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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Casagrande consegue apoio dos outros Poderes em “Pacto Social”. Conseguirá o da sociedade?

Quarentena anunciada nesta terça (16) pelo governador foi chancelada por chefes da Assembleia, do Judiciário, do MPES etc. Desafio agora é convencer os cidadãos em geral a também assinar o “pacto”

Publicado em 17/03/2021 às 02h03
Chefes dos Poderes do ES fizeram um pacto a favor da quarentena
Chefes dos Poderes do ES fizeram um pacto a favor da quarentena. Crédito: Amarildo

“Agora, no Espírito Santo, estamos muito pressionados”, disse o governador Renato Casagrande (PSB) em dada altura de seu pronunciamento na tarde desta terça-feira (16). Ele referia-se à taxa de ocupação de leitos de UTI para atendimento de pacientes com Covid-19 no Estado, que no mesmo dia superou os 91%, levando seu governo a decretar 14 dias de fechamento de todas as atividades econômicas consideradas não essenciais em todos os municípios capixabas. A mesma frase do governador, porém, dentro do mesmo contexto, poderia servir para definir a pressão política que ele mesmo e sua equipe passam a sofrer de agora em diante.

Se já era grande, passará a ser muito maior a partir da assinatura do decreto, por parte de setores políticos que lhe fazem oposição e das categorias, comerciantes em especial, que já vinham acumulando muitas perdas desde o início da pandemia e que agora serão ainda mais prejudicadas, com a proibição de abrirem seus negócios por duas semanas (pelo menos).

Querem ver um exemplo disso? Em sua intervenção após o anúncio de Casagrande, o presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCES), Rodrigo Chamoun, citou uma frase atribuída a Santa Joana d’Arc para apoiar a decisão do governador: “Defende o que é certo, mesmo que isso signifique ficar sozinho. Se achar difícil fazer, pede a Deus a graça da fortaleza”.

Enquanto isso, do lado de fora do Palácio Anchieta, cerca de 30 manifestantes protestavam contra o fechamento do comércio, com direito a um trio elétrico parado em frente à sede do governo na Avenida Beira-Mar. Se estivéssemos na Idade Média, teriam “queimado Casagrande” em praça pública (a João Clímaco). Na transmissão on-line do governador, feita de dentro do Palácio, era possível ouvir o estampido dos rojões estourados pelo grupo.

Outro exemplo: logo após a coletiva de imprensa de Casagrande, o prefeito de São Gabriel da Palha, Tiago Rocha (PSL), politicamente ligado ao ex-deputado bolsonarista Carlos Manato, fez uma live para dizer que não seguirá, em sua cidade, as medidas decretadas pelo governo estadual. Princípio de rebelião.

Casagrande sabe que, num momento delicado como esse, de adoção de medidas tão polêmicas e desagradáveis (embora pudessem ter vindo ainda mais duras), ele precisa se fortalecer politicamente, buscando apoio onde quer que consiga angariá-lo: prefeitos, chefes de outros Poderes e instituições estaduais, representantes de federações e sindicatos patronais, líderes religiosos e outras organizações da sociedade civil. É precisamente isso que ele vem fazendo desde o último sábado (13).

De maneira emblemática, Casagrande fez questão de convidar os chefes de todos os Poderes e instituições públicas estaduais, além do Poder Executivo, para participarem da live com ele. E, após seu pronunciamento inicial com o anúncio das principais medidas, abriu a palavra para cada um deles. De todos, recebeu mensagens de apoio absoluto à decisão tomada.

No campo simbólico foi importante: o governador mostrou à imprensa e ao grande público, em primeiro lugar, que a decisão é conjunta, não apenas do Executivo, isto é, não apenas dele. Por mais amarga que seja, é avalizada pelos chefes de todos os Poderes do Estado e só foi tomada por ele depois que todos foram consultados. Em segundo lugar, o governador mostrou que conta com o apoio das maiores autoridades públicas em todas as esferas estaduais e que todos os Poderes do Estado estão mesmo reunidos em torno do “Pacto Social pela Vida” que ele está propondo.

Para exibir apoio também dos profissionais da saúde, Casagrande ainda franqueou a palavra ao presidente da Federação dos Hospitais Filantrópicos do ES (Fehofes), Fabrício Gaeedes, que informou: “Boa parte das instituições já opera com 100% de sua capacidade”. O governador acrescentou que “hospitais privados mandaram cartas pedindo medidas mais restritivas”. Ou seja, segundo ele, os hospitais não geridos pelo Estado também estão no mesmo “pacto”.

