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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Gilson Daniel: o novo homem forte do governo Casagrande

Ex-prefeito de Viana ingressa na equipe de Casagrande pela escadaria principal do Palácio Anchieta, seguindo diretamente para o coração político da administração estadual. Mas, afinal, o que faz o secretário de Governo?

Publicado em 02/03/2021 às 02h00
Atualizado em 02/03/2021 às 02h04
Gilson Daniel, o novo homem forte do governo Casagrande
Gilson Daniel, o novo homem forte do governo Casagrande. Crédito: Amarildo

Mal iniciado o mandato, em janeiro de 2019, o governador Renato Casagrande (PSB) decidiu suspender todos os convênios fechados por seu antecessor com municípios, para repasses voluntários, no finzinho do ano anterior. O governo convocou uma coletiva. Quem foi lá explicar o “B.O.”? O secretário de Governo, Tyago Hoffmann (PSB). Em junho de 2020, com o governador infectado pela Covid-19 e isolado na residência oficial, o governo precisava explicar a Matriz de Risco e os critérios para determinação ou não de um lockdown. Quem foi lá diante das câmeras cumprir a tarefa? O secretário de Governo, Tyago Hoffmann. Quando Casagrande foi a Brasília para conversar pessoalmente com Bolsonaro sobre ações de interesse do Estado, quem o acompanhou e posou para fotos ao lado do governador e do presidente? Bem, você já pode adivinhar.

É difícil definir o escopo de ação do secretário de Governo. Quem olha de fora conclui de pronto que se trata de uma secretaria muito importante, haja vista os exemplos acima, mas não sabe dizer ao certo o que faz o titular da secretaria. A dificuldade decorre do paradoxo inerente à pasta: o secretário de Governo cuida de tudo, mas, ao mesmo tempo, não cuida especificamente de nada. Na definição do próprio Hoffmann, em entrevista à coluna publicada no último sábado (27), trata-se de um “faz-tudo”, que cuida “do alfinete ao foguete”.

Muito bem: daqui para a frente, quem vai cuidar “do alfinete ao foguete” no governo chama-se Gilson Daniel (Podemos), aliado de Casagrande que acaba de assumir o cargo de secretário de Governo no lugar de Tyago Hoffmann, deslocado, por sua vez, para a nova Secretaria de Desenvolvimento e Inovação.

Assim, o ex-prefeito de Viana ingressa na equipe de Casagrande pela escadaria principal do Palácio Anchieta, seguindo diretamente para o coração político do governo, onde são tomadas todas as decisões mais estratégicas, de ordem administrativa e política. Como secretário de Governo, ele despachará diariamente com Casagrande sobre os mais diversos assuntos (internos e externos) e terá cadeira cativa na Sala de Situação (espécie de “gabinete de crise” do Palácio Anchieta).

Grosso modo, o secretário de Governo é um coordenador-geral da administração estadual; um gerente-geral que trabalha de maneira transversal. Tem uma visão global sobre a administração. Além de amarrar as ações das demais secretarias, atua, quando a ocasião o pede, como um gestor de crises (e a cada semana surge uma nova…). Tem poder, muito poder, inclusive sobre a gestão de outras pastas, o que inclui autonomia para aprovar ou não projetos impactantes. Muitos deles passam diretamente pelo crivo do secretário de Governo e, dependendo de sua avaliação, morrem ali ou são levados ao governador.

Por ele passam não só muitas das decisões mais importantes, mas também muitas das nomeações. Vinculados à Secretaria de Governo (SEG), há uma legião de aliados políticos do governo acomodados em cargos comissionados (de livre nomeação), filiados a um sem-número de partidos da base governista.

O secretário de Governo, enfim, é um filtro, um anteparo e um escudo para o governador. Um braço-direito administrativo e um conselheiro político privilegiado, que priva diariamente dos ouvidos do chefe do Executivo. E é com esse status que Gilson chega ao time de Casagrande. Por quê?

Desde o início, Casagrande queria encaixar Gilson Daniel em seu 1º escalão, mas a engenharia para acomodá-lo não foi fácil. No fim de dezembro passado, quando se iniciaram as tratativas, o então prefeito de Viana manifestou a Casagrande o seu desejo de ocupar algum espaço que se adequasse ao perfil com que ele se enxerga: tocar obras, gestar projetos, dialogar com prefeitos, sair a campo, acompanhar as coisas in loco.

Nessa fase, o ex-prefeito de Viana, pré-candidato a deputado federal em 2022, mantinha uma predileção muito forte pela Secretaria de Desenvolvimento Urbano, mas essa opção sempre esteve fora de cogitação para Casagrande, tendo em vista quem é seu ocupante desde os primórdios do governo: ninguém menos que Marcus Vicente, também provável candidato a federal no ano que vem e presidente estadual do PP, um dos pilares da base de apoio ao governo do PSB.

No Palácio, a avaliação é que Vicente tem entregado resultados na pasta e, do ponto de vista político, Casagrande jamais melindraria um parceiro estratégico da sua coalizão para contemplar outro: seria crise na certa.

Ao longo de janeiro, em conversas internas de Casagrande com conselheiros, chegou-se a aventar, para Gilson, a Secretaria de Agricultura (onde hoje está Paulo Foletto, do PSB) ou a de Desenvolvimento (então com Marcos Kneip). O ex-prefeito não tinha o menor interesse nessa última.

Pouco antes do carnaval, Casagrande disse a Gilson que a única forma de o ex-prefeito ir trabalhar com ele e ter uma visão geral do governo seria na SEG (o domínio de Hoffmann desde o início do mandato, em 2019). Gilson topou na hora. Pelas razões expostas acima, quem teria recusado?

O que resta saber agora é como Gilson aproveitará essa chance e qual o novo perfil que ele dará à SEG. Hoffmann era, para Casagrande, esse faz-tudo e esse braço-direito. A aposta interna é que, por ter história e perfil mais políticos que o do antecessor no cargo, o ex-prefeito de Viana e presidente estadual do Podemos tende a ampliar a interlocução do governo “para fora”, além de dar novo fôlego a projetos prioritários.

“DEPENDE DE QUEM A OCUPA”

Um veterano governista avalia que, justamente porque a SEG tem um escopo tão aberto e abrangente, o peso adquirido pela pasta depende essencialmente de quem a ocupa e de qual é o perfil desse ocupante:

“A Secretaria de Governo tem orçamento modesto e não tem caneta. O que ela tem é poder moral. A Secretaria de Governo não faz ninguém grande. É o secretário de Governo quem a torna grande ou não. Dependendo do perfil do secretário e da sua relação com o governador, essa secretaria pode ganhar ou não dimensão e centralidade no governo.”

EXEMPLO REVERSO

Um exemplo para comparação: no último governo de Paulo Hartung, a secretária de Governo era a auditora de carreira Angela Silvares, cunhada dele e colaboradora de sua extrema confiança. Todo mundo sabia que ela era uma das secretárias mais importantes e uma das peças centrais da equipe de Hartung. Mas, de perfil discreto e introspectivo, “Doutora Angela” cuidava muito mais da esfera administrativa e da coordenação burocrática, resolvendo problemas internos e não atuando na interlocução política (muito menos buscando autoprojeção).

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