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Da Vitória contra o impeachment

Cidadania: partido de esquerda no país, mas não no Espírito Santo

Agremiação nasceu do Partido Comunista Brasileiro em 1992. Sua cúpula nacional faz oposição a Bolsonaro e defende o impeachment. Mas expoentes da sigla no ES, como Da Vitória, estão muito longe da esquerda

Publicado em 27 de Janeiro de 2021 às 02:00

Públicado em 

27 jan 2021 às 02:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Cidadania no Espírito Santo dobrou à direita
Cidadania no Espírito Santo dobrou à direita Crédito: Amarildo
Nascido do Partido Comunista Brasileiro (PCB) no início dos anos 1990, sob a sigla PPS (Partido Popular Socialista), o Cidadania é uma agremiação política que se origina na esquerda clássica e cuja cúpula nacional, até hoje, se mantém assim. Presidido nacionalmente pelo advogado, ex-deputado federal e ex-senador pernambucano Roberto Freire – expoente da esquerda na luta contra a ditadura e líder do PCB na Assembleia Constituinte de 1988 –, o partido oficialmente faz oposição hoje em dia ao governo Bolsonaro no Congresso Nacional.
Na última quarta-feira (20), a Executiva Nacional do Cidadania aprovou o apoio ao impeachment do presidente da República, em decisão que ainda terá que ser referendada pelo Diretório Nacional, em reunião marcada para 4 de fevereiro. O partido também é o autor da representação que levou o ministro do STF Ricardo Lewandowski a autorizar, na última segunda-feira (25), a abertura de inquérito para investigar a conduta do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, na crise da saúde no Amazonas.
Enquanto isso, no Espírito Santo, o Cidadania foi adquirindo uma cara ideológica cada vez menos de esquerda nos últimos anos. Hoje, a face predominante do partido no Estado é nitidamente de direita (ou, no mínimo, de centro-direita). Em entrevista a esta coluna em 2020, o presidente estadual do partido, Fabrício Gandini, definiu-se como político de centro.
Já o deputado federal Josias da Vitória, único representante da sigla na bancada capixaba no Congresso, está muito mais para direita. Em conversa com a coluna, ele se declara contra a proposta de impeachment de Bolsonaro e antecipa que, na reunião do Diretório Nacional no dia 4, na qual terá direito a voto como membro da bancada da sigla, votará contra a proposição.
Também ilustrando esse distanciamento entre o deputado e a cúpula nacional, Da Vitória deverá votar em Arthur Lira (PP), o candidato apoiado pelo presidente Bolsonaro, na eleição da presidência da Câmara dos Deputados, marcada para a próxima segunda-feira (1º). É um caso típico de dissidência, pois o Cidadania, oficialmente, apoia a candidatura de Baleia Rossi (MDB), apadrinhado pelo atual presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM).
Já na Câmara de Vitória, onde o partido mantém a maior bancada, os três vereadores do Cidadania eleitos em 2020 (Denninho, Maurício Leite e Luiz Emanuel) são políticos notoriamente de direita. Tanto que os três manifestaram apoio ao então deputado estadual Lorenzo Pazolini (Republicanos), declaradamente um político de direita, contra o petista João Coser, logo nos primeiros dias do 2º turno na última eleição municipal, em novembro passado. Agora, no início do mandato de Pazolini em Vitória, os três estão bastante alinhados com o novo prefeito na Câmara.
Outro exemplo desse descolamento com a cartilha nacional do partido é que, em 2018, o Cidadania no Espírito Santo deu legenda para a exitosa candidatura ao Senado do até então instrutor de segurança Marcos do Val, parlamentar com posições de direita, alinhado com o governo Bolsonaro em algumas pautas que a própria direção nacional do Cidadania não apoia (por exemplo, a flexibilização das leis sobre porte e posse de armas de fogo pela população civil). A situação era tão insólita que, já em seu primeiro ano no Senado (2019), o senador saiu do partido, trocando o Cidadania pelo Podemos.

DA VITÓRIA CONTRA O IMPEACHMENT

Único congressista pelo Cidadania do Espírito Santo, o deputado Da Vitória se declara contra o impeachment do presidente Bolsonaro, divergindo do posicionamento da direção nacional da sigla:
“A minha opinião pessoal é que esse assunto não era para estar pautado. Não é o momento. Não é o ambiente para isso. Toda a energia não só do povo brasileiro, mas do mundo, deve estar concentrada em salvar vidas neste momento de pandemia. E o Congresso Nacional também é um protagonista para que a gente possa concentrar a nossa energia nisso. Enquanto membro do Diretório Nacional e deputado federal do Cidadania, eu sou contrário a esse debate neste momento. Isso está fora de prioridade. Meu voto será contra.”
Questionado sobre como se define do ponto de vista ideológico, o deputado evita situar a si mesmo em algum campo. “Para lhe falar a verdade, está até difícil entender o que é direita e o que é esquerda. Esse debate tem até trazido um distanciamento dos equilibrados da política, porque temos visto muitos extremismos. Eu me coloco como uma pessoa com perfil liberal e de equilíbrio mais para o centro. Sigo muito também o momento, a necessidade de cada debate. Não tenho uma condução ideológica por história, por segmento.”
Ao mesmo tempo, ele nega categoricamente que tenha perfil de esquerda: “Nem que eu queira falar, ninguém vai acreditar. Não tem nada comigo isso”. Reconhecendo que a cúpula nacional se mantém muito mais à esquerda, ele garante: “Eles me respeitam com meu perfil diferente”. E afirma que os outros deputados do Cidadania atualmente no Congresso também não estão muito próximos ao perfil da direção nacional: “No nosso partido, os outros membros da Câmara são pessoas com perfil próximo ao meu”.
Da Vitória lembra que, também quando estava no PDT, seu partido antes de migrar para o Cidadania, ele tinha um perfil diferente daquele da direção da sigla no Estado e no país.
Desde a última sexta-feira (22), tentamos sem sucesso entrevistar o presidente estadual do Cidadania, Fabrício Gandini, para esta coluna. Ele não atendeu às nossas ligações nem respondeu às nossas mensagens de texto, com perguntas sobre sua posição em relação ao impeachment de Bolsonaro e a essa transformação ideológica vivida pelo partido no Espírito Santo ao longo dos últimos anos.

CURIOSIDADE: GRANJA E MIRTHES BEVILACQUA

O mais curioso é que, até bem pouco tempo atrás, em todos os encontros estaduais do Cidadania no Espírito Santo, os dois símbolos vivos do partido, tratados com grande deferência e muitas homenagens por todos, vinham a ser precisamente dois expoentes da esquerda capixaba no século XX.
Um deles era o centenário Antônio Ribeiro Granja, ex-líder sindical dos ferroviários no Espírito Santo e militante do PCB desde os longínquos tempos da Aliança Nacional Libertadora (ANL), reprimida por Getúlio Vargas durante seu primeiro governo, na década de 1930. Presidente nacional de honra do Cidadania, Granja morreu em 10 de novembro de 2019, aos 106 anos.
O outro símbolo do partido no Estado, com lugar cativo na mesa de autoridades de todos os encontros do Cidadania, é a advogada Myrthes Bevilacqua, líder sindical dos professores durante a ditadura militar e primeira mulher eleita deputada federal pelo Espírito Santo, com mandato exercido na Câmara pelo PMDB, de 1983 a 1986.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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