Agora vem a missão mais difícil: convencer a própria sociedade a apoiar esse “pacto social”. Não bastará contar com a consciência das pessoas em geral. Demandará um belo trabalho de convencimento, além do lançamento de medidas de proteção e compensação econômica para os setores mais diretamente atingidos pelas restrições a atividades sociais e comerciais. Resta saber se a maioria da população capixaba vai entender que Casagrande está defendendo “o que é certo”, como diria Joana d’Arc, ou se vai querer jogá-lo na fogueira.

Em tempo: como já sustentei aqui, é a coisa certa a fazer mesmo.

A CONSTRUÇÃO DO PACTO COM OS PODERES

A construção do pacto com os Poderes começou no último sábado, um dia após a divulgação do último Mapa de Risco do Estado, que já apontava para o agravamento acelerado da situação, com o número de cidades em risco alto saltando de uma para 17 em uma semana. Nessa data, Casagrande realizou uma reunião online com os prefeitos da Grande Vitória para começar a discutir a adoção de medidas mais rigorosas em termos de mobilidade social.

Nessa primeira reunião, chamou a atenção a ausência do prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini Os demais participaram: Euclério Sampaio (Cariacica), Arnaldinho Borgo (Vila Velha), Sérgio Vidigal (Serra) e Wanderson Bueno (Viana). Pazolini não justificou a ausência nem enviou nenhum representante em seu lugar. A procuradora-geral de Justiça, Luciana Andrade, chegou a lamentar a ausência do prefeito. Na manhã de segunda-feira (15), o governador voltou a se reunir com os prefeitos da Grande Vitória, sempre de maneira remota, e a situação se repetiu: ausência do prefeito de Vitória, sem justificativa oficial nem envio de representação.

Desde segunda-feira à noite, pedimos à assessoria da Prefeitura de Vitória a explicação oficial para a não participação do prefeito, mas não obtivemos resposta. A coluna será atualizada se houver alguma.

Ainda na segunda-feira, às 17 horas, Casagrande reuniu-se com os chefes do Tribunal de Justiça do Estado (TJES), do Ministério Público Estadual (MPES), da Defensoria Pública, do Tribunal de Contas do Estado (TCES) e da Assembleia Legislativa. Às 19 horas, reuniu-se com o Fórum das Federações (indústria, comércio, agricultura e transporte) e com as associações de shoppings, bares, restaurantes e eventos, explicando a gravidade da situação.

Na manhã de terça-feira, horas antes de anunciar a quarentena, esteve virtualmente com cerca de 70 líderes religiosos, incluindo Arquidiocese de Vitória, um coletivo de padres e associações de pastores evangélicos.

AS MANIFESTAÇÕES DOS CHEFES

Abaixo, destacamos algumas das manifestações de apoio dos chefes dos Poderes ao pacto proposto por Casagrande.

Luciana Andrade (MPES)

“Ocorre que a situação é gravíssima, e decisão como essa não é fácil para nenhum de nós. (…) Não é um querer. Há uma necessidade que adotemos medidas mais restritivas. Essas medidas não são achismo, mas a certeza técnica e científica de que de fato podemos diminuir a disseminação da doença e, por consequência, a utilização de leitos e de recursos humanos da saúde.”

“O Ministério Público (...) faz um apelo a toda a população para que tenhamos empatia e união neste momento. Nós, capixabas, damos sempre exemplo de solidariedade.”

Rodrigo Chamoun (TCES)

“O que estamos fazendo aqui é certo, então nós vamos cumprir o nosso dever.”

“As políticas de meias medidas adotadas pelo Brasil tornaram o país uma ameaça global no enfrentamento à pandemia.”

“A rebeldia nos trouxe aqui. A rebeldia e a sabotagem contra as medidas de proteção individual. (…) O comportamento sabotador de parte da população, talvez aí impulsionada por exemplos de poucas autoridades.”

“Não há alternativa à quarentena nos próximos dias.”

Erick Musso (Assembleia Legislativa)

“[São] decisões duras, difíceis, mas pensando no coletivo do Espírito Santo.”

“[É uma] medida amarga, mas necessária para o atual momento, para que não colapsemos um sistema que já está indo a um nível saturado.”

Gilmar Batista (Defensoria Pública)

“Gerir é tomar decisões. E às vezes são decisões que a gente não gostaria de tomar, mas que precisam ser tomadas. Essas são medidas de responsabilidade.”

Ronaldo Gonçalves (TJES)

“Com certeza precisamos dar um ‘para’ na situação que passa o nosso Estado e (por que não dizer?) o Brasil neste momento tão difícil.”

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