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No “Papo de Colunista”

Camila Valadão: “O PSOL precisa amadurecer politicamente”

Vereadora reconhece que o partido precisa crescer e exercer mais mandatos no Estado. Também diz que decisão não está tomada, mas sinaliza candidatura a deputada estadual em 2022

Públicado em 

14 mar 2021 às 02:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Camila Valadão
Camila Valadão Crédito: Amarildo
Entrevistada no podcast “Papo de Colunista” na última quarta-feira (10), a vereadora de Vitória Camila Valadão (PSOL) fez algo raríssimo para qualquer político, qualquer que seja a posição ocupada: autocrítica. Segundo a assistente social, que iniciou em janeiro o seu primeiro mandato eletivo após ter batido na trave duas vezes, “o PSOL precisa amadurecer politicamente”.
Isso significa formar mais novos líderes além dela no Espírito Santo, lançar mais candidatos competitivos em eleições futuras, alcançar mais mandatos políticos e, consequentemente, crescer no Espírito Santo para poder defender, vocalizar e disputar as ideias do partido na arena pública. Camila entende, inclusive, que seu mandato na Câmara de Vitória tem uma grande responsabilidade nesse sentido e será fundamental para ajudar o partido a se expandir no Estado.
A reflexão foi feita pela vereadora ao responder a uma pergunta nossa sobre a “Camila-dependência” que acomete o PSOL no Espírito Santo, na avaliação do autor desta coluna. Em solo capixaba, o partido de esquerda ainda tem inserção muito pequena, quase restrita ao movimento estudantil e a outros movimentos sociais. Mas o que faz uma agremiação política crescer de verdade é o exercício de mandatos.
Por aqui, o PSOL tem uma referência muito conhecida, que é a própria Camila. Mas, em 17 anos de existência, o partido não conseguiu produzir nenhuma outra nova liderança no Espírito Santo. Aliás, no ano passado, Camila tornou-se o primeiro e até agora único nome da história do PSOL a se eleger para qualquer cargo no Espírito Santo, enquanto em outros Estados o partido já é muito mais forte e tem um histórico de candidatos eleitos até para o Congresso Nacional.
Mesmo em 2020, apesar da ótima votação individual de Camila a vereadora – a segunda mais votada para o cargo em Vitória e em todo o Estado –, ela por muito pouco não ficou de fora mais uma vez, pois o PSOL, mesmo podendo formar chapa completa com 23 postulantes em Vitória, só conseguiu lançar seis candidatos a vereador na Capital e quase não garantiu uma das 15 vagas em disputa, no cálculo do quociente eleitoral, ultrapassado por um tris pela chapa.
“Entendo perfeitamente as questões que você coloca e acho que o PSOL precisa, sim, amadurecer politicamente, mantendo os seus princípios, mantendo a sua coerência de não ficar fazendo alianças. Mas a gente precisa avançar”, reconhece a vereadora, que também admite a “debilidade organizativa” do PSOL e a necessidade de a legenda dar um “salto político”:
“A gente precisa ter chapas completas, por exemplo. A gente precisa ter mais pessoas que queiram ser candidatas pelo PSOL, que encontrem nesse partido uma viabilidade política e programática. E esse é o nosso desafio no Espírito Santo. Eu estou otimista que conseguiremos. E a ideia é que o nosso mandato seja uma ponte para esse salto político e organizativo. O nosso mandato nos traz, inclusive, essa responsabilidade.”
Quanto ao “salto pessoal” da própria vereadora, ela não responde diretamente se, no ano que vem, será candidata a deputada estadual (um passo seguinte “natural” e muito mais tangível) ou se repetirá a candidatura kamikaze de 2014 ao governo estadual. Camila dá, no entanto, muitas pistas de que seguirá o primeiro caminho. Diz que é muito importante para o PSOL exercer um mandato na Assembleia Legislativa e que seu lugar na Câmara de Vitória estará em boas mãos com seu suplente, o advogado André Moreira, da mesma sigla.
Já quando o assunto é a próxima eleição presidencial, a parlamentar afirma que o objetivo central do PSOL é derrotar Jair Bolsonaro. E, mesmo com a reentrada impactante do ex-presidente Lula (PT) na corrida eleitoral, opina que o PSOL deve lançar candidato próprio à Presidência em 2022, pois no momento não consegue enxergar a formação de uma frente real de partidos de centro-esquerda.
Confira abaixo as declarações mais importantes de Camila Valadão em nossa entrevista, feita por mim e pelos colegas Leonel Ximenes, Rafael Braz e Beatriz Seixas.

