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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Hartung sobre governo Bolsonaro: descoordenação e "confusão mental"

Em bate-papo com a coluna, ex-governador (atualmente sem mandato) analisa os 100 primeiros dias do presidente no cargo. Para Hartung, governo tem pecado por inexperiência e Bolsonaro erra ao confrontar o Congresso e criminalizar a política, em vez de trabalhar para construir uma base parlamentar necessária para a aprovação de reformas

Publicado em 13/04/2019 às 00h23
Atualizado em 17/10/2020 às 16h22
Praça Oito - 13/04/2019. Crédito: Amarildo
Praça Oito - 13/04/2019. Crédito: Amarildo

“Tudo o que era sólido se desmancha no ar”. Assim, citando Marx, o ex-governador (e ex-comunista) Paulo Hartung alerta para duas questões: a fugacidade do capital político elevado com que o presidente Jair Bolsonaro saiu das urnas e a absoluta falta de solidez da base do governo no Congresso – aliás, a inexistência de uma base propriamente dita.

Após cem dias sem mandato e com a vida profissional reorganizada, Hartung recebeu a coluna para um bate-papo e compartilhou sua análise de conjuntura nacional. Para ele, o governo Bolsonaro tem pecado por "gritante inexperiência", por descoordenação e, acima de tudo, pela ilusão (ou presunção) de que pode governar sem construir uma base parlamentar e tentando encurralar o Congresso.

Ao longo de oito mandatos eletivos, o ex-governador sempre foi defensor da atividade política como "ferramenta civilizatória" pela qual é possível transformar e construir melhorias para a sociedade. Com frequência tem-se a impressão de que o presidente Bolsonaro condena não a política de baixo nível, mas a atividade política em si.

O presidente já perguntou, por exemplo, durante viagem ao Chile, em março, o que é articulação política. No mesmo dia, disse que "infelizmente", no Brasil, há algumas pessoas "que não querem largar a velha política". Sugere que qualquer tipo de acordo político em prol da aprovação de projetos seria expressão dessa "velha política" e do "toma lá, dá cá". Essa generalização, que atinge todo o Congresso, inclusive todos os muitos novatos, tem irritado congressistas, dos quais depende, por exemplo, a aprovação da reforma da Previdência, projeto tratado como prioritário pelo governo Bolsonaro.

Para Paulo Hartung, tratar a formação de uma coalização governista como algo necessariamente espúrio é fruto de uma "confusão mental" por parte do governo e do presidente Bolsonaro.

Confira, abaixo, a entrevista do ex-governador, concedida nesta sexta-feira (12). 

Durante a campanha de 2018, e mesmo antes, o senhor defendia que o próximo presidente, fosse quem fosse, deveria priorizar uma agenda modernizante e reformista para o Brasil. Como o senhor avalia a agenda apresentada pelo governo Bolsonaro até aqui?

O Brasil hoje não tem problema inflacionário nem em suas contas externas. O que nós temos é uma crise fiscal monumental, de um governo gastando muito mais do que pode gastar.

Estamos falando sobretudo do governo Dilma, não é?

É, mas continua hoje. O governo vai fechar este ano com um déficit muito alto. Isso vem fortemente desse período em que o governo achou que, usando o BNDES, estimulando crédito, estimulando o consumo, ou seja, metendo o pé na máquina, ele produziria crescimento econômico e pleno emprego. Não produziu nenhuma das duas coisas e nos levou a uma crise fiscal gravíssima. Nosso problema é só fiscal? Claro que não. Todas as investigações feitas nos últimos anos explicitaram desvios, corrupção. Isso tem a ver com esse quadro em que estamos metidos. E tem um elemento planetário nisso tudo: a democracia liberal, ou representativa, está vivendo um certo sombreamento e está desatualizada deste mundo tecnológico em que vivemos. Mas os elementos principais, que nos colocaram nesse buraco, são “made in Brazil”. O que aconteceu na eleição? Essa crise levou a uma radicalização. O que prevaleceu foram posições extremistas. O centro da política brasileira perdeu relevância na eleição passada. Esse é o cenário atual que vejo em nosso país. O que tira o país dessa inércia? A reorganização do país, a começar pelo campo fiscal. Além disso, precisamos ganhar competitividade, aumentar a produtividade. Aí são as reformas macro e microeconômicas de que o país precisa.

O governo que chegou demonstra consciência sobre isso?

Acho que não. Na verdade, chegaram vários governos dentro de um governo. Você tem a ala militar, que é muito grande. Você tem a holding familiar e as suas conexões ideológicas, com questões diversas. Você tem o Moro, que leva o prestígio da Lava Jato para dentro do governo, o que reforça a legitimidade do governo. Você tem o Paulo Guedes, que é um pedaço do governo com uma agenda de reformas liberais. Então o que chega ao governo é um conjunto de pontos de vista muito distintos, com dois problemas. O primeiro é muita inexperiência. Em cem dias de governo, está claro: é gritante a inexperiência. O segundo é uma falta de coordenação no sentido de saber o que é prioritário. Se o que é prioritário é perfilar estudantes para cantar o Hino nas escolas públicas do Brasil. Se é ter uma política de relações exteriores pragmática, que conviva com todos os nossos parceiros econômicos no mundo, ou se vamos escolher Israel e Estados Unidos. Então, se tem uma coisa que salta aos olhos, é isso: o governo tem um nível de inexperiência e de desarticulação muito grande.

