O governador Renato Casagrande é um brasileiro cordial. Pelo menos como homem público, é realmente um homem muito educado, afável e ponderado. Por seu estilo de fazer política, marcadamente pragmático e conciliador, não é um líder dado a rompantes e enfrentamentos. Não gosta de brigar, muito menos “para baixo” (com alguém abaixo dele na hierarquia política) e menos ainda de maneira pública.
Esse perfil do governador ajuda-nos um pouco a compreender por que Casagrande, definitivamente, não entrará na campanha de João Coser, no 2º turno em Vitória, contra Lorenzo Pazolini – aliás, não participará diretamente do processo eleitoral, conforme declarou em entrevista à Rádio CBN Vitória na manhã desta sexta-feira (20).
O governador tomou a decisão de se manter silente, mesmo que as torcidas inteiras da Desportiva, do Rio Branco, do Vitória e do Comercial de Castelo saibam que ele prefere o sucesso do petista; mesmo que o deputado do Republicanos tenha sido, em seu biênio na Assembleia, a maior pedra no sapato de Casagrande em um ruidoso bloco de oposição e mesmo que o governo Casagrande, no episódio da “visita técnica” ao hospital Dório Silva em junho, tenha chegado a pedir ao MPES a instauração de inquérito para apurar possíveis crimes praticados por Pazolini e outros deputados no que o Palácio Anchieta trata oficialmente como “invasão”.
Não, Casagrande não gosta de brigar, não quer brigar e não vai brigar. Nos bastidores, sem precisar aparecer, é claro que vai ajudar Coser, aliás já está fazendo isso, mobilizando secretários de Estado para se somarem à campanha do petista, a exemplo de Fábio Damasceno (PSB), chefe da pasta de Mobilidade e Infraestrutura.
É evidente, também, que a decisão da direção estadual do PSB de apoiar Coser, antecipada aqui nesta quinta-feira (19), passou por ele e foi chancelada por ele. Numerosa no Estado e na Capital, a militância do PSB vai em peso para a campanha de Coser, enquanto Casagrande continuará guardando o seu “distanciamento institucional” de reta final da campanha.
Melhor que ninguém, Casagrande sabe o quanto Pazolini é um adversário duro, inteligente, tenaz e disciplinado. Afinal, foi com esse adversário que ele teve que lidar nos últimos dois anos, recebendo a oposição de Pazolini na Assembleia Legislativa (diga-se de passagem, a mais qualificada dentre os poucos parlamentares que praticam oposição ao atual governo). Bem sabe, também, o governador, que Coser também pode ser um candidato muito duro, mas Pazolini entrou no 2º turno com certo favoritismo, até pela melhor votação obtida na primeira fase do processo eleitoral.
Até a véspera do 1º turno, na cúpula do PSB e do Palácio Anchieta, as opiniões se dividiam quanto ao possível ingresso de Casagrande no 2º turno em Vitória para ajudar a derrotar Pazolini, num cenário em que o deputado avançasse de fase contra Coser ou contra Gandini (Cidadania).
Uma fonte da cúpula partidária (priorizando o ponto de vista do PSB) defendia que sim: até por uma questão de coerência política e partidária, Casagrande deveria ingressar pessoalmente na campanha contra o deputado de direita que quase sempre vota contra o seu governo (no que importa de verdade para o Palácio) no plenário da Assembleia.
Já uma fonte mais do núcleo político (priorizando a ótica de governo) defendia que não: Casagrande não deveria entrar pessoalmente, até para preservar a sua imagem, em caso de vitória de Pazolini. Se ele entrasse pessoalmente na campanha contra Pazolini e o deputado vencesse a eleição, essa derrota fatalmente também seria debitada da conta do governador. Seria de certa forma humilhante, para o homem mais poderoso do Espírito Santo, perder pessoalmente em Vitória para um contumaz opositor, em uma disputa que, a priori, nem é dele ou de seu partido.
Além disso, se Pazolini vencer a eleição, Casagrande terá que conviver com ele institucionalmente – a menos que o governador e o prefeito da capital do Estado prefiram se ignorar completamente, como fizeram Paulo Hartung e Luciano Rezende e 2015 a 2018, o que não é bom para ninguém.
Se Casagrande entra numa campanha que venha a ser vencida por Pazolini, este assume o mandato na prefeitura com a memória muito fresca de que o governador trabalhou para derrotá-lo e impedir que ele chegasse àquela cadeira. Climão total. Esse constrangimento poderia dificultar ainda mais um princípio, que já tende a ser difícil, de relação institucional que terá que ser construída de algum modo entre os dois.
Enfim, no cálculo político de Casagrande contaram a preservação da sua imagem política, a governabilidade e a cordialidade desse castelense cordial, como diria Gilberto Freyre, autor de “Casa-Grande & Senzala”.
“OPOSIÇÃO RESPEITOSA”
Segundo fonte do Palácio Anchieta, Casagrande considera Pazolini um político de oposição a seu governo, sem dúvida alguma, mas entende que ele pratica uma “oposição respeitosa”, muito diferentemente, por exemplo, do também deputado estadual Capitão Assumção (Patriota), profícuo nos disparos de impropérios contra o próprio governador e membros do primeiro escalão do governo.
A ELEIÇÃO NA ASSEMBLEIA ESTÁ CHEGANDO…
Se Pazolini ganhar a eleição em Vitória, traz a reboque Erick Musso, Roberto Carneiro, enfim, o grupo que dá as cartas hoje na Assembleia Legislativa e tem no Republicanos o veículo para seu projeto de ascensão política no Estado. Fica em situação bem mais cômoda para poder sonhar mais alto já na eleição estadual de 2022.
PARA CASAGRANDE, O JOGO MUDA
Nesse cenário, trabalhar para derrotar Erick Musso pode tornar-se essencial, para Casagrande, impedindo a sua permanência no cargo de presidente da Assembleia no próximo biênio. A próxima eleição da Mesa Diretora está logo ali, em fevereiro de 2021. Tão logo comece a abaixar a poeira do 2º turno, as articulações para esse outro processo devem se intensificar.
DISSE, MAS “DESDISSE”
No domingo passado (15), durante a votação – portanto ainda longe de sabermos o resultado da apuração –, Casagrande chegou a declarar que poderia mostrar apoio a algum aliado no 2º turno.
Provavelmente estava preparando o terreno para o caso de alguma situação mais extrema, que realmente exigisse a sua entrada em pessoa, como teria sido, por exemplo, um duelo de 2º turno em Cariacica entre Euclério Sampaio (DEM), um grande aliado seu, e o Subtenente Assis (PTB), que pratica oposição à moda Assumção contra o seu governo e que por pouco não passou de fase no lugar de Célia Tavaraes (PT).