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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica aqui, diariamente, informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Bolsonaro precisa criar polêmicas para compensar a própria irrelevância

Enquanto presidente se ocupa da criação de factoides, polêmicas inócuas e conflitos inúteis para preencher seu vazio de conteúdo, Congresso assume protagonismo que deveria competir ao Executivo

Publicado em 26/02/2020 às 05h00
Atualizado em 26/02/2020 às 05h02
Sem noção do que é realmendte prioritário para os interesses nacionais, Jair Bolsonaro tem perdido protagonismo para Rodrigo Maia. Crédito: Amarildo
Sem noção do que é realmendte prioritário para os interesses nacionais, Jair Bolsonaro tem perdido protagonismo para Rodrigo Maia. Crédito: Amarildo

Um general certa vez perguntou a Bolsonaro, quando este ainda era um deputado do baixo clero da Câmara: por que ele sempre parecia tão irritado e por que sempre dava aquelas declarações tão amalucadas? O então deputado respondeu: a Câmara tem 513 membros. Se ele não agisse daquele jeito, passaria despercebido. Ninguém prestaria atenção nele. Agora, com a faixa presidencial, a “caneta BIC” na mão e todos os poderes competentes ao presidente da República, Bolsonaro segue agindo exatamente daquele jeito. Em tese, não precisaria. É o presidente, oras! As atenções de todos os brasileiros, aliás do mundo inteiro, já estão voltadas para ele. Se ele não seguir agindo assim, agora como presidente da República, acaso também corre o risco de passar despercebido? Aí é que está: a resposta para essa pergunta, aparentemente, é sim.

Mesmo como presidente, a nulidade que é Bolsonaro dos pontos de vista político, gerencial e intelectual parecem não lhe deixar outra opção, para manter-se minimamente relevante, senão criar e alimentar, semanalmente, polêmicas que não levam a lugar algum. E assim, no lugar do consenso, temos o choque. No lugar do bom-senso, o destempero. No lugar da ponderação, o desequilíbrio a cada vez que ele abre a boca.

Bolsonaro tem feito, desde seu dia 1 na Presidência, o mesmo que passou os seus quase 30 anos encostado na Câmara a fazer: inventar conflitos inúteis e investir contra adversários, reais ou imaginários, como o bullier do corredor da escola ou o soldado brigão da caserna. Às vezes, quando lê o que alguém escreveu para ele balbuciar (como em seu primeiro discurso após a vitória eleitoral), pode até enunciar palavras revestidas de equilíbrio, moderação e bom-senso. Pode até dar a entender que o que busca é a conciliação. Pura fachada. No exercício real da Presidência, só faz buscar o confronto paralisante no lugar de consensos produtivos que de fato levem a resultados concretos transformadores para a sociedade brasileira. “Presidencialismo de colisão”.

Bolsonaro alimenta-se da polêmica como um vampiro se alimenta do sangue ou um dependente químico, de sua droga. Parece ser acometido de crise de abstinência se passar cinco horas sem dar uma declaração disparatada, de preferência insultando alguém (ou, o que é ainda mais covarde, a memória de alguém que já não está aqui para se defender, vide o caso do pai do presidente da OAB).

Mas a busca incessante pela polêmica gratuita também guarda um outro sentido e parece atender a um objetivo consciente: o de manter-se nas manchetes e na crista do debate político nacional, nem que seja pela bizarrice ou pelo absurdo de suas declarações. Bolsonaro sabe como ninguém que precisa alimentar as polêmicas para que as pessoas sigam falando de... Bolsonaro. Investe no histrionismo da forma para compensar seu substancial vazio de conteúdo. Chama a atenção pela agressividade para preencher sua indisfarçável lacuna de substância. Como não tem o que oferecer no campo do debate racional de ideias, como se sabe incapaz de se destacar por seu intelecto ou mesmo por suas ações como um gestor que jamais foi (muito menos agora na Presidência), Bolsonaro precisa, desesperadamente, manter-se relevante de algum modo. E o único modo que conhece é a polêmica chã.

Compensa, assim, com as polêmicas, sua irrelevância dentro do próprio governo, mais palpável a cada dia de sua administração. Sim, porque, em termos de definição de projetos, políticas e da agenda real do país (não suas pautas periféricas que partem do nada para lugar nenhum), o presidente da República tem se provado cada vez menos relevante, quase um figurante dispensável, perdendo protagonismo para Rodrigo Maia, que, ao lado de Davi Alcolumbre e Paulo Guedes, é quem de verdade está tocando a agenda de reformas do país, a ponto de muitos já falarem em “parlamentarismo branco” e chamarem Maia de “premiê”.

Enquanto isso, o inquilino do Alvorada se ocupa em distribuir bananas para jornalistas e em ditar às pessoas que filme elas podem ver ou não, que comercial elas devem ver ou não e, claro, com quem elas devem ou não fazer sexo – em sua obsessiva cruzada moralista em matérias de costumes. Sexo, aliás, parece algo muito mal resolvido na cabeça do presidente, pois não há notícia de um chefe de Estado tão obcecado pelo assunto.

Enquanto a reforma da Previdência – teoricamente prioritária para seu governo – tramitava a duras penas no Congresso ao longo de todo o ano de 2019, Bolsonaro cochilava no ponto, dando declarações dúbias sobre sua aprovação (como deputado, sempre foi contrário) e assim sabotando-a na prática. Enquanto o Congresso assumia um protagonismo que há décadas não se via e que caberia ao Poder Executivo em nosso sistema presidencialista, Bolsonaro se perdia em preocupações muito mais “urgentes”, como publicar vídeos sobre o “golden shower” e as pulseirinhas de nióbio no Japão, debochar da proteção ambiental, defender o trabalho infantil, negar o flagelo da fome no Brasil, insistir em armar civis até os dentes, adular Donald Trump a todo custo e meter-se em crises diplomáticas tão inócuas quanto despropositadas com a França, com a Alemanha, com o mundo árabe e até com parceiros nas vizinhanças, como o Chile e a Argentina. Até com Leonardo DiCaprio e com a “pirralha” Greta Thunberg, o presidente conseguiu se indispor. Claro, porque o astro de “Titanic” e a adolescente sueca devem representar “ameaças à soberania nacional”.

Esse comportamento obstinado não poderia destoar mais do que se espera de um chefe de Estado, mas não chega a espantar em se tratando desse personagem, pois foi exatamente assim que Bolsonaro construiu toda a sua carreira parlamentar: sempre buscando proferir declarações polêmicas e envolver-se em conflitos reais ou artificiais, confrontar adversários de maneira agressiva, atacar com violência verbal desmedida minorias, com o intuito de suprir a relevância política que ele nunca teve por ações parlamentares, bem como de manter-se em evidência na mídia – a mesma que, agora, ele elege como inimiga número um dele mesmo e portanto, em sua mente paranoica, do país (“o Estado sou eu”?).

E assim, de bobagem em bobagem, de insulto em insulto, de ataque em ataque, de violência em violência, de despautério em despautério, fica mais difícil esconder aquilo que se faz mais translúcido a cada dia: Jair Bolsonaro, o 38º presidente da República do Brasil, simplesmente não se mostra à altura do cargo para o qual foi eleito.

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