Um governo formado por muitos governos, um mosaico formado por peças que não têm se complementado bem. Em que medida isso atrapalha a formulação não só de uma mensagem, mas de um programa claro de governo, de um projeto coeso e unificado para o país?

O grande problema é a questão do tempo. Primeiro, como o Brasil vem de uma crise prolongada e passou por um segundo processo de impeachment, que é traumático na democracia, o país perdeu muito nestes anos. As famílias perderam muito. Então o que nós precisamos, neste momento, não é de um time que vá aprender jogando, mas que entre jogando. A outra coisa é que há um outro sentido no tempo: o tempo de governo é um tempo de começo, meio e fim. Esse governo chegou com muito capital político porque juntou o capital da eleição com a questão de trazer o prestígio da Lava Jato para dentro do governo, através do Moro. Mas isso é igual validade de remédio. Tem data. Não dura a vida inteira. Então você tem duas noções de tempo. Nas duas, estamos mal. Primeiro que, neste momento, precisávamos de uma liderança sabendo o que precisa ser feito. Está claro que não se sabe o que precisa ser feito. A outra coisa é que a liderança entendesse que o capital político é um elemento fugaz. Tudo o que é sólido, vou usar a imagem do livro, se desmancha no ar.

Acho que isso é de Marx*. Se for, eles vão te perseguir…

[Risos] Então, estou militando para que esse governo ache um rumo, porque o Brasil e os brasileiros não merecem continuar à deriva, como estão.

O senhor sempre defendeu o equilíbrio fiscal, logo a reforma da Previdência. Mas pôs em dúvida muitas vezes o compromisso real do então candidato Bolsonaro em propor reformas econômicas, por seu histórico de votação no Congresso, umbilicalmente ligado à defesa de uma corporação, e pela crença de que “o Estado pode tudo”, herdada do governo militar. Porém, bem ou mal, Bolsonaro entregou um projeto de reforma no Congresso e Guedes agora luta para aprová-la. Por que tantas dificuldades em fazê-la andar?

Há um ponto importante na sua pergunta. Você quase fala, então eu vou falar: é muito bom para o país que alguém que vem de movimentos corporativos, como o Bolsonaro, tenha que assinar, ao chegar à Presidência, uma proposta de reforma da Previdência Social das áreas pública e privada. Isso é um fato positivo.

Por quê?

Porque isso fere de morte uma tendência na política brasileira e latino-americana, que é o populismo.

Na medida em que ele se vê do outro lado da mesa de negociação?

Sim. Alguém que fazia movimento contra, votava contra, falava que não era necessário, que se cobrasse a dívida do INSS resolvia-se a questão, que se acabasse com os incentivos fiscais resolvia-se tudo… Olha quantos simplismos! Alguém que fez esse movimento há muito pouco tempo chega à Presidência e a ficha cai, a realidade se impõe, e ele precisa assinar um projeto de reforma que muda regras, que institui idade mínima, que mostra que a vida é mais forte do que as diversas fantasias que presidem as diversas narrativas corporativas no Brasil. Isso é muito importante. Precisamos superar o flerte histórico que este país tem com esse viés populista.

E como o senhor avalia a proposta que foi para o Congresso?

A proposta tem um número: precisa de R$ 1 trilhão de economia ao longo dos anos para dar um sinal de estabilização das contas. Outra coisa importante: essa proposta é ainda mais rigorosa do que a do Temer. Tem problemas dentro dela? Tem. O que eu não trabalharia se fosse eu o autor? Não faria gasto com militares neste momento em que o país está quebrado.

O senhor se refere aos reajustes propostos como contrapartida às mudanças também nas regras de aposentadoria dos militares?

Claro! O país não está em condições de aumentar gastos de nenhum tipo. Está fazendo R$ 130 bilhões de déficit primário por ano. A reforma deve abranger os militares, mas sem essa contrapartida, que não faz sentido neste momento. Eu também não mexeria na aposentadoria rural nem no Benefício de Prestação Continuada. Mas enfim, a proposta está lá para ser discutida e aperfeiçoada no Congresso. É importante destacar que a proposta é assinada e entregue no Congresso por alguém que, anteontem, ali na esquina, estava dizendo que não precisava reformar a Previdência. Isso ajuda a amadurecer o país. Assim o país deixa de ficar preso a mitos e fantasias para enfrentar de verdade a realidade e fazer o que precisa ser feito.

