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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Euclério faz ameaça implícita à vice-governadora Jaqueline Moraes

Candidato a prefeito de Cariacica pediu oficialmente ao governo a relação completa de comissionados da Vice-Governadoria e da Ceasa, insinuando uso de servidores na campanha de Saulo Andreon

Publicado em 08/10/2020 às 05h02
Euclério mostra descontentamento com Jaqueline Moraes
Euclério mostra descontentamento com Jaqueline Moraes. Crédito: Amarildo

"Cariacica precisa de união. Quem quer pregar a discórdia não está interessado no bem-estar do povo, mas nos seus próprios interesses", afirmou Euclério Sampaio (DEM), em texto enviado por sua assessoria de imprensa na última segunda-feira (5). No dia seguinte, o deputado disse o mesmo, no lançamento da sua candidatura a prefeito de Cariacica.

Mas, numa ação pesada de bastidores, longe do público, Euclério tem deixado de lado esse estilo “paz e amor” incorporado por ele na campanha e toda essa união pregada por ele. O alvo do “chega pra lá” é a vice-governadora Jaqueline Moraes.

Filiada ao PSB, Jaqueline é uma das principais, se não a principal apoiadora do candidato do partido a prefeito de Cariacica, o professor Saulo Andreon. Ao lado do ex-deputado Sandro Locutor (PROS), Euclério e Saulo são os concorrentes à prefeitura da cidade mais identificados com o governo de Renato Casagrande (PSB). E, de certo modo, brigam pelo posto de preferido do Palácio Anchieta.

No dia 23 de setembro, Euclério protocolou na Assembleia um requerimento oficial de informações para que o governo do Estado envie para o seu gabinete as cópias dos atos de nomeação e de exoneração de todos os servidores, desde o início do governo, em cargos comissionados vinculados à Vice-Governadoria e à Central de Abastecimento do Espírito Santo S.A. (Ceasa). O pedido é dirigido especificamente à secretária estadual de Gestão e Recursos Humanos, Lenise Loureiro (Cidadania).

Nem no documento nem em conversa com a coluna, o deputado verbaliza aonde quer chegar com isso, mas nem precisa. O recado para Jaqueline é claro e, reservadamente, confirmado por aliados de Euclério: ele está insinuando o uso de servidores – e, portanto, da estrutura do Estado –, em desvio de função, por parte da vice-governadora, na campanha eleitoral de Saulo Andreon e de outros candidatos apoiados por ela pelo Estado inteiro, especialmente em Cariacica.

Na página oficial da Assembleia, consta que o requerimento oficial de informações ainda está tramitando. Na noite desta quarta-feira (7), encontrava-se na Secretaria de Estado de Governo, mas ainda sem resposta. O pedido foi despachado para o Executivo no último dia 29, e o prazo de resposta é de 60 dias úteis após o recebimento da matéria na Secretaria de Governo – prazo que vence próximo ao 2º turno, no dia 29 de novembro.

O TOM DA “SOLICITAÇÃO”: AMEAÇA

Alguns detalhes chamam bastante a atenção e não deixam dúvidas quanto à insatisfação de Euclério om Jaqueline e à sua intenção de jogar pressão sobre ela. O primeiro deles é a própria redação do pedido, sobretudo no encerramento.

Euclério faz uma ameaça implícita, falando em "representação" em caso de não envio da resposta: “Solicito respeitosamente o atendimento da presente solicitação/determinação dentro do prazo previsto em lei, uma vez que o seu descumprimento ensejará em representação em face do requerido e dos representantes das referidas pastas”. Sem floreios nem votos de estima.

No próprio sistema de consulta de proposições da Assembleia, é possível constatar que esse tom foge completamente ao padrão dos requerimentos de informações não só de Euclério, mas dos deputados em geral. Normalmente, é aquele texto formalzão e diplomático.

Nos últimos 30 protocolados (desde o início de julho), só Lorenzo Pazolini (Republicanos), deputado da oposição, usou um tom que se assemelha vagamente a esse, citando em seus pedidos, “para fins de informação”, o que diz a legislação em caso de descumprimento dos prazos legais para o governo mandar as respostas.

“Aproveito o ensejo para apresentar-lhes voto de estima e elevada consideração”. É como encerra os seus, por exemplo, o opositor Vandinho Leite (PSDB). Nem mesmo Capitão Assumção (Patriota), comumente exaltado em plenário, adota tom igual ao de Euclério nos requerimentos de informações protocolados por ele.

ARMA POUCO USADA POR EUCLÉRIO

Além disso, levantamento da coluna mostra que Euclério está longe de ser assíduo em requerimentos de informações, instrumento muito usado por opositores como os já citados Vandinho, Pazolini e Assumção, além de Sérgio Majeski (PSB), um “incômodo correligionário” do PSB de Casagrande.

Na verdade, neste ano inteiro, esse é só o segundo requerimento do tipo apresentado por Euclério. Em todo o ano passado, ele apresentou apenas nove pedidos de informações ao governo (acerca de temas como a participação de determinadas empresas em pregões e contratos firmados com o governo).

