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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Eleição no ES não foi a da mudança, mas a da lembrança e da segurança

Na maioria das maiores cidades capixabas, eleitor não quis "arriscar" e preferiu reeleger prefeitos, resgatar ex-prefeitos ou consagrar velhos conhecidos. Exceções foram Vitória e Vila Velha. Acompanhe o raciocínio

Publicado em 01/12/2020 às 08h01
Atualizado em 01/12/2020 às 09h06
Eleições 2020 - Vencedores no segundo turno
Eleições 2020 - Vencedores no segundo turno. Crédito: Arte: Geraldo Neto

Ao contrário do que muitos imaginaram antes do pleito, a eleição municipal, no Espírito Santo, não foi, predominantemente, “a eleição da mudança” e sim “a eleição da lembrança” e a “da segurança” (no sentido não de segurança pública, mas de “confiabilidade”). Em quase todos os maiores municípios do Estado, num momento que assusta por causa da pandemia e da crise econômica, o eleitorado manifestou a preferência por um “voto de segurança”, sem arriscar em caras novas, outsiders etc.

Em regra, os capixabas optaram por prefeitos com alto recall político, muito vivos na lembrança do eleitor, divididos em três categorias: prefeitos que buscavam a reeleição – como Edson Magalhães (DEM) em Guarapari e os muito bem avaliados Guerino Zanon (MDB) em Linhares e Victor Coelho (PSB) em Cachoeiro –, ex-prefeitos “resgatados” pelo eleitorado local – como Guerino Balestrassi (PSC) em Colatina e Sergio Vidigal (PDT) na Serra – e políticos bastante conhecidos, ainda que tenham estreado como candidatos naquelas cidades.

Nesse último grupo classifico Euclério Sampaio (DEM), vencedor da disputa pela Prefeitura de Cariacica. Jamais tinha concorrido ao cargo na cidade, mas não pode ser considerado exatamente uma “novidade”, visto que já está no exercício do seu 5º mandato na Assembleia Legislativa. Além disso, Cariacica necessariamente elegeria um prefeito inédito, pois o atual, Juninho (CIdadania), não concorria, e não havia nenhum ex-prefeito no páreo.

Enfim, o “voto da lembrança” foi a regra sobre o “voto da mudança”. Mas, como quase toda regra tem exceções, tivemos duas no Espírito Santo, precisamente em nossa capital política e em nossa capital histórica: em Vitória, com Lorenzo Pazolini (Republicanos), e principalmente em Vila Velha, com o triunfo de Arnaldinho Borgo (Podemos). Ambos são políticos jovens que quase coincidem na idade: o deputado estadual e delegado tem 38 anos, enquanto o vereador de Vila Velha possui 37.

Mas a “mudança política” representada por ambos vai além da questão etária. No caso de Pazolini, além de uma evidente guinada à direita na Capital, é preciso ter em mente que o prefeito eleito só tem dois anos (incompletos) de atividade política, como deputado estadual, e que, para chegar à Prefeitura de Vitória, derrotou um ex-prefeito com legado vistoso na cidade, João Coser (PT), além do candidato da situação, Fabrício Gandini (Cidadania) – que fora preparado para ser o “sucessor natural” de Luciano Rezende.

Já no caso da vitória de Arnaldinho, esse “voto mudancista” se expressou de maneira ainda mais contundente, e por isso, acima, registrei: “principalmente em Vila Velha”. A vitória do vereador no município é expressão ainda mais clara de um “sentimento mudancista”, por três fatores importantes.

Em primeiro lugar, Arnaldinho derrotou, de uma só vez, as duas maiores “marcas políticas” do município: o ex-prefeito Neucimar Fraga (PSD) e, destacadamente, no 2º turno, o atual prefeito Max Filho (PSDB), que, encerrando agora o 3º governo, aos 52 anos, já tem um lugar de honra garantido na história política da cidade. Aliás, constitui-se em história viva de Vila Velha.

Em segundo lugar, Arnaldinho efetivamente usou o mote da “renovação política” como o principal da sua campanha. “Renove com 19” era o seu slogan. Na própria comemoração da vitória, na noite do último domingo (29), o prefeito eleito tornou a enfatizar esse mote, falando que o recado das urnas foi a renovação. Deve-se ressaltar que, embora possa ser considerado membro do mesmo clube, Pazolini não focou a sua campanha em Vitória nesse discurso da "renovação política". Não foi a linha mestra dele. 

Já Arnaldinho explorou o tema à saciedade. Com frases de efeito como “Vamos varrer a velha política de Vila Velha” e uma campanha leve, cheia de memes nas redes sociais, dialogando especialmente com eleitores mais jovens, o vereador apresentou-se desde o início como uma possibilidade de “renovação política”, uma alternativa a seus dois adversários mais conhecidos, que já disputaram muitas eleições para prefeito e já ocuparam a cadeira pleiteada (Neucimar, de 2009 a 2012; Max, entre 2001 e 2008, e de 2017 a 2020).

Com todos os méritos, Arnaldinho chega à prefeitura derrotando essa dupla tradição em Vila Velha, cujo voto claramente foi regido por um desejo de mudança sempre muito presente na cidade, ao contrário do que se viu em outros grandes municípios capixabas. Foi assim, aliás, com Neucimar em 2012 e Rodney Miranda em 2016. Agora, a escrita se repete e se volta contra Max, beneficiado por ela quatro anos atrás: altamente exigente, o eleitor de Vila Velha não gosta de renovar o mandato do prefeito que ocupa a cadeira.

Assim, a vitória de Arnaldinho sobre Max consolida uma nova tradição que vem se estabelecendo na cidade ao longo da última década. E a cadeira de prefeito continua “amaldiçoada”.

Por último mas não menos importante, essa vitória de Arnaldinho é a mais forte manifestação de um “sentimento mudancista” entre todas as maiores cidades capixabas devido à sua vitória numericamente maiúscula: enfrentando um adversário muito duro e com a máquina municipal nas mãos, Arnaldinho obteve mais que o dobro da votação de Max: teve 7 votos válidos para cada 3 do prefeito.

Registre-se, ainda, que Max não tem uma administração notoriamente ruim, tampouco muito mal avaliada, que pudesse justificar tamanha diferença de votos. As pesquisas da série Ibope/Rede Gazeta não captaram isso. Não creio que a explicação esteja aí, numa questão de desempenho do prefeito, mas sim na “fadiga de material” de quem já acumula 12 anos no cargo.

Embora tenha feito uma administração discreta, Max até fez entregas nesse 3º mandato, como cinco novas escolas (além de 10 em construção), a PPP da iluminação pública e o empréstimo de cerca de US$ 30 milhões obtido junto ao Fonplata para financiar projetos de infraestrutura urbana. Isso só reforça que o que mais pesou mesmo na decisão final do eleitor canela-verde foi o desejo de renovação e de alternância no comando da cidade (o que é salutar), independentemente de qualquer resultado apresentado ou não pela atual gestão de Max.

Vila Velha resolveu dar chance para um prefeito nunca antes testado. E eu, se fosse Arnaldinho, já estaria preocupado com 2024... Para que a "maldição da cadeira" não passe para ele com a faixa a ser-lhe entregue por Max, o futuro prefeito terá que fazer um excelente mandato.

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