Por que essa dificuldade especial que o PSOL encontra para crescer no Espírito Santo? Por que vocês não estão conseguindo formar novos líderes além da senhora e lançar mais candidatos competitivos?

O PSOL no Espírito Santo tem uma debilidade organizativa grande. Tem a ver com o nosso tamanho. É um partido pequeno. E, aliás, a gente espera agora crescer no Espírito Santo. A gente espera, inclusive, ter o meu mandato como uma referência e uma oportunidade para ampliar esse partido em várias outras cidades. Acho que a primeira coisa a dizer é isso. É um partido pequeno, portanto sempre encontrou muitas debilidades financeiras, organizativas. Vale dizer que, para tocar um partido no Brasil, a gente tem uma série de requisitos, inclusive financeiros, legais, burocráticos mesmo. E o PSOL sempre teve muitas debilidades e isso sempre dificultou muito a nossa organização. Então a gente espera que, com essa vitória, isso possa alavancar a construção partidária, no sentido de ampliar. E, ampliando-se, o partido recebe mais recursos da direção nacional, consegue construir melhor o seu funcionamento de diretórios, ter sede e ter uma estrutura. Isso é uma coisa. A outra coisa me parece que tem muito a ver como a forma como o PSOL faz política mesmo. A gente sempre negou essa lógica de coligações muito pragmática estabelecida na política eleitoral brasileira. E no Espírito Santo é muito difícil. A gente sempre fez este debate: “Mas vamos fazer coligação com qual partido? O partido tal está vinculado ao grupo tal, que está ligado aos interesse tal...” Então a gente sempre negou também essa forma de fazer política muito pragmática, que vamos fazer coligação porque vamos ter tempo de televisão ou porque vamos receber tanto de recursos. A gente sempre criticou isso. O que aconteceu? A legislação eleitoral foi alterada. Essa alteração acabou com as coligações nas chapas proporcionais, então é nesse contexto que somos eleitos. Já tinham antes acabado com o financiamento empresarial de campanha. Isso era outra coisa: na época em que havia essa forma de financiamento, nós não aceitávamos dinheiro de empresários. Nós dizíamos: “Quem paga a banda, escolhe a música”. E isso sempre dificultou muito a construção das nossas campanhas também. Esse é outro aspecto importante. Então tivemos uma mudança na legislação que, na nossa avaliação, nós que somos um partido pequeno e ideológico, isso contribui para que o partido seja mais viável do ponto de vista eleitoral. Estou aqui justificando e entendo perfeitamente as questões que você coloca e acho que o PSOL precisa, sim, amadurecer politicamente, mantendo os seus princípios, mantendo a sua coerência de não ficar fazendo alianças. Mas a gente precisa avançar. A gente precisa ter chapas completas, por exemplo. A gente precisa ter mais pessoas que queiram ser candidatas pelo PSOL, que encontrem nesse partido uma viabilidade política e programática. E esse é o nosso desafio no Espírito Santo. Eu estou otimista que conseguiremos. E a ideia é que o nosso mandato seja uma ponte para esse salto político e organizativo. O nosso mandato nos traz, inclusive, essa responsabilidade. Temos sido muito cobrados no sentido de ampliar o partido, de ter um partido que dispute, por exemplo, eleição, para ter uma candidatura viável. Nós queremos e estamos empenhados para dar esse salto.

