Ao fim de um evento político na última sexta-feira, os deputados estaduais Bruno Lamas (PSB) e Fabrício Gandini (PPS) se esbarraram. Após os cumprimentos de praxe, o seguinte diálogo se desenrolou na nossa frente:
– Quero o apoio do PPS, hein! – disse Lamas a Gandini.
– E eu, o do PSB – retrucou Gandini a Lamas.
Que o ex-vereador de Vitória é pré-candidato a prefeito da Capital em 2020, não é segredo para ninguém (e em breve tornaremos a Gandini). Mas hoje nos deteremos sobre o outro personagem do diálogo. A rápida troca de palavras nos fornece mais uma forte evidência daquilo que muito se comenta no meio político capixaba: Lamas é pré-candidatíssimo a prefeito da Serra no ano que vem.
O filho da vice-prefeita Márcia Lamas (PSB) é a grande aposta do PSB para a sucessão de Audifax Barcelos (Rede). E, quando dizemos PSB, leia-se Renato Casagrande. Lamas trabalha com empenho, desde já, para viabilizar a candidatura. Para isso, conta com a mão de outra “mãe”: a do próprio governador, maior interessado em emplacar um correligionário no comando da cidade mais populosa do Espírito Santo – detalhe mais que estratégico para ele mesmo, pensando na eleição estadual de 2022.
Para dar impulso ao Plano Lamas, Casagrande nomeou o deputado, licenciado do mandato desde fevereiro, para chefiar a Secretaria de Estado de Trabalho, Assistência e Desenvolvimento Social (Setades). É óbvio que um bom trabalho à frente da pasta pode ajudar bastante Lamas a se projetar politicamente.
Ele mesmo, porém, evita associar as duas coisas. “A minha ida para a Setades, além de um convite do governador que muito me honrou, é um aprendizado importante em uma pasta extremamente sensível. Minha passagem por lá certamente agregará para o meu currículo e a minha história. A Setades não presta um serviço na ponta. O público-alvo, com quem a Setades se relaciona, são as prefeituras e as entidades. Isso mostra que o meu trabalho lá é bem técnico, de aprendizado e de combate à pobreza. Se eu estivesse preocupado com a questão política, teria procurado uma secretaria que tem uma ação na ponta mesmo.” (Ressalve-se, claro, que não foi Lamas quem escolheu a posição em que jogaria no governo, e sim o próprio Casagrande).
Politicamente correto, Lamas pode até evitar falar da Setades como um “meio” para chegar a seu fim, mas é bem mais direto quanto ao “fim” propriamente dito: “O PSB na Serra é um partido muito forte e consolidado. É o maior diretório do PSB no Estado. E ele terá uma candidatura competitiva a prefeito em 2020 e uma boa aliança, em especial com os partidos que compõem a base do governo Casagrande. São partidos com quem a gente conversa constantemente e que a gente busca para esse projeto.” Onde ele diz “uma candidatura”, leia-se “a minha”. Onde diz “a gente”, entenda-se “eu”.
Até lá, é preciso mostrar serviço. Ciente disso, Lamas faz planos para a Setades. “O social é a prioridade do governo Casagrande”, resume. Entre outras propostas, ele quer retomar “com alguns ajustes e força total” o programa Incluir, criado em 2011, no governo passado de Casagrande, e, segundo Lamas, abandonado no governo Paulo Hartung. Trata-se de um programa de combate à extrema pobreza. Por meio dele, o Estado dá uma ajuda financeira mensal aos municípios para que as secretarias municipais de Assistência consigam contratar profissionais da área que visitem e, literalmente, assistam as famílias mais pobres. “Queremos muito mais com o programa”, diz Lamas.
Segundo o secretário, no Estado Presente, a Setades também terá um “braço forte”, com seus programas sociais, a fim de colaborar com a redução da vulnerabilidade social nas comunidades identificadas como as mais violentas do Estado. Esse “braço social” engloba iniciativas de capacitação profissional, o próprio Incluir e o Criança Feliz – programa de apoio às gestantes. A Setades ainda elaborará, por encomenda do governador, uma política estadual para a primeira infância – com participação, segundo Lamas, da primeira-dama, dona Virgínia.
Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.