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Violência

Brasil: "Não tenho cerimônia em quebrar cara de mulher, não"

Toda vez que morre uma mulher vítima de violência de gênero, morremos um pouco todos nós como projeto de nação

Publicado em 10 de Março de 2019 às 01:13

Públicado em 

10 mar 2019 às 01:13
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas
Charge Amarildo Crédito: Amarildo
“Não tenho cerimônia em quebrar cara de mulher, não!” Essa foi a ameaça, em tom exaltado, feita por um policial militar a uma mulher de 36 anos, dentro de um batalhão da PM na zona oeste de São Paulo. Ela havia ido cobrar explicações e providências sobre a ação truculenta dos policiais que, pouco antes, na noite de terça-feira (5), usaram bombas e balas de borracha contra ela e outros foliões, alegadamente para dispersar um bloco de rua no bairro Barra Funda. As vítimas, porém, estavam na calçada e alegam que o bloco já se dispersara. Naquele momento, havia pouquíssima gente na rua.
Mais até do que a truculência da ação policial em si, o que chama a atenção é a covardia e a violência psicológica contida na ameaça feita pelo policial (afastado). Assim como ele, muitos homens não têm a menor cerimônia em, literalmente, quebrar a cara de mulheres Brasil afora, enquanto vítimas de feminicídio são sepultadas em cerimônias de outro tipo. É o que se conclui do noticiário, infelizmente intensificado durante o período de carnaval, dando conta de um crescimento aterrador no registro de casos de torturas, espancamentos, assassinatos, enfim, agressões de toda ordem praticadas por homens contra mulheres – especificamente, contra as próprias companheiras, na grande maioria das ocorrências.
O país deveria estar de luto em uma cerimônia fúnebre coletiva. Toda vez que morre uma mulher vítima de violência de gênero, morremos um pouco todos nós como projeto de nação.
Segundo reportagem da CBN Vitória exibida na última quinta-feira (7), 169 casos de violência contra a mulher foram registrados durante o carnaval no Espírito Santo. Os dados foram divulgados pela Secretaria de Estado da Segurança Pública, considerando os registros policiais feitos entre as 18h de sexta-feira (1º) e as 6h da Quarta-Feira de Cinzas (6).
Do total de ocorrências, 84 foram de lesão corporal, 60 de ameaça, dez de estupro, nove de descumprimento de medida protetiva e quatro de importunação sexual. No mesmo período, 94 pedidos de medidas protetivas foram feitos à Justiça, em situações de mulheres vivendo sob ameaça de violência doméstica. Também foram presos em flagrante 70 homens acusados de violência contra a mulher e de crimes contra a dignidade sexual da mulher. Houve, ainda, dois registros de tentativa de feminicídio.
E assim os casos se multiplicam, sempre protagonizados por homens “muito machos” que agridem física e verbalmente as companheiras ou ex-companheiras, ameaçam-nas de morte ou chegam mesmo a cumprir as ameaças.
O que, de modo geral, esses casos têm em comum? O ciúme doentio; o sentimento de posse do homem sobre a mulher, como se essa fosse um objeto que lhe pertencesse; o inconformismo com o fim de relacionamentos abusivos, como se coubesse apenas ao homem determinar até quando o casal segue junto.
É preciso expor essa verdade, para de verdade as libertar
Para se combater esse problema, são necessários alguns passos. O primeiro é reconhecer o problema (por incrível que pareça, ainda um tabu no Brasil, malgrado todos os números e evidências). É preciso parar de varrer a violência doméstica para baixo do tapete. O Brasil é um dos países que mais mata mulheres no mundo. O problema aqui é crônico, cultural e epidêmico. É preciso tratá-lo com a gravidade que ele exige.
O segundo passo é também tratar o problema com a especificidade que ele exige, isto é, levando em conta as características específicas da violência doméstica e do crime de feminicídio. E aqui cabe lembrar o conceito: feminicídio não significa “assassinato de mulher”, genericamente e independentemente das circunstâncias. É o termo usado para designar um crime de ódio praticado por homens contra mulheres, fruto do machismo e do sentimento de dominação dos agressores sobre as vítimas. Em geral, o crime envolve uma relação abusiva de poder. A mulher morre, basicamente, por ser mulher (por ciúme, vingança etc.). Problemas específicos pedem estratégias específicas de prevenção e de repressão.
