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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente, informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Do paulocentrismo ao renatocentrismo: a mudança no sistema político do ES

O bloco de poder e influência liderado por Renato Casagrande no Espírito Santo está em visível crescimento. No momento, não há, no plano local, ameaça política real à hegemonia do grupo do governador

Publicado em 02/05/2020 às 06h00
Atualizado em 02/05/2020 às 06h00
Política do ES: do sistema paulocêntrico ao sistema renatocêntrico
Política do ES: do sistema paulocêntrico ao sistema renatocêntrico. Crédito: Amarildo

O bloco de poder e influência liderado por Renato Casagrande no Espírito Santo está em visível crescimento. Além da expansão do próprio partido (PSB), que acaba de filiar muitos prefeitos, e das muitas outras siglas já acopladas ao projeto de Casagrande, o governador e seu núcleo político têm esticado suas asas para também trazer para seu bico partidos inteiros, ou nacos de partidos, que não estavam na vitoriosa coligação casagrandista em 2018 e que não integram oficialmente a coalizão governista no Estado.

Encerrada a temporada de trocas partidárias para quem pretende disputar a próxima eleição municipal, o PSB saltou de quatro para dez prefeitos com mandato no Espírito Santo. Hoje, tem pré-candidato próprio em todos os sete municípios da Região Metropolitana, mirando o próximo pleito – por ora, mantido para outubro.

Além do PSB, o núcleo político de Casagrande, instalado no poder estadual, criou ramificações muito profundas sobre outras legendas que hoje não só fazem parte da base governista como se encontram inteiramente anexadas (para não dizer subordinadas) ao projeto político capitaneado pelo governador. Podemos citar o PV, o PTB, o PP, o Podemos e o PDT.

O resultado prático disso é que, nas próximas eleições municipais, em algumas cidades, quem quer seja o prefeito eleito, o governo Casagrande não tem como perder. Um exemplo é Viana, onde o atual prefeito é Gilson Daniel (Podemos) e os principais pré-candidatos, no momento, são do PSB, do PV, do PTB e do PP, além do inspetor Wylis Lyra, que, embora filiado ao MDB, estava em cargo comissionado no Detran/ES até o início de abril.

Ao mesmo tempo, em um notável sintoma da mudança no pêndulo de poder estadual, os dois sustentáculos do último governo de Paulo Hartung, MDB e PSDB, sofreram um verdadeiro “estrago” nos últimos dois anos: desde 2018, perderam, juntos, nada menos que 20 prefeitos no Espírito Santo (dez cada qual), sendo 17 deles por desfiliação voluntária. Reflexo da nova conjuntura.

Logo após o resultado eleitoral de 2018, alguns analistas políticos, entre os quais me incluo, chegaram a apostar no fim do sistema monocêntrico predominante até então no Espírito Santo (quase todos reunidos em torno do polo Paulo Hartung) e na (re)inauguração de um sistema político policêntrico no Estado. Na época, escrevi uma coluna intitulada: “Do paulicentrismo ao policentrismo”. Isso não está se confirmando, porém.

O bloco do próprio Hartung se desmantelou no pleito de 2018. Havia então a expectativa de que o ex-deputado Carlos Manato, com o capital político turbinado com que saiu das urnas e seu vínculo pessoal com Jair Bolsonaro, pudesse liderar no Espírito Santo um novo polo político, de direita, que rivalizasse com o de Casagrande – o que dependeria muito, naturalmente, de um bom desempenho de Bolsonaro no governo federal.

Isso não se concretizou, em parte por causa da implosão-relâmpago do PSL, em parte devido ao derretimento em tempo recorde do governo Bolsonaro (catastrófico em diversos aspectos), em parte por conta da extrema falta de unidade da direita no Espírito Santo. Se o governo Bolsonaro seguir desmoronando como está, a tendência é de retumbante fracasso de candidatos associados ao bolsonarismo (logo avessos a Casagrande) na próxima eleição municipal, o que só há de fortalecer o próprio governador na correlação de forças políticas estadual.

Hoje, a meu ver, o único bloco político que pode vir a rivalizar um pouco com o liderado por Casagrande (isso se também não acabar absorvido por ele) é o reunido no Republicanos, com Amaro NetoErick Musso e o recém-filiado Lorenzo Pazolini. O partido acaba de pular de um para sete prefeitos pelo Estado. Estrategicamente, está crescendo e acumulando energia potencial, com vistas não só à eleição de outubro como também à de 2022.

Afora isso, há Audifax Barcelos (Rede), uma espécie de cometa, meio solto nessa galáxia…

E Hartung nunca pode ser subestimado. Pode estar acumulando forças e reagrupando sua tropa, com algumas novas caras, visando recuperar espaço na política local em 2022. Por ora, contudo, os sinais indicam que de fato está com foco e energias muito mais direcionados para o cenário político nacional.

Nossa previsão, pelo jeito, falhou em algum ponto. Em vez de uma guinada do “paulicentrismo” para o “policentrismo” após 2018, estamos transitando do sistema “paulocêntrico” para um sistema “renatocêntrico”. A conferir se, nos próximos dois anos, surgirá alguma ameaça real a essa hegemonia política que vem se cristalizando.

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