como vice do veteraníssimo ex-prefeito – tão amado quanto criticado no próprio universo petista –, a quase novata em eleições terá também o papel de “segurar as bases” para Coser.