Em 2022, a senhora será candidata a deputada estadual, como em 2018, ou a governadora, como em 2014?

Essa decisão ainda não está tomada. Eu sou uma militante partidária muito disciplinada. Respeito muito a discussão partidária. Eu inclusive tenho defendido que a gente antecipe esse debate. Eu não sei candidata a quê eu sou e nem se eu sou candidata. Inclusive, fala-se muito no meio político que eu “já estou eleita”. Hoje mesmo escutei isso na Câmara: “Você já está eleita a deputada estadual”. Bom, nós sabemos que eleger deputado estadual não é fácil. São muitos votos. Para um partido pequeno como o nosso, é um desafio enorme. Não que não vamos encarar. Se acharmos que temos condições, que devemos, vamos encarar essa tarefa. Nós falamos muito isso em 2020: nós sentimos que é necessário ter um mandato do PSOL para a Câmara de Vitória. Nós achamos que é fundamental ter um mandato de oposição, de uma esquerda coerente, de uma esquerda combativa, que prega também uma forma diferente de fazer política. Nós estávamos convencidos da importância de um mandato do PSOL para a Câmara de Vitória. Do mesmo jeito, estou convencida que é fundamental termos um mandato do PSOL na Assembleia Legislativa do Espírito Santo. Mas nós sabemos que esse é um passo grande, ousado e que queremos dar, obviamente, mas fazendo todo o debate com os nossos eleitores, com os nossos apoiadores. Já me falaram: “Camila, não saia da Câmara de Vitória. Nós precisamos de você na Câmara”. Então também pretendo dar esse salto dialogando com os nossos eleitores e apoiadores, com toda a tranquilidade de que meu partido estará muito bem representado na Câmara Municipal de Vitória com meu suplente, André Moreira. Aliás, o suplente não é minha preocupação.

Com o retorno de Lula à cena, na disputa pela Presidência em 2022, a senhora acha que o PSOL deve se coligar com o PT e apoiar o ex-presidente numa frente ampla de esquerda? Ou pensa que o PSOL deve lançar candidato próprio, possivelmente o Guilherme Boulos, no 1º turno, e deixar uma aliança para o 2º turno?

Esse debate é polêmico, e as polêmicas já estão colocadas no PSOL acerca desse tema. A conjuntura atual não é a conjuntura de 2016 ou de décadas anteriores. De fato, o momento atual é bem complexo, o que nos coloca a tarefa de pensar uma tática eleitoral para derrotar Bolsonaro em 2022. A minha defesa é que a tática do PSOL deve ter como horizonte a derrota de Bolsonaro. Qual será o candidato? Hoje eu defendo que o PSOL tenha candidato próprio. Podemos avançar no Brasil no sentido de ter uma ampla frente, que reúna vários partidos, com o fim de derrotar Bolsonaro? Podemos. Mais do que debater só nomes, temos que debater qual é o horizonte político dessas alianças. O que estamos falando quando se faz uma aliança como essa? A minha defesa hoje é que o PSOL tenha candidatura própria, porque estou entendendo que não está colocado no horizonte, pelo menos não por agora, uma frente ampla que vai envolver mutos partidos.… Não, isso não está no horizonte. Agora, vamos fazer esse debate partidariamente. Acho que, antes de definir nomes, precisamos amadurecer no partido as tarefas que temos para este ano de 2021. Acho que temos muita luta política para fazer. Eu não acho que Bolsonaro será derrotado apenas por acordos de partidos por cima não. O que derrota Bolsonaro é a mobilização, é o desgaste, ainda que neste contexto pandêmico, em que sabemos que é difícil estar nas ruas e mobilizar, pois temos aí um limite concreto, que é um vírus e uma pandemia. Mas, mesmo neste contexto, acho que temos muita luta para derrotar Bolsonaro em 2022. Para nós, o central é derrotá-lo.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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