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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Dary: o deputado que ganhou protagonismo por não ser protagonista

Dary Pagung passou a "brilhar", como líder do governo e em outras posições de destaque, justamente por ser desprovido de brilho próprio. Como não questiona nem opina sobre nada, é o cara perfeito para o governo Casagrande

Publicado em 17/02/2021 às 02h02
Atualizado em 18/02/2021 às 22h20
Dary Pagung, deputado estadual pelo PSB
Dary Pagung, deputado estadual pelo PSB. Crédito: Reinaldo Carvalho/ Assembleia

Primeiro secretário da nova Mesa Diretora, líder do governo Casagrande (PSB) e líder do blocão partidário formado no início deste mês. Dary Pagung (PSB), o "cara do momento" na Assembleia Legislativa, está jogando, ao mesmo tempo, em três das posições mais importantes do time do Palácio Anchieta na arena da Assembleia (o plenário). Esse acúmulo de posições tão destacadas se explica, em parte, por virtudes de Dary, mas não só. Também se explica por suas fragilidades.

É curioso, mas Dary alcançou esse tríplice protagonismo sem ter vocação alguma para ser protagonista. Digo mais: só se tornou protagonista justamente por não ambicionar o protagonismo – indo além: por ser um cara "apagado". A falta de brilho próprio, por paradoxal que isto soe, foi um dos fatores que mais ajudaram Dary a ascender às posições que hoje acumula. Em primeiro lugar, pacato e discretão como é, Dary não incomoda nem assusta ninguém, muito menos ameaça. Provavelmente, no ano que vem, será candidato mais uma vez a deputado estadual.

Erick Musso, ao contrário, busca cada vez maior protagonismo político, não só no comando da Assembleia como na política estadual nos próximos anos. Assim, Erick na certa topou o acordo com Casagrande tendo Dary como 1º secretário da Mesa porque sabe que, ali ao seu lado, Dary não lhe fará sombra, não lhe empanará o brilho, muito menos representará qualquer ameaça política para ele. O presidente reeleito da Assembleia não se sente ameaçado por Dary, como, aliás, ninguém se sente.

Em segundo lugar, para alguns dos seus pares, Dary só chegou aonde chegou exatamente porque é um deputado "manipulável", muito fácil de se manobrar; um cumpridor de ordens, que vai para onde o governo indicar e faz o que o governo mandar sem muita reflexão e, principalmente, sem jamais questionar nada.

Instados a descrever Dary do ponto de vista político e a classificar a sua atuação parlamentar, fontes da coluna o desenharam como um deputado neutro e vazio; desprovido de ideologia; sem opiniões, ideias e posições políticas próprias; com um "oco" a ser preenchido pelo governo a quem estiver servindo. Para o governo, por isso mesmo, é perfeito. "Não é que ele não tenha posições firmes. É que ele não tem posições", resume uma fonte.

Entre outras expressões menos elegantes, ouvimos que Dary é "inexpressivo" e "passa despercebido". Conjugada com sua docilidade no trato com todos, essa servidão agrada ao governo porque, basicamente, ele não incomoda ninguém.

"Ele não vai dar trabalho. Faz para quem manda aquilo que quem manda mandar. É uma pessoa manipulável, e é mais fácil para o governo colocar uma pessoa que você possa manipular. Ele está forte neste momento não pelos méritos dele, mas por ser o homem do Renato. Ninguém briga com ele, porque brigar com ele hoje é brigar com a caneta de quem ele representa", elabora experiente parlamentar, que emenda: "Como líder, ele é 'bonzinho'. É atencioso, mas não se impõe".

Assim, esse aparente "superpoder" conferido a Dary e concentrado em suas mãos no momento não é um poder genuíno – real e pessoal –, que emana dele mesmo, mas o poder delegado a ele por quem realmente detém o poder, para que ele seja, na Assembleia, um procurador incondicional dos interesses do Palácio Anchieta.

Outra fonte, esta de dentro do governo, avalia que Dary na verdade não fez nada excepcional e chegou aonde chegou – liderança do governo e lugar proeminente na Mesa – praticamente por inércia dos demais.

"Ele está no lugar certo na hora certa. Não fez nada extraordinário, muito pelo contrário. Nunca se expressou nem se projetou. Aconteceu de ele estar ali, sob feixe de luz. Ele foi útil num momento em que o governador precisou e isso fez a diferença, porque depois não houve mais quem ocupasse esse espaço. O mínimo movimento que ele fez, no lugar de nada, deixou-o um pontinho acima da média e valeu para ele o lugar na Mesa."

Para o mesmo colaborador do Palácio, Dary é eficiente como líder, mas o fato é que nunca precisou ser testado de verdade, numa Casa dominada pelo governo atualmente. Ele recebe antes, do governo, os projetos a serem enviados e atua como um despachante junto aos colegas.

Já para um deputado da base, Dary tem dado conta do recado, mas peca por não marcar posicionamentos mais firmes. "O Dary é completamente passivo. Em determinados momentos, ele poderia ser um líder com posições mais incisivas. Mas é o perfil dele…"

Essa falta de firmeza custou a Dary um degrau ainda mais elevado nessa sua notável ascensão. Para quem acha que ele já chegou alto demais, Dary realmente poderia até ter sido lançado à presidência da Assembleia pelo Palácio Anchieta… Mas, além dos méritos e da articulação de Erick Musso, o governo, literalmente, não sentiu firmeza no seu líder para o cargo de presidente.

Na hora de avaliar quem era quem no jogo, palacianos não conseguiram visualizar esse Dary tão dócil e passivo precisando conduzir com pulso firme, por exemplo, uma sessão complicada, com a votação de um projeto delicado, mas prioritário para o governo. Nesse aspecto Erick ganhou pontos porque, mesmo não sendo um governista puro-sangue, já provou que é capaz de fazer isso e até de passar o trator em benefício do governo, sem a menor dificuldade, se necessário for.

Diga-se de passagem, toda essa situação – com a ascensão e a proeminência adquiridas por Dary praticamente pela falta de outros nomes – denota a gritante escassez de lideranças na base de Casagrande na Assembleia no momento. É algo muito revelador.

Atualmente, como já analisamos aqui, Casagrande passeia na Assembleia com seu carro numa pista sem buracos. A tendência é que, pelo menos até o início do ano que vem, ele navegue por mares muito tranquilos ali. Sua base, porém, é muito frágil e construída sobre alicerces meio artificiais… Uma base ampla, numericamente esmagadora, mas flagrantemente desprovida de valores individuais com liderança e talento verdadeiros.

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