O único. Nas eleições municipais de novembro, o PT não elegeu nenhum candidato a prefeito no Espírito Santo. Passou em branco nos 78 municípios. Para salvar a honra do partido, um (apenas um) candidato a vice-prefeito teve êxito nas urnas. Aos 39 anos, o agricultor Efrem Ricardo Basilio da Silva se elegeu vice-prefeito da pacata cidade de Águia Branca, com menos de 10 mil habitantes, na região Noroeste do Estado, completando a chapa encabeçada pelo prefeito eleito Jailson Quiuqui (Cidadania).
Filiado ao PT desde meados de 2003 (ano inaugural do governo Lula), Efrem é petista autêntico e demonstra plena consciência sobre a "responsabilidade adicional" que recai sobre ele agora por ter sido, precisamente, o único candidato eleito pelos cidadãos capixabas em novembro, para qualquer cargo majoritário, na disputa pelo comando do Poder Executivo nos municípios:
"A responsabilidade é inerente à quantidade de eleitos. Por isso, acredito que não aumenta, mas me coloca em destaque, prova disso é que estou sendo entrevistado. De qualquer forma, o partido na instância municipal e estadual tem me dado total apoio. Espero poder contribuir muito".
Acompanhe abaixo a entrevista completa de Efrem, vice-prefeito de Águia Branca e único petista a exercer um cargo majoritário no Espírito Santo, a partir de 1º de janeiro.
Conte-nos um pouco a sua história. Onde nasceu? Onde cresceu? Onde mora? Onde estudou? É casado? Tem filhos?
Sou filho dos agricultores João Basilio da Silva e Maristela Proeschaldt Basilio da Silva. Nasci na Comunidade de Pedra Torta, onde, em meio a cinco irmãos, cresci e também me tornei agricultor, católico e cidadão aguiabranquense. Sou casado com Renata Gódio e pai da Layne, com quem aprendo e cresço muito. É de toda a família que tiro o apoio e a coragem para encarar os desafios da vida.
Já tinha disputado alguma eleição?
Nunca havia disputado. Foi a primeira vez que disponibilizei o meu nome para um projeto do PT de Águia Branca. Confesso que tentei fugir, pois nunca foi minha intenção, mas temos uma formação partidária que requer abrir mão de algumas vontades pessoais em nome de uma coletividade. Aí o meu nome foi indicado pelo grupo, não tive como recus
Desde quando é filiado ao PT?
Acho que 2003.
Por que decidiu entrar no PT?
Sou de esquerda. Entrei no PT por identificação ideológica, sobretudo com o grupo ao qual pertenço desde que entrei. Sou filho de projetos anteriores a mim, por exemplo, dos companheiros que já exerceram mandato de vereança, o Mauro Daniel e o Erivaldo Bergamaschi. Fui vendo neles e em tantos outros semelhanças com a minha forma de pensar e entender o mundo.
O senhor foi o único candidato a cargo majoritário eleito pelo PT no ES em novembro. Por que acha que o partido foi tão mal nessas eleições municipais?
É sempre complicado analisar conjunturas desse tipo, pois demandam conhecimento de muitas questões. Cada município tem sua realidade. Em Águia Branca, por exemplo, a rejeição ao PT sempre se deu pelo fato de ocuparmos um lugar de militância, dos grupos sociais e da proposta de bem comum. Do que conheço dos outros espaços, suspeito que isso seja efeito do avanço de um discurso conservador, contrário a direitos sociais.
O fato de ter sido o único aumenta a sua responsabilidade? Você se sente com uma missão ainda mais importante, de representar bem o partido?
A responsabilidade é inerente à quantidade de eleitos. Por isso, acredito que não aumenta, mas me coloca em destaque, prova disso é que estou sendo entrevistado. De qualquer forma, o partido na instância municipal e estadual tem me dado total apoio. Espero poder contribuir muito.
Quais deverão ser as prioridades da sua administração com o prefeito eleito, Jailson Quiuqui, em Águia Branca?
É difícil falar de prioridades agora. Temos um plano de governo que contempla todas as áreas, pois todas as pautas são importantes para a constituição da cidadania e de uma vida melhor para o indivíduo. Mas esse período de transição tem me feito pensar mais em algumas pastas, por exemplo a agricultura, a saúde e a educação.
O que o senhor pensa sobre o ex-presidente Lula?
Lula fez pelo Brasil o que há tempos sonhávamos: fez o pobre acreditar de novo. Claro que não o vejo como um mártir, isento de erros, mas reconheço mais do que nunca os avanços construídos por ele, bem como a importância de uma democracia de fato.
O senhor acha que ele mereceu ou não mereceu ser condenado e preso em 2018?
Acho até estranha essa pergunta depois de tudo que fomos vendo no desenrolar do processo. Para mim, ficou claro se tratar muito mais de uma estratégia eleitoral.
E Dilma mereceu sofrer o impeachment em 2016?
De forma alguma Dilma mereceu. O motivo pelo qual ela passou por esse processo é questionável tanto da ótica moral quanto legal.
Quem o senhor acha que deve ser o candidato do PT à Presidência em 2022?
É difícil falar isso, pois até 2022 muita coisa pode acontecer, inclusive uma frente ampla da esquerda.
Uma afirmação muito comum em relação ao PT é que o partido nunca faz autocrítica, ou seja, se recusa a admitir qualquer erro. Como petista, o senhor acha que o PT cometeu erros? Quais?
O PT cometeu erros, sim, como qualquer partido comete. Seria, inclusive, estranho se não cometesse. Para mim, o maior erro foi fazer algumas concessões. Mas é engraçado que a rejeição ao partido não veio disso, mas da implementação de medidas sociais. Sobre a autocrítica, confesso que não entendo muito bem, pois ela existe dentro do partido, ao menos aqui em Águia Branca. Não consigo entender o que se espera que o partido faça com a autocrítica.
Como o senhor avalia o governo Bolsonaro?
O governo Bolsonaro foi um erro. E boa parte dos que o elegeram já sabe disso. Muitos já sinalizaram total arrependimento. E isso acontece, pois já foi percebido que o presidente opera numa perspectiva de retirada de direitos, com ataque a quem mais precisa da assistência e de projetos do governo. O que Bolsonaro vem fazendo no governo é de um retrocesso tremendo. Não há como fazer uma boa avaliação.
Em quem o senhor votou para presidente em 2018?
Fui Haddad no primeiro e no segundo turno, obviamente.