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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Casagrande: "Temos que ter respeito à diversidade"

Mais uma vez, governador faz contraponto em público a uma posição do presidente Bolsonaro. Governador já condenou política armamentista, fez ressalvas à reforma da Previdência e apelou para o MEC rever bloqueio de verbas para universidades

Publicado em 16/05/2019 às 22h08
Atualizado em 06/10/2019 às 03h46

O “respeito à diversidade” foi defendido publicamente pelo governador Renato Casagrande (PSB) na tarde da última quarta-feira (15).

A manifestação do governador foi feita no Palácio Anchieta, no desfecho do seu pronunciamento durante a solenidade de lançamento do Qualificar ES, programa do governo estadual voltado para a educação profissional, especialmente de capixabas de baixa renda.

Além da oferta de cursos para o público geral, o programa tem ações voltadas especificamente para alguns segmentos, como cursos de qualificação para adolescentes internados em unidades socioeducativas, em parceria com o Iases e com a Secretaria de Estado de Direitos Humanos, visando à inserção dos socioeducandos no mercado de trabalho. Também há ramificações do programa com cursos voltados especificamente às mulheres (Qualificar ES Mulher) e aos povos indígenas (Qualificar ES Indígena).

A solenidade, inclusive, teve na plateia dois representantes da tribo Tupi-Guarani de Caieiras Velha, em Aracruz. E foi justamente ao saudar os dois indígenas que Casagrande fez a manifestação, no desfecho de seu discurso:

“Quero agradecer aos indígenas que chegaram aqui. Muito obrigado pela presença de vocês. O trabalho nosso com as aldeias é o respeito que a gente tem que ter à diversidade. Nós temos que ter respeito à diversidade. Nós não precisamos seguir ninguém. Mas precisamos respeitar a todos. Esse é o comportamento que deve ser exigido de cada um de nós: respeito, harmonia e amor na relação entre os seres humanos.”

Indígena da aldeia de Caieiras Velha, etnia Tupi-Guarani, durante cerimônia no Salão São Tiago, do Palácio Anchieta. Crédito: Vitor Vogas
Indígena da aldeia de Caieiras Velha, etnia Tupi-Guarani, durante cerimônia no Salão São Tiago, do Palácio Anchieta. Crédito: Vitor Vogas

A declaração de Casagrande pode ser considerada mais um contraponto do governador em relação às ideias do presidente Jair Bolsonaro (PSL). Diferentemente de Casagrande, o presidente não é propriamente um defensor da ideia de “diversidade”.

Durante a última campanha presidencial, Bolsonaro defendeu o fim do “coitadismo” no Brasil – referência a causas de minorias identitárias que se sentem discriminadas. Especificamente sobre indígenas, declarou, já eleito, em entrevista à TV Bandeirantes no dia 5 de novembro, que, no que depender dele, “não tem mais demarcação de terra indígena no Brasil”.

No discurso de posse, no dia 1º de janeiro, Bolsonaro anunciou que "libertaria" o povo brasileiro do “politicamente correto”.

BANCO DO BRASIL

No último dia 14 de abril, o presidente ordenou que o Banco do Brasil retirasse do ar um comercial que já estava sendo veiculado havia cerca de duas semanas, inspirado na ideia de diversidade social, racial e sexual. Voltada ao público jovem, a campanha visava a convencer novos clientes a abrirem contas por meio do aplicativo do banco.

Com cerca de 30 segundos, o vídeo exibia jovens negros, tatuados, com cabelo pintado, homossexuais e uma transexual. Para os padrões bolsonaristas, a peça tinha “diversidade demais”. “Não é minha linha”, justificou Bolsonaro a jornalistas, no dia 27 de abril. O diretor de Comunicação e Marketing do Banco do Brasil, Delano Valentim de Andrade, foi demitido do cargo.

EDUCAÇÃO BÁSICA

No dia 2 de janeiro, ainda sob a gestão de Vélez Rodríguez, o Ministério da Educação baixou uma portaria estabelecendo algumas mudanças em livros didáticos para os anos finais do ensino fundamental (do 6º ao 9º ano), com alunos de 10 a 15 anos. Muitas delas, na prática, excluíam das obras o conceito de “diversidade”.

Um trecho da portaria suprimia a necessidade de que as obras tratassem de saúde, sexualidade, vida familiar e social, educação para o consumo, educação financeira e fiscal, trabalho, ciência e tecnologia e diversidade cultural.

Outro trecho retirava a exigência de que as ilustrações das obras deveriam “retratar adequadamente a diversidade étnica da população brasileira, a pluralidade social e cultural do país”.

A portaria também liberava obras que desconsiderassem “o debate acerca dos compromissos contemporâneos de superação de toda forma de violência, com especial atenção para o compromisso educacional com a agenda da não violência contra a mulher”.

HISTÓRICO DE CONTRAPONTOS

Esta não é a primeira vez em que o governador do Espírito Santo expressa uma visão não alinhada com posicionamentos do presidente e do governo Bolsonaro.

Casagrande já se posicionou contra as políticas de armamento civil e de encarceramento em massa de Bolsonaro. O governador já fez críticas públicas a pontos da reforma da Previdência, ao enfraquecimento de “mecanismos de proteção social” e à falta de “capacidade de agregar” do presidente.

O governo do Estado fez post institucional contra o turismo sexual após o presidente dar declaração interpretada como incentivo a tal prática – “Quem quiser vir fazer sexo com uma mulher [no Brasil], fique à vontade”.

Na última quarta-feira (15), no mesmo discurso em que exaltou a diversidade, Casagrande fez um apelo para que o governo Bolsonaro reveja a decisão de contingenciar recursos para custeio e pesquisas científicas em institutos e universidades federais do país.

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