Passados os quatro primeiros meses da gestão do vereador Clebinho (PP) na Câmara de Vitória, a Casa não está totalmente harmoniosa. Diferentemente da Câmara da Serra, a relação com a prefeitura municipal é boa: todos os projetos do prefeito Luciano Rezende (PPS) têm passado ali com facilidade (ontem mesmo foi aprovada a criação do Fundo Municipal do Trabalho). Na Câmara de Vitória, é nas questões internas que as divisões aparecem.
Clebinho chegou à presidência em agosto do ano passado, como integrante de um grupo majoritário formado por oito dos 15 vereadores. Para muitos, após assumir a presidência, ele se fortaleceu ainda mais internamente, agregando a esse grupo Neuzinha (PSDB) e Denninho (PPS). Por outro lado, cinco vereadores não estão com ele: Max da Mata (PSDB), Wanderson Marinho (PSC), Waguinho Ito (PPS), Vinícius Simões (PPS) e Leonil (PPS). Os dois últimos têm feito um movimento que pode ser considerado de oposição a Clebinho – Leonil abertamente, em plenário; Vinícius de modo mais discreto.
No dia 18 de abril, publicamos aqui que Leonil denunciou Clebinho ao Ministério Público Estadual por supostas irregularidades na licitação da Câmara para a contratação de um cerimonial onde foi celebrada, em 28 de março, a sessão solene em homenagem ao Dia das Mulheres. A 5ª Promotoria Criminal de Vitória instaurou inquérito. Só depois da publicação da coluna sobre a abertura da investigação externa, o grupo de vereadores que apoiam Clebinho protocolou chapa para composição da nova Corregedoria Geral da Câmara, no biênio 2019-2020.
Todos os cinco membros da chapa eram aliados do presidente, principalmente Sandro Parrini (PDT), designado para ser o corregedor-geral. Vinícius Simões protestou e travou a eleição dessa chapa, alegando dois problemas: primeiro, segundo o Regimento Interno, o presidente deveria ter providenciado a eleição do órgão interno em fevereiro; segundo, também de acordo com as normas regimentais da Casa, a composição do colegiado deveria respeitar, “tanto quanto possível, a representação proporcional dos partidos”. Como o PPS possui quatro vereadores, o partido teria direito a pelo menos um assento. O reclame de Vinícius foi acolhido por Clebinho e, consensualmente, Roberto Martins (PTB) foi substituído pelo próprio Vinícius na chapa para a Corregedoria, enfim eleita e instaurada.
O ex-presidente da Câmara aponta possível relação direta entre a denúncia de Leonil e a criação tardia da Corregedoria, feita às pressas logo após a notícia sobre o inquérito aberto. “Eu acho que por isso é que foi feita a nova Corregedoria. Coincidência ou não, apenas depois da divulgação desse fato é que ela foi implantada.”
Na Câmara, a instalação da Corregedoria, dominada por parceiros de Clebinho, é vista no mínimo como reação e precaução: se Leonil, ou qualquer pessoa, protocolar denúncia contra o presidente no órgão interno, ela estará fadada ao arquivamento. Ao mesmo tempo, se o próprio Leonil ou algum outro adversário der motivo doravante, a Corregedoria, mediante provocação, pode investigar a conduta do vereador. Em síntese: pode ser, a um só tempo, escudo e espada para Clebinho.
Aliados de Clebinho, no entanto, têm outra versão. Normalmente ninguém quer fazer parte da Corregedoria, e dessa vez não foi diferente. Em fevereiro, nenhum partido indicou nomes, e o PPS também comeu mosca. Como o prazo já estava vencido, o presidente decidiu agir e, questionado por Vinícius, atendeu ao pleito dele. Simples assim.
Clebinho confirma essa versão: “O prazo era fevereiro. Os vereadores, por causa da correria do mandato, acabam não atentando para essa questão da Corregedoria. E, como venceu o prazo, a gente precisava montá-la. Quando trouxemos para o plenário, Vinícius fez uma colocação e abrimos para a participação do vereador na chapa”.
Sobre o processo licitatório que originou a denúncia de Leonil, Clebinho afirma que não houve absolutamente nada de errado. “Não houve nenhuma situação irregular no processo de licitação. Não posso descartar motivação política de Leonil. Pode ser. Aguardo notificação e me coloco à inteira disposição.”
O presidente ameniza a divisão em plenário. “Há uma divisão dentro do controle. É normal no Parlamento. O Leonil é quem mais faz oposição. O Max e o Vinícius, eu não vejo muito com esse perfil. O Leonil, não sei por quê, talvez por reduto eleitoral. Mas questões eleitorais vamos deixar para a hora certa.”
Clebinho também minimiza investidas de oposicionistas contra ele: “Toda gestão tem oposição. Difícil fugir a essa regra. Podemos ser criticados, questionados, mas seguimos com nosso objetivo de fazer um bom trabalho, respeitando a oposição”.
TÔ NEM AÍ
Procurado pela coluna, Leonil disse não ter o menor interesse em apresentar a mesma denúncia à nova Corregedoria da Câmara.
CONTEXTO POLÍTICO
Do mesmo reduto de Clebinho, a Grande Maruípe, Leonil foi desbancado por ele na eleição da Mesa Diretora. Já Vinícius é antecessor de Clebinho no cargo e, com a chegada do progressista à presidência, perdeu todos os cargos de direção na Casa (de dez a doze) até então preenchidos por indicações dele.
MUDANÇAS INTERNAS
Clebinho tem conseguido aprovar todos os projetos da Mesa que alteram o funcionamento interno da Casa. Criou sem dificuldades o cargo de secretário-geral da Mesa. A Câmara também aprovou projeto de Sandro Parrini (PDT) que permite a cada comissão convocar diretamente um secretário municipal. Antes, as convocações precisavam ser submetidas ao plenário. Na presidência de Vinícius, quase todas eram barradas.
DIVISÃO DOS CARGOS
Na Câmara, há 92 cargos ligados à Mesa Diretora. Desde os tempos de Ademar Rocha, havia um acordo tácito de que cada vereador, independentemente da votação, tinha "direito" a uma cota de cinco desses cargos. Ao assumir, Clebinho rompeu com essa tradição: exonerou todos ou quase todos os indicados por Wanderson Marinho, Max da Mata, Vinícius Simões, Fabrício Gandini (substituído por Waguinho Ito) e Leonil. Denninho perdeu uma diretoria para Dalto Neves (PTB), mas manteve os demais cargos. Neuzinha também manteve seu espaço.
DEFECÇÃO NO PPS
Mesmo sendo do PPS, Denninho admite estar com Clebinho em questões internas, mas não contra o prefeito Luciano Rezende, líder do seu partido. “Enquanto ele [Clebinho] estiver respeitando a minha gestão, estou com ele.”