Apesar de toda a óbvia importância, a reforma está esbarrando em muitas dificuldades para avançar. Entre elas, talvez, o fato de esse tema ter sido praticamente ignorado pelos principais candidatos, inclusive o presidente eleito, durante a campanha. A última pesquisa Datafolha mostra que o projeto não conta com a aprovação da maioria dos brasileiros. Faltou combinar com a população?

Na verdade, na história do país, nunca houve um ambiente tão favorável às reformas, inclusive à da Previdência, como este que estamos vivendo. A pesquisa Datafolha ontem [quinta-feira, 11] mostra isso.

Ou seja, ainda não é a maioria, mas antes era menos…

Era muito menos! A pesquisa mostra como a compreensão está entrando nas pessoas. Muito embora às vezes não estejam apoiando, mas estão conformadas, o que já é um ponto importante para reformas como essa, que mexem muito com a vida das pessoas. Então sinto um ambiente muito bom.

E por que o projeto não flui? Seria por causa do confronto permanente do governo com o Congresso?

A inexperiência do governo que tomou posse produziu uma confusão mental. Eu só posso chamar assim. Para governar, é preciso ter base, social e institucional. Dentro das instituições, o Parlamento é uma peça-chave. É um erro confundir a construção de uma base no Parlamento com “velha política”, “articulação espúria” etc. Existem meios e modos para fazer base no Parlamento. E você pode fazer uma política atualizada, com P maiúsculo, com diálogo e com respeito aos parlamentares, prestigiando o exercício dos mandatos dos parlamentares. Você pode costurar uma base sólida no Parlamento. Então perdeu-se muito tempo nesses cem dias. Agora é que a ficha começou a cair. Procuraram caminhos que não são caminhos. Esse negócio de bancada temática não resolve o problema dos governos. Bancada temática não nomeia na Comissão de Justiça, na Comissão de Finanças etc. Quem nomeia são os partidos políticos. Então não tem como governar sem coalizão na democracia, sobretudo no nosso sistema presidencialista. Seu partido faz 50 deputados. Só que com 50 você não governa. Você precisa, no caso de emendas constitucionais, de 308 votos. Fazer um governo de coalizão, discutindo questões programáticas, isso sim é “nova política”, isso sim é moderno. Ao invés de discutir ocupação de cargo como fim em si mesmo, essa ocupação precisa estar ligada à implementação de um programa de governo. Mas aí volto a dizer: bateram cabeça, uma inexperiência danada. Jânio Quadros e Collor tentaram e deram com os burros n’água.

O quê? Governar sem o Congresso? Sem diálogo com o Congresso?

Não. Empurrar a sociedade contra o Congresso, achando que isso produz resultado. O líder não tem que mobilizar a sociedade para encantonar o Congresso. Tem que mobilizá-la em torno dos temas. Ao convencer a sociedade das reformas, das mudanças, ele ajuda o parlamentar a votar. Porque, se a sociedade está convencida, o parlamentar vota com muito mais tranquilidade.

No fim de março, Bolsonaro afirmou, no Chile: “Fizemos nossa parte, encaminhamos a nossa proposta ao Parlamento. A bola agora está com o Parlamento. Eles vão com toda certeza aperfeiçoar e bola para frente. O que é articulação? O que está faltando eu fazer? O que foi feito no passado? Eu não seguirei o mesmo destino de ex-presidentes, pode ter certeza disso”. Está faltando, por parte do próprio presidente, tomar essa iniciativa e assumir esse papel que cabem a ele?

Tem duas coisas para fazer que são intransferíveis, é o líder que tem que fazer. Uma é conversar com a sociedade com clareza para mostrar o que tem que ser feito, independentemente de isso ter sido discutido ou não na campanha. A outra é fazer uma coalizão de governo em torno de um programa, já que a eleição não lhe deu maioria no Congresso. E tudo o que precisamos fazer no país precisa passar pelas das Casas, Câmara e Senado, para deixar de ser uma ideia e virar uma ação de governo.

Então o problema vai além de uma desarticulação política do governo com o Congresso? É também um problema de compreensão da política, dos mecanismos legítimos de construção de uma coalizão governista?

Inexperiência. Eu acho que, nestes cem dias, você teve uma combinação de inexperiência muito grande com uma certa descoordenação. Mas todas essas questões são de fácil superação, se a ficha cai.

E já caiu?

Eu acho que está começando a cair.

Para o senhor, o próprio presidente se sabota e sabota por dentro o que ele mesmo considera o projeto prioritário do seu governo, na medida em que não só se recusa a participar dessa necessária articulação política como a condena como algo sujo, política de baixo nível, “velha política”, “toma lá, dá cá”?

Acho que está havendo uma evolução lenta. Mais recentemente, o próprio presidente tomou a decisão de conversar com os partidos políticos. O que falta é montar uma coalizão em cima de programa, de ideias claras do que se precisa fazer no Brasil.

* Sim, a frase é mesmo de Karl Marx. O livro, o “Manifesto Comunista”.

 

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