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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Erick recebe a bênção de Casagrande e seguirá à frente da Assembleia

Ambos já selaram o acordo, mas este passa por um ponto imprescindível para o governo: influência na montagem da chapa, mais espaço para os secretários da Mesa e anulação da norma que dá “superpoderes” ao presidente

Publicado em 22/01/2021 às 02h04
Atualizado em 22/01/2021 às 11h22
Casagrande abençoa Erick
Casagrande abençoa Erick. Crédito: Amarildo

A dez dias da próxima eleição da Mesa Diretora da Assembleia, podemos afirmar: caminho livre para Erick Musso (Republicanos). O atual presidente da Casa já foi “abençoado” pelo governador Renato Casagrande (PSB) e seguirá no comando do Poder Legislativo estadual, à frente de uma chapa única, construída a várias mãos com aliados do governo. A bênção do governador teria sido dada pessoalmente, no Palácio Anchieta, na última quarta-feira (20). Nos próximos dias, o secretário-chefe da Casa Civil, Davi Diniz, fará uma rodada final de conversas individuais com os deputados, informando-lhes que essa é a vontade do Palácio Anchieta.

O entendimento de Casagrande com Erick passa por um ponto considerado imprescindível pelo governo: influência na montagem da chapa e na composição da próxima Mesa Diretora. De modo mais específico, o governo quer ter deputados com DNA governista ocupando os cargos de primeiro e segundo secretários da Mesa Diretora no próximo biênio, a partir de 1º de fevereiro (data da eleição interna). A ideia não é “emparedar” o presidente, mas aumentar a influência do Executivo nas decisões políticas e administrativas da Assembleia.

Ocorre que atualmente, mesmo com dois leais integrantes da base ocupando as duas secretarias (Luciano Machado e Emílio Mameri), essa influência é nula, graças a uma resolução de autoria do próprio Erick aprovada pelo plenário em fevereiro de 2019. Até então, para realizar qualquer ato oficial, o presidente precisava da assinatura de pelo menos um dos dois secretários. Com a nova regra, vigente até hoje, basta a assinatura de Erick, o que confere a ele um poder muito centralizado nele mesmo – para não dizer um “superpoder”.

Por isso, no arranjo com Erick, um ponto fundamental para o governo é a revogação dessa resolução, restituindo-se a regra anterior. E isso já foi dito expressamente para Erick, como condição para o “sinal verde” já dado por Casagrande à sua reeleição. Fora esse detalhe e a escolha dos companheiros de chapa, já está tudo resolvido.

Expoente de um grupo político ascendente e com aspirações próprias no Espírito Santo, instalado no partido Republicanos, Erick Musso não era o nome preferido do governo para presidir a Assembleia no segundo tempo da administração de Casagrande.

Em meados do ano passado, Alexandre Quintino (PSL) chegou a declarar-se candidato, e o nome de Marcelo Santos (Podemos) começou a ser especulado como possível substituto de Erick. Na primeira quinzena de janeiro, o núcleo duro político do governo chegou efetivamente a testar dois nomes: o do próprio Marcelo (como possível solução consensual) e o de Dary Pagung (PSB).

Enquanto Marcelo é aliado ao mesmo tempo do governo e de Erick, Dary se desentendeu seriamente com o atual presidente (no episódio da antecipação dessa mesma eleição, depois anulada, em novembro de 2019), além de ser filiado ao partido de Casagrande e, ainda por cima, o líder do governo: seria um candidato 100% governista e uma “solução de força” por parte do Palácio Anchieta.

Até semana passada, a definição da presidência já estava muito claramente resumida a esses três nomes. Marcelo, porém, não aceitou exercer esse papel de curinga no processo e preferiu posicionar-se como valete de Erick. No último dia 13, publicou em seu Instagram um story emblemático literalmente ao lado do presidente da Casa. No dia seguinte, declarou à coluna: “Não sou candidato à presidência”. Era só juntar as cartas.

Sobraram Erick e Dary. Entre as soluções com DNA governista, sobrou Dary. Conselheiros palacianos acreditavam que, se quisessem, teriam maioria para emplacá-lo na presidência, mas não sem custo político: lançar chapa encabeçada por Dary significaria tentar “intubar” Erick e bater de frente com o atual presidente, numa disputa voto a voto em plenário com consequências imprevisíveis no relacionamento do Palácio Anchieta com o grupo atualmente à frente da Assembleia (o de Erick e do Republicanos).

Político de perfil essencialmente pragmático e conciliador, Casagrande não quis pagar para ver nem arcar com o custo político desse enfrentamento direto. Perdendo ou ganhando em plenário no dia 1º, ficaria uma fissura política com um grupo que, na realidade, ele quer cada vez mais atrair para seu governo e que pode ser muito importante na sua reeleição em 2022.

“Acho bobagem ficarmos gastando energia com disputas na Assembleia. Vamos encontrar um caminho de consenso, uma chapa de consenso que represente forças políticas, que dê segurança para instituições capixabas, harmonia entre Executivo e Legislativo. Estou pedindo consenso entre os parlamentares. Não quero interferir diretamente. Tenho pedido apenas consenso progressivo para poder ter uma chapa que evite gasto de energia com disputas e sequelas que podem vir.”

Sendo assim, Casagrande decidiu fumar o cachimbo da paz com Erick e, após o abalo sísmico-político do Novembro Sangrento de 2019, resolveu dar novo voto de confiança ao deputado de Aracruz, presidente da Assembleia desde 2017. Mas é aquela coisa: por ora, é um voto de confiança meio desconfiado.

As gestões do Palácio Anchieta para que Erick volte atrás na resolução que tornou secretários da Mesa figuras quase simbólicas é uma prova de que o governo confia em Erick desconfiando um pouco. Por esse ângulo, a remoção dessa pedra do caminho será a última prova de que os estremecimentos do passado ficaram mesmo no passado e que, na atual conjuntura estadual, PSB e Republicanos, respectivamente à frente do Executivo e do Legislativo, estão cada vez mais juntos e misturados no mesmo movimento político-eleitoral que visa formar um bloco portentoso e varrer as urnas na próxima eleição estadual.

Em conclusão, teremos Erick de novo, com a força do povo. Ou do Polvo, como dito aqui no último domingo.

ADENDO: SECRETARIA DE ESTADO

Com Erick virtualmente reeleito, o governo deve tirar da mesa a proposta de ceder uma secretaria de Estado para o Republicanos. No Palácio, o entendimento é que, “abrindo mão” da presidência para Erick – ou não atravancando seu caminho rumo à re-reeleição –, o governo já contempla suficientemente o Republicanos, e isso basta para esperar em troca não só o apoio do Republicanos ao governo como também à reeleição de Casagrande no ano que vem.

Para colaboradores do governador, não cabe outra contrapartida nem ganho adicional para o Republicanos, até porque o partido, além de manter-se na presidência da Assembleia, já acumula a Prefeitura de Vitória e outras nove prefeituras no interior.

Na verdade, com esse novo desenho, quem volta a ser cogitado para se tornar secretário de Estado é Marcelo Santos, na minirreforma do secretariado prevista para fevereiro, após a eleição da Mesa.

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