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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente, informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Da bula à burla: por que prefeitos capixabas estão cloroquinando?

Quando prefeituras transformam a prescrição de uma droga fora da bula em política oficial de tratamento, legitimando e massificando uma estratégia de eficácia ainda duvidosa, somos levados a questionar: por que cada vez mais prefeitos capixabas estão apelando para a cloroquina?

Publicado em 11/07/2020 às 06h00
Atualizado em 11/07/2020 às 06h00
Prefeitos estão rezando para
Prefeitos estão rezando para "Santa Cloroquina", mas esse ídolo pode ser de barro. Crédito: Amarildo

Quase todo mundo já deve ter visto o meme: num futuro não muito distante, a professora procede à chamada. Na lista de presença, várias meninas chamadas Cloroquina, ou Maria Cloroquina, ao lado de Alcogelsons etc. De tão repetida no Brasil nestes tempos pandêmicos, a palavra “cloroquina”, até então praticamente restrita aos campos médico e farmacêutico, entrou para o nosso vocabulário cotidiano, a ponto de, na brincadeira, ter virado um nome próprio.

Se tivesse virado um verbo, poderíamos afirmar que, no Espírito Santo, dezenas de prefeitos estão “cloroquinando”, isto é, rendendo-se ao apelo de medicamentos como a cloroquina, a hidroxicloroquina e a ivermectina e adotando oficialmente o uso dessas drogas nas respectivas redes municipais de atendimento primário, no tratamento de pessoas com confirmação ou mesmo com suspeita de contágio pelo novo coronavírus.

Na prática, isso significa que mais e mais médicos prescreverão essas drogas para tratamento da Covid-19 em unidades básicas de saúde, inclusive no caso de pessoas com sintomas leves. A lista de prefeitos capixabas que aderiram a tal estratégia inclui o de Vitória, Luciano Rezende (Cidadania).

De modo geral, todas essas entidades enfatizam a falta de eficácia cientificamente comprovada dessas substâncias para o combate ao novo coronavírus, alertando, ainda, para o risco de efeitos colaterais graves associados a seu uso, como arritmia cardíaca.

Ainda assim, não se ignora a existência de uma série de relatos por parte de médicos que estão na linha de frente da atenção aos pacientes infectados, dando conta de efeitos positivos dessas substâncias tanto na prevenção (ivermectina) como na boa evolução de pacientes em estágio inicial do contágio (cloroquina ou sulfato de hidroxicloroquina, combinados com azitromicina). De igual modo, existem relatos que vão na direção contrária, de agravamento do quadro de pacientes que vinham evoluindo bem.

São relatos colhidos da experiência prática, ambulatorial, a chamada casuística (conjunto de casos relativos a determinado assunto). Não têm, por certo, a validação científica que pressupõe pesquisas rigorosas em laboratório, testes controlados com grupos de pacientes sob monitoramento, comparação de resultados... Em uma palavra, rigor. A Ciência, com C, demanda tempo e não pode jamais prescindir de rigor metodológico, sob pena de produzir conclusões equivocadas e, no caso da Medicina, até fatais.

Dada a urgência imposta pela pandemia, o uso da cloroquina é uma tentativa, digamos, off science. Pode ser tão bem-intencionado quanto altamente arriscado. Não pode ser demonizado, mas tampouco pode ser tratado, muito menos difundido, como cura para a doença ainda sem cura, como solução para a pandemia. E é esse ponto em particular que preocupa. Mais ainda quando se vê a maneira como muitos prefeitos e outros políticos estão se agarrando a essa droga e fazendo propaganda da chegada das doses requeridas à Sesa. Fazem parecer tratar-se de uma panaceia. E a verdade não é essa.

O risco embutido nessa estratégia e sobretudo na propaganda em torno dela é que os gestores, assim, levam às respectivas comunidades uma falsa e perigosa sensação de tranquilidade (“tudo bem, se eu pegar o vírus já tenho remédio pra me tratar”). E esta, por sua vez, pode conduzir ao relaxamento no que ainda deveria ser prioritário, por ser a única estratégia comprovadamente eficaz de enfrentamento à pandemia: isolamento e distanciamento social.

Noutras palavras, os prefeitos podem estar transmitindo à população uma mensagem com sinal contrário ao desejável neste momento, levando os cidadãos a abaixarem a guarda quando deveriam seguir enfatizando a necessidade de mantê-la bem erguida para se protegerem. Pode não ser reles coincidência que, justamente neste momento de intensificação da campanha em prol da cloroquina, do Planalto às prefeituras municipais, a população capixaba venha registrando uma preocupante sequência de recordes de piores índices de isolamento social desde o início da pandemia.

Parece-me um erro na definição das prioridades essa discussão excessivamente concentrada em uma questionável cura, ou tratamento, para pessoas já contagiadas, quando deveríamos estar dando centralidade às estratégias para evitar que mais pessoas contraiam o vírus e adoeçam. Esse desvio de foco prejudica a ação na outra ponta (a da prevenção), a qual deveria ser a mais enfatizada.

Vale lembrar que todo médico, na relação direta com o paciente, tem pleno direito de lhe receitar um medicamento off label (fora da bula), desde que o paciente seja devidamente informado sobre os riscos do uso do remédio e desde que dê ao médico o seu consentimento pessoal. Isso é uma coisa. Mas quando prefeituras transformam o uso de uma substância off label praticamente em política oficial de tratamento, legitimando e massificando uma estratégia de eficácia ainda duvidosa, somos levados a questionar: por que cada vez mais prefeitos capixabas estão apelando para isso?

Uma primeira explicação pode ser extraída da primeira justificativa de Luciano Rezende, ao anunciar, no dia 1º, o uso da cloroquina na rede de saúde de Vitória. Pode ser resumida em uma palavra: pressa. “Agir rápido”, disse ele. O tempo da política não é o tempo da ciência. E, é claro, estamos em meio a uma pandemia, uma situação sui generis, de calamidade pública, cuja dramaticidade induz governantes a acelerar a tomada de decisões em busca de respostas imediatas, ou imediatistas, que não necessariamente são as melhores.

Tão angustiados quanto o cidadão comum, os gestores públicos sentem-se impelidos a mostrar à população que a prefeitura está agindo, fazendo algo, que não está só assistindo passivamente ao agravamento do quadro geral. Do ponto de vista político, devem calcular que pelo menos não poderão ser acusados de passividade e omissão; pelo menos terão tentado dar uma resposta.

Ainda que a eficácia da resposta escolhida seja bastante duvidosa, ela é a mais imediata (a mais fácil) e a que está mais ao alcance deles hoje. É um risco grande, e as chances de errar são maiores, proporcionais ao tamanho do risco. Nem sempre o caminho fácil é o caminho certo.

A segunda explicação repousa no calendário eleitoral e na dicotomia política instalada no país entre “direita” e “esquerda”. Mas isto fica para uma próxima análise (neste domingo, neste espaço). Até lá!

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