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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica aqui, diariamente, informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

“Governo Casagrande está me empurrando pra oposição”, alerta Enivaldo

Substituído pelo governador no último sábado na função de líder do governo na Assembleia por suposta omissão em reeleição de Erick Musso, deputado dá a sua versão dos fatos, que não bate com a do Palácio. “Foi o governo que aceitou a chapa”

Publicado em 02/12/2019 às 04h03
Atualizado em 27/12/2019 às 18h38
Renato Casagrande (PSB), Erick Musso (Republicanos) e Enivaldo dos Anjos (PSD). Crédito: Divulgação/Ales
Renato Casagrande (PSB), Erick Musso (Republicanos) e Enivaldo dos Anjos (PSD). Crédito: Divulgação/Ales

“O governo Casagrande está me empurrando para a oposição. Se querem manter a palavra de que me destituíram da liderança, eles estão dispensando o meu apoio, né?” A declaração, em tom de alerta, é do agora ex-líder do governo Enivaldo dos Anjos (PSD), substituído na função pelo governador neste sábado (30). Para o lugar de Enivaldo, líder desde fevereiro, Casagrande escolheu o deputado Eustáquio de Freitas (PSB). Até as rochas das pedreiras de Barra de São Francisco – terra de Enivaldo – e as areias das dunas de São Mateus – terra de Freitas – sabem perfeitamente que essa repentina troca está intimamente relacionada ao episódio, traumático para o governo, da reeleição antecipada de Erick Musso (Republicanos) para a presidência da Assembleia Legislativa, na última quarta-feira (27), e, acima de tudo, à atuação de Enivaldo nesse acontecimento.

Mas as versões mantidas pelo Palácio Anchieta e pelo próprio ex-líder do governo são bastante destoantes. Basicamente, Enivaldo não aceita a versão do governo de que ele foi destituído do posto por ter se omitido durante a eleição de Erick, descumprindo uma orientação direta do próprio governador. “Eu não fiz opção. Quem fez opção foi o governo de aceitar a chapa do Erick”, afirma Enivaldo.

Segundo emissários do Palácio Anchieta, Enivaldo caiu, sim, por ter cruzado os braços durante o processo relâmpago de reeleição de Erick e por não ter orientado a base a votar contra a chapa encabeçada pelo presidente, em um inaceitável ato de rebeldia por parte do então líder do governo em um momento delicadíssimo para o Executivo. A versão do Palácio é que Casagrande conversou com Enivaldo por telefone instantes antes da votação da Mesa que comandará a Casa pelo biênio 2021-2023, pedindo a seu líder que orientasse a base governista (cerca de 20 dos 30 deputados) a se posicionar contra a chapa de Erick ou a abandonar a sessão para não dar quorum. “Ele não fez nada”, resume fonte ligada ao governo. Durante a sessão, Enivaldo não chegou perto do microfone para orientar a base a votar contra a chapa de Erick.

A entrevista dada a A Gazeta pelo próprio Casagrande neste domingo (1º), um dia após o anúncio da substituição, durante a inauguração da nova Leitão da Silva, em Vitória, é também bastante informativa quanto ao grau de frustração do governador com Enivaldo. Em trinta segundos, Casagrande mandou dois recados. “Freitas é uma pessoa de total confiança minha”, disse ele. Para bom entendedor: “Ao contrário de Enivaldo”. “O que muda com a entrada de Freitas?”, pergunta o repórter Gustavo Cheluje. “Muda que eu tenho a condição de ter lá alguém que esteja [...] buscando, em primeiro lugar, os interesses dos projetos do governo do Estado”, responde o governador. Implicitamente: “Meu ex-líder não estava priorizando isso”. Resumindo: o governo, nesta clássica bola nas costas, considera ter sido traído não só por Erick Musso mas pelo seu próprio líder no plenário.

A VERSÃO DE ENIVALDO

Enivaldo, por sua vez, não está nem um pouco disposto a admitir que o governo coloque em sua conta a derrota histórica que sofreu de Erick Musso na última quarta-feira. Em sua primeira nota oficial, distribuída por sua assessoria no sábado logo após o anúncio da substituição, o deputado informou que deixava (na primeira pessoa), naquele dia, a liderança do governo, “por motivos pessoais”. E acrescentou: “Continuo trabalhando pela harmonia na política do ES”. Mas essa disposição, como indica agora Enivaldo, pode mudar rapidamente.

Depois do anúncio, agentes do governo começaram a fazer circular que Enivaldo foi destituído por ter jogado contra o próprio Executivo na reeleição de Erick. O deputado agora contra-ataca, acusando “incoerência” por parte do governo. Conforme ele mesmo ressalta, o deputado mais fiel e obediente ao Palácio Anchieta, Eustáquio de Freitas, fechou um acordo com Erick pouco antes da votação e acabou absorvido pela chapa liderada pelo presidente, na posição de 2º secretário da próxima Mesa Diretora (teoricamente, a terceira em importância). Segundo Enivaldo, a entrada de Freitas na chapa deu a todos, inclusive a ele, um sinal irrefutável de que o governo havia autorizado uma composição com Erick. Após a absorção de Freitas, pondera Enivaldo, não faria o menor sentido ele, como líder do governo, orientar a base a votar contra uma chapa que contava com um deputado do partido do governador.

“A entrada do Freitas, hoje colocado como homem de confiança do governador, na chapa do Erick, sinalizou para o plenário que a chapa tinha sido absorvida pelo Palácio, uai!”, explica Enivaldo. Para o ex-líder, é um grande “contrassenso” o governo dizer que o destituiu do cargo por inoperância na reeleição antecipada de Erick se, no seu lugar, coloca um deputado que faz parte da chapa eleita, liderada pelo presidente da Assembleia.

Ainda segundo Enivaldo, ele na verdade agiu até o fim para tentar um acordo entre as partes, mas Erick estava inamovível da ideia de realizar a eleição da Mesa na manhã de quarta-feira – o que, de acordo com Enivaldo, o presidente só lhe informou que faria minutos antes da sessão. “Eu disse para o Erick que ele estava errado, que ele tinha que voltar a conversar com o governador.” Não teve jeito. O presidente não teria ouvido os seus conselhos.

Em tempo: segundo a versão do governo, ao ingressar na chapa de Erick, Freitas agiu por conta própria. E parece que é aí que mora a grande interrogação desta história.

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