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Eleição em Vitória

Casa-Grande & Sem-Fala... de apoio a Coser contra Pazolini

No cálculo político do governador, pesaram a preservação da sua imagem, a governabilidade e o estilo de fazer política desse castelense cordial, como diria Gilberto Freyre

Publicado em 20 de Novembro de 2020 às 17:15

Públicado em 

20 nov 2020 às 17:15
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Governador do Espírito Santo, Renato Casagrande (PSB) votou em Bento Ferreira, em Vitória
Governador do Espírito Santo, Renato Casagrande (PSB) votou em Bento Ferreira, em Vitória, no último domingo Crédito: Ricardo Medeiros
O governador Renato Casagrande é um brasileiro cordial. Pelo menos como homem público, é realmente um homem muito educado, afável e ponderado. Por seu estilo de fazer política, marcadamente pragmático e conciliador, não é um líder dado a rompantes e enfrentamentos. Não gosta de brigar, muito menos “para baixo” (com alguém abaixo dele na hierarquia política) e menos ainda de maneira pública.
Esse perfil do governador ajuda-nos um pouco a compreender por que Casagrande, definitivamente, não entrará na campanha de João Coser, no 2º turno em Vitória, contra Lorenzo Pazolini – aliás, não participará diretamente do processo eleitoral, conforme declarou em entrevista à Rádio CBN Vitória na manhã desta sexta-feira (20).
O governador tomou a decisão de se manter silente, mesmo que as torcidas inteiras da Desportiva, do Rio Branco, do Vitória e do Comercial de Castelo saibam que ele prefere o sucesso do petista; mesmo que o deputado do Republicanos tenha sido, em seu biênio na Assembleia, a maior pedra no sapato de Casagrande em um ruidoso bloco de oposição e mesmo que o governo Casagrande, no episódio da “visita técnica” ao hospital Dório Silva em junho, tenha chegado a pedir ao MPES a instauração de inquérito para apurar possíveis crimes praticados por Pazolini e outros deputados no que o Palácio Anchieta trata oficialmente como “invasão”.
Não, Casagrande não gosta de brigar, não quer brigar e não vai brigar. Nos bastidores, sem precisar aparecer, é claro que vai ajudar Coser, aliás já está fazendo isso, mobilizando secretários de Estado para se somarem à campanha do petista, a exemplo de Fábio Damasceno (PSB), chefe da pasta de Mobilidade e Infraestrutura.
É evidente, também, que a decisão da direção estadual do PSB de apoiar Coserantecipada aqui nesta quinta-feira (19), passou por ele e foi chancelada por ele. Numerosa no Estado e na Capital, a militância do PSB vai em peso para a campanha de Coser, enquanto Casagrande continuará guardando o seu “distanciamento institucional” de reta final da campanha.
Melhor que ninguém, Casagrande sabe o quanto Pazolini é um adversário duro, inteligente, tenaz e disciplinado. Afinal, foi com esse adversário que ele teve que lidar nos últimos dois anos, recebendo a oposição de Pazolini na Assembleia Legislativa (diga-se de passagem, a mais qualificada dentre os poucos parlamentares que praticam oposição ao atual governo). Bem sabe, também, o governador, que Coser também pode ser um candidato muito duro, mas Pazolini entrou no 2º turno com certo favoritismo, até pela melhor votação obtida na primeira fase do processo eleitoral.
Até a véspera do 1º turno, na cúpula do PSB e do Palácio Anchieta, as opiniões se dividiam quanto ao possível ingresso de Casagrande no 2º turno em Vitória para ajudar a derrotar Pazolini, num cenário em que o deputado avançasse de fase contra Coser ou contra Gandini (Cidadania).
Uma fonte da cúpula partidária (priorizando o ponto de vista do PSB) defendia que sim: até por uma questão de coerência política e partidária, Casagrande deveria ingressar pessoalmente na campanha contra o deputado de direita que quase sempre vota contra o seu governo (no que importa de verdade para o Palácio) no plenário da Assembleia.
Já uma fonte mais do núcleo político (priorizando a ótica de governo) defendia que não: Casagrande não deveria entrar pessoalmente, até para preservar a sua imagem, em caso de vitória de Pazolini. Se ele entrasse pessoalmente na campanha contra Pazolini e o deputado vencesse a eleição, essa derrota fatalmente também seria debitada da conta do governador. Seria de certa forma humilhante, para o homem mais poderoso do Espírito Santo, perder pessoalmente em Vitória para um contumaz opositor, em uma disputa que, a priori, nem é dele ou de seu partido.
Além disso, se Pazolini vencer a eleição, Casagrande terá que conviver com ele institucionalmente – a menos que o governador e o prefeito da capital do Estado prefiram se ignorar completamente, como fizeram Paulo Hartung e Luciano Rezende e 2015 a 2018, o que não é bom para ninguém.
Se Casagrande entra numa campanha que venha a ser vencida por Pazolini, este assume o mandato na prefeitura com a memória muito fresca de que o governador trabalhou para derrotá-lo e impedir que ele chegasse àquela cadeira. Climão total. Esse constrangimento poderia dificultar ainda mais um princípio, que já tende a ser difícil, de relação institucional que terá que ser construída de algum modo entre os dois.
Enfim, no cálculo político de Casagrande contaram a preservação da sua imagem política, a governabilidade e a cordialidade desse castelense cordial, como diria Gilberto Freyre, autor de “Casa-Grande & Senzala”.

“OPOSIÇÃO RESPEITOSA”

Segundo fonte do Palácio Anchieta, Casagrande considera Pazolini um político de oposição a seu governo, sem dúvida alguma, mas entende que ele pratica uma “oposição respeitosa”, muito diferentemente, por exemplo, do também deputado estadual Capitão Assumção (Patriota), profícuo nos disparos de impropérios contra o próprio governador e membros do primeiro escalão do governo.

A ELEIÇÃO NA ASSEMBLEIA ESTÁ CHEGANDO…

Se Pazolini ganhar a eleição em Vitória, traz a reboque Erick Musso, Roberto Carneiro, enfim, o grupo que dá as cartas hoje na Assembleia Legislativa e tem no Republicanos o veículo para seu projeto de ascensão política no Estado. Fica em situação bem mais cômoda para poder sonhar mais alto já na eleição estadual de 2022.

PARA CASAGRANDE, O JOGO MUDA

Nesse cenário, trabalhar para derrotar Erick Musso pode tornar-se essencial, para Casagrande, impedindo a sua permanência no cargo de presidente da Assembleia no próximo biênio. A próxima eleição da Mesa Diretora está logo ali, em fevereiro de 2021. Tão logo comece a abaixar a poeira do 2º turno, as articulações para esse outro processo devem se intensificar.

DISSE, MAS “DESDISSE”

No domingo passado (15), durante a votação – portanto ainda longe de sabermos o resultado da apuração –, Casagrande chegou a declarar que poderia mostrar apoio a algum aliado no 2º turno.
Provavelmente estava preparando o terreno para o caso de alguma situação mais extrema, que realmente exigisse a sua entrada em pessoa, como teria sido, por exemplo, um duelo de 2º turno em Cariacica entre Euclério Sampaio (DEM), um grande aliado seu, e o Subtenente Assis (PTB), que pratica oposição à moda Assumção contra o seu governo e que por pouco não passou de fase no lugar de Célia Tavaraes (PT).

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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