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Discurso revela o grau de distorção no debate da greve da PM

Segundo o senador Marcos do Val (PPS), policiais eventualmente expulsos da corporação (como consequência dos seus atos e decisões) não terão escolha se não entrar para o crime organizado

Publicado em 02/03/2019 às 01h38
Atualizado em 07/10/2019 às 07h22

O discurso feito pelo senador Marcos do Val (PPS) na tribuna do Senado, na última terça, em defesa da aprovação do projeto de anistia criminal aos participantes da greve da PMES em fevereiro de 2017, é revelador do grau de distorção que se atingiu nesse debate. O projeto em questão é o que nasceu na Câmara – onde já foi aprovado –, copatrocinado pelo então deputado federal Carlos Manato (PSL), e que concede anistia geral a todos os militares que respondem na Justiça a ações criminais resultantes de sua participação no movimento. No Senado, onde o projeto ainda carece de aprovação, Do Val foi o autor do requerimento de votação em regime de urgência.

Na última terça, ele enunciou os seguintes argumentos:

“Pior do que deixar essas pessoas desamparadas é expô-las a uma situação de vulnerabilidade, na qual, por absoluta falta de opção, se vejam obrigadas a se entregar ao descaminho do crime organizado. Vejo isso como uma tragédia terrível e perfeitamente evitável. (...) Estaremos entregando a organizações criminosas policiais bem treinados e que muito bem poderiam estar sendo utilizados no combate a essas organizações. Desfalcamos o Estado com bons policiais para entregá-los, de bandeja, a perversas quadrilhas de criminosos.”

Traduzindo: Do Val está dizendo que policiais eventualmente expulsos da corporação (como consequência dos seus atos e decisões) não terão escolha se não entrar para o crime organizado. E por isso seria necessário apoiar e aprovar a anistia criminal para todos eles.

Espera, volta a fita.

O discurso do senador reflete um ponto recorrente, mas bastante incômodo, na argumentação de muitos agentes de segurança envolvidos de alguma forma naquele movimento: o de que a culpa pela paralisação foi inteiramente do governo passado, que os teria “forçado” a tomar aquela atitude, como se eles não tivessem tido escolha. Ora bolas, e o livre-arbítrio?

Os militares sempre alegam que trabalhavam em condições indignas. De fato, o governo Hartung fez um ajuste duro, o momento era de recessão, os investimentos cessaram bruscamente, a PM do Espírito Santo recebia o pior salário do Brasil. É preciso ponderar tudo isso. Mas esse é só um lado da história.

Quem ouve a argumentação dos grevistas ou de seus apoiadores às vezes tem a impressão de que eles não foram autores da greve, mas nada além de vítimas do próprio movimento. Sublinhe-se: do próprio movimento.

Quando aderiram ou até ajudaram a organizar a paralisação – mesmo plenamente cientes de que semelhante movimento violava a lei –, eles fizeram uma escolha consciente. Como não assumir responsabilidade sobre os próprios atos e sobre as próprias escolhas?

Do mesmo modo, se um ex-policial decide entrar para uma milícia, ou engrossar as fileiras do crime, ele é “vítima” da própria decisão? Então isso também não valeria para qualquer jovem que tenha crescido em uma comunidade pobre e decidido, “sem opção”, entrar para o crime? Mas e o jovem ali ao lado, que cresceu nas mesmas condições, e não cedeu aos apelos do tráfico?

Inclusive, sob uma ótica bolsonarista – muito compartilhada dentro dos quartéis –, esse discurso que trata jovens infratores como “vítimas do Estado” ou “da sociedade” é muito rechaçado. Se esse tipo de argumento “vitimista” não vale para o aviãozinho do “movimento”, por que deveria valer para ex-policiais que integraram movimento sem previsão legal?

DAVI, EX-FUTURO LÍDER

No fim de janeiro, numa tentativa de reaproximação com Davi Esmael (PSB), o prefeito de Vitória, Luciano Rezende (PPS), convidou o vereador para ser seu novo líder na Câmara de Vitória, em substituição a Leonil (PPS). O convite, porém, foi retirado da mesa.

A ULTIMA GOTA (DE SUOR)

Desde o início da legislatura, no começo de fevereiro, Davi tem mantido postura de oposicionista. Na manhã da última terça, acompanhou o deputado Lorenzo Pazolini em visita a uma creche em São Pedro. A dupla fez um vídeo, exibido pelo deputado em plenário, alegando falta de ar-condicionado numa escola com estrutura de madeirite. “Condições degradantes”, disparou Pazolini, da tribuna, acrescentando que os dois oficiaram a situação ao CREA e ao MPES.

GALERIA DE MUY ALIADOS

Davi se diz aliado de Luciano. Pazolini, aliado de Casagrande. Na mesma categoria dos muy amigos, o deputado Sergio Majeski (PSB), do partido do governador, pediu um aparte ao discurso de Pazolini para emendar: “Parabéns. Na rede estadual, há dezenas de escolas na mesma situação há 20 anos. Escolas modulares, de PVC, que é ainda mais quente que madeirite”.

FALHA NOSSA

Diferentemente do que publicamos ontem, Gracimeri Gaviorno é a nova ouvidora da Secretaria de Estado da Segurança. A ouvidora-geral do Estado segue sendo Audiceia Lima Silva Andrade.

ME EXPLICA ISSO DAÍ

Se a reforma da Previdência é a prioridade do governo, por que isso jamais foi dito por Bolsonaro na campanha?

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