O número pode ser considerado modesto, e o tom do deputado jamais tinha chegado nem perto do empregado no último ofício. Nenhuma menção, até então, a risco de “representação” contra o governo em caso de não envio das respostas a tempo e a contento.

A coluna chegou a falar com Euclério sobre o tema. Ele desconversou um pouco. Disse, basicamente, que recebeu denúncias e que precisa confirmá-las antes de poder falar sobre elas. Não especificou as denúncias nem entrou em detalhes e, de modo enigmático, afirmou que precisa “corrigir” o requerimento.

Entretanto, sob anonimato, aliados de Euclério são muito mais diretos e externam que a bronca dele com Jaqueline é mesmo esta: suposto uso da estrutura de governo para fins eleitorais.

“MOVIMENTOS AFOITOS”

No comitê de campanha de Euclério, a percepção é a de que Jaqueline tem feito movimentos afoitos que estão atropelando até o governador e colocando-o em situações politicamente delicadas. "Está causando constrangimento para Renato", disse uma fonte, em sigilo. Diz-se ainda que, além de usar a estrutura do governo, a vice-governadora estaria descumprindo até acordos de bastidores firmados por Casagrande com aliados. Ou seja, passando por cima do próprio governador, inadvertidamente.

Na verdade, segundo um apoiador de Euclério, o candidato estava possesso até alguns dias atrás, e esse requerimento seria "só o começo" da ofensiva contra Jaqueline. Ele cogitou pedir oficialmente a agenda de compromissos da vice-governadora. Ia “fazer o diabo”, enfim, voltar a ser o velho Euclério conhecido do plenário da Assembleia, abandonando a versão paz e amor encarnada na campanha, mas apenas em relação a Jaqueline.

Aí chegou “a turma do deixa disso”, os bombeiros apagaram o fogo, Euclério parou na “fase 1” do plano, mas o recado foi dado e compreendido, como era o seu objetivo desde o início. Tanto que Jaqueline deu mesmo uma freadinha nos movimentos eleitorais nos últimos dias, pelo menos em Cariacica.

CONVERSA COM DAVI DINIZ

Não se descarta que Casagrande tenha conversado ao pé do ouvido com ela. Pelo que a coluna apurou, é certo que o deputado chegou a externar a Casagrande seu descontentamento com a atuação ostensiva de Jaqueline na campanha eleitoral em Cariacica. Mais certa ainda é a informação de que Euclério, acompanhado do também deputado Marcelo Santos (Podemos), conversou há poucos dias com o chefe da Casa Civil, Davi Diniz.

Diga-se de passagem, em mais um sinal da cisão e da cizânia do governo na eleição em Cariacica, tanto Diniz como o secretário estadual de Governo, Tyago Hoffmann (este, filiado ao PSB!), não só apoiam Euclério como prestigiaram o lançamento de sua candidatura, na última terça-feira.

Nessa conversa com Diniz, o “papo reto” foi mais ou menos o seguinte:

O governo precisa da Assembleia como nunca, na pandemia e no pós-pandemia. Quem tem voto na Assembleia não é Jaqueline, mas Euclério, Marcelo e os outros 28 deputados. Euclério preside a Comissão de Finanças e será o relator do orçamento do Estado para 2021, já enviado para a Casa de Leis.

Em dezembro, logo após a eleição municipal, o orçamento será votado. Euclério pode dar ao governo o mesmo tratamento que daria sem a “interferência eleitoral” de Jaqueline. Mas, se alguma coisa “der errado” na tramitação do orçamento, o governo poderá botar na conta dela esse pequeno “ops”.

Jogo pesadíssimo.

Aparentemente, mal começou a eleição e Cariacica já está pequena demais para Euclério Sampaio e Jaqueline Moraes.

O “JOGO DE VARETAS”

É voz corrente, entre aliados de Euclério, a alegação de “açodamento” por parte de Jaqueline em seus movimentos político-eleitorais.

Segundo um desses interlocutores, no afã de eleger o maior número de candidatos do PSB e aliados em prefeituras Estado afora, a vice-governadora ainda não teria compreendido que “fazer política” é como jogar um jogo de varetas. “Se ela mexe numa vareta aqui, pode derrubar tudo construído do outro lado. Cada movimento em falso pode causar um terremoto, inclusive para o próprio governo."

De novo: jogo muito pesado.

MARATONISTA

À parte os possíveis exageros e as disputas locais em Cariacica, é fato (e a Vice-Governadoria não esconde isso) que Jaqueline tem “se jogado de cabeça” na campanha de aliados Estado fora. No período de convenções, por exemplo, ela passou dias seguidos em viagem pelo interior do Estado, percorrendo, em média, quatro ou cinco cidades por dia.

Ainda nesta quinta-feira, publicaremos as respostas de Jaqueline sobre o requerimento de informações e a “alegação implícita” de Euclério Sampaio sobre ela.

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