Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Em Cachoeiro, “prefeito socialista” está quase reeleito em reduto bolsonarista

Filiado ao PSB, mas moderado e conservador, o bem avaliado Victor Coelho abre quase 50 pontos sobre adversários, provando que eleição municipal é "desempenho" e passa longe de disputas ideológicas

Publicado em 12/11/2020 às 19h28
Atualizado em 12/11/2020 às 21h17
Victor Coelho está correndo sozinho, praticamente reeleito em Cachoeiro
Victor Coelho está correndo sozinho, praticamente reeleito em Cachoeiro. Crédito: Amarildo

Com uma vantagem de 48 pontos percentuais sobre o 2º colocado a três dias da eleição em turno único no próximo domingo, o atual prefeito de Cachoeiro de Itapemirim, Victor Coelho (PSB), é mais que favorito nesse pleito: está praticamente reeleito. É o que sinaliza a última pesquisa Ibope/Rede Gazeta sobre a eleição na maior cidade do Sul do Espírito Santo, publicada na noite desta quinta-feira (12).

Se a eleição fosse hoje, Victor teria a expressiva marca de 59% dos votos válidos. Muito atrás, empatados na segunda posição, vêm Diego Libardi (DEM) e o vice-prefeito Jonas Nogueira (PL), com 11% cada um.

Os dois cresceram muito pouco, dentro da margem de erro, em relação à pesquisa anterior, publicada no dia 21 de outubro. E assim a vantagem do atual prefeito, que era de 53 pontos percentuais, caiu para 48 pontos (oscilação mínima, totalmente sob controle). Nesse contexto, nenhum adversário parece representar ameaça real à reeleição do prefeito a esta altura dos acontecimentos, e a vitória do candidato do PSB está muito bem encaminhada, por três fatores:

1) Nenhum oponente esboça sinais de reação. Uma curva avassaladora que pudesse ultrapassar o favorito já deveria ter começado a se desenhar há alguns dias. Não agora, a três dias da votação. O quadro das intenções de voto em Cachoeiro ficou praticamente congelado, com alterações dentro da margem de erro, em relação à primeira pesquisa.

2) Cachoeiro não tem 2º turno e, para se eleger, Victor só precisa ter mais votos que o 2º colocado no domingo. Ainda que um dos adversários cresça até lá, é inverossímil que consiga tirar quase 50 pontos de diferença.

3) A estratégia da oposição (sobretudo a situada à direita) claramente não foi a melhor. Muitos candidatos de direita, inclusive Libardi e Nogueira, estão dividindo os votos entre si. Game over.

ELEIÇÃO MUNICIPAL NÃO É REGIDA POR VOTO IDEOLÓGICO

Essa virtual reeleição de Victor merece uma análise à parte, um pouco mais conceitual, mas que urge fazer neste momento. Em muitas partes do país, e o Espírito Santo não foge à regra, um exército (com trocadilho) de candidatos tentou transpor para o pleito municipal uma disputa político-ideológica que deu muito certo em 2018 (mas que, provado está, ficou lá em 2018).

O bom desempenho de Victor em sua própria cidade é um case em que é preciso colocar muita atenção: não é o único, mas é um dos mais eloquentes exemplos de que, na eleição municipal, o cidadão vota por pragmatismo: quem é melhor para governar minha cidade? Se quem está na cadeira está indo bem, fica. Se está indo mal, muda. Simples assim.

Na eleição municipal, o eleitor brasileiro médio (de centro) não vota em partidos, muito menos movido por paixões e disputas político-ideológicas.

Não é demais lembrar que, embora tenha perfil político muito mais de centro (para não dizer centro-direita), Victor Coelho é filiado ao PSB do governador Renato Casagrande: o Partido Socialista Brasileiro. Ainda que não seja um militante partidário, é, inegavelmente, um prefeito que governa por uma partido de centro-esquerda. O PSB é um partido não bolsonarista e que, oficialmente, faz oposição ao governo Bolsonaro.

Mas, ora, Cachoeiro é um reduto profundamente bolsonarista, onde, em 2018, Bolsonaro alcançou sua melhor votação contra Haddad, considerando as sete maiores cidades capixabas (no 2º turno, o capitão teve três votos para cada voto do petista em Cachoeiro). Se a tese da “transposição ideológica” estivesse correta, Victor deveria agora ser trucidado nas urnas, em vez de reeleito. No entanto...

TESE DO “FLA x FLU POLÍTICO” FRACASSOU

Nesta eleição municipal, muitos apostaram na tese da reedição, em nível local, do Fla x Flu político entre direita e esquerda (como se essas duas fossem categorias estanques, sem nuances, e como se a arena política se reduzisse a uma disputa binária: se você não é A, então é B, sem alternativas). Essa tese se provou terrivelmente equivocada.

Victor está bem avaliado. Ponto. Saiu-se bem, particularmente, na gestão da crise da enchente que se abateu sobre Cachoeiro em janeiro deste ano. A série Ibope/Rede Gazeta não permite dúvidas quanto a isso. Na média, o eleitor de Cachoeiro, mesmo aquele mais conservador e que de repente não gosta de partidos de esquerda, está satisfeito com a performance do seu atual prefeito, pouco importa se ele é de centro, de direita ou de esquerda.

Essa polarização ideológica fica totalmente em segundo plano diante de problemas muito mais concretos e palpáveis que atingem o cidadão no seu dia a dia (mais ainda no ano da pandemia, que exige mais do que nunca menos barulho e conflitos ideológicos, e mais planejamento e resultados).

É na cidade que vive o cidadão. Eleição municipal é, antes de tudo, a iluminação das ruas do meu bairro, a qualidade da merenda dos meus filhos, o nível do atendimento da minha mãe idosa no posto de saúde. Um bom orçamento municipal e um bom PDU são muito mais importantes do que ficar se discutindo comunismo, China, Trump, Escola sem Partido etc.

O resultado de Victor prova isso.

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