O terceiro passo é encorajar cada vez mais as vítimas a se libertarem da espiral do silêncio. Elas precisam encontrar canais seguros para notificar as agressões e, uma vez feita a denúncia, precisam se sentir acolhidas por uma rede de assistência a essas vítimas (chega de tratá-las como culpadas pela violência sofrida, certo?). Mais importante: é preciso consolidar e expandir os dispositivos legais que libertem essa mulher da ameaça física representada pelo agressor (medidas protetivas). Ao mesmo tempo, nosso sistema de persecução e de execução penal precisa garantir punição severa a quem pratique violência doméstica.
Por último mas não menos importante, é preciso que as autoridades constituídas abracem essa causa. E aqui fica um último parêntese: teria sido muito bem-vinda, durante esse carnaval tão violento para as mulheres brasileiras, uma declaração, ainda que protocolar, por parte do presidente da República, condenando esse tipo de agressão – esta, sim, epidêmica. Mais preocupado, contudo, ele pareceu estar com o fetiche sexual alheio e com um caso pontual de urofilia.
Em transmissão no Facebook na quinta (7), prestou sua homenagem às brasileiras, mas não passou nem perto do xis da questão. Na sexta (8), fez uma piada ruim e dispensável sobre a “paridade” na representação de gênero em seu ministério – onde há uma mulher para cada dez homens. “Ah, mas o Brasil está ficando muito chato!”, alguns dirão. Têm razão: enquanto Bolsonaro se diverte com o tema “igualdade de gênero”, mulheres seguem apanhando e não veem a menor graça nisso. Mesmo se assim o quisessem, não conseguiriam rir: tiveram a cara quebrada. Sem nenhuma cerimônia.
O passo mais largo
Enquanto se punem os agressores do presente, é necessário evitar a formação de novos agressores no futuro. E aí cabe um trabalho de longo prazo.
Muita gente anda preocupada em combater o “marxismo cultural”. O que deveríamos estar combatendo de verdade é o machismo cultural. Mudança de mentalidade e de cultura é um processo que deve começar na base, ou seja, lá no ensino fundamental e, principalmente, no ensino médio. Mas andamos sem sair do lugar, ou para trás, quando arautos da moralidade se empenham em banir qualquer “discussão de gênero” em sala de aula – como se esse, sim, fosse o crime.
Ora, então os educadores devem se omitir, fingir que o problema não existe? Não podem, por exemplo, abordar com seus alunos essa questão tão grave da violência de gênero espalhada na sociedade? Na minha opinião, não só podem como devem, desde que usem linguagem e metodologia adequadas. O que está em jogo aqui é respeito. E respeito precisa ser discutido na escola. Nas famílias, nas igrejas, mas também nas escolas.
Espancada
Na madrugada de segunda-feira (4), a vendedora Jane Cherubim, 36 anos, foi espancada pelo namorado. Com o rosto desfigurado (foto), ela foi abandonada em uma estrada em Dores do Rio Preto e encontrada pelo irmão toda ensanguentada e seminua. Para a família, o crime foi motivado por ciúmes nutridos pelo agressor, Jonas Amaral, 34 anos, com prisão decretada e procurado pela polícia.
Esfaqueada
Na noite de terça-feira (5), uma mulher de 35 anos, moradora de Castelândia, na Serra, foi alvo de oito facadas dentro da própria casa, desferidas pelo ex-namorado, que havia invadido a residência e ficado de tocaia na intenção de matá-la (ela sobreviveu). Isso após ter sido colocado para fora de casa dois dias antes.
Assassinada
Já a jovem Maikelly Rodrigues da Silva, 28 anos, não conseguiu escapar: no sábado de carnaval (2), ela foi amarrada nua e assassinada com cinco tiros na cabeça às margens da Rodovia Audifax Barcelos, na Serra.

Vitor Vogas

Vitor Vogas Vitor Vogas

Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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