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VITOR VOGAS

Bolsonaro e a jornada contra a diversidade

Na Presidência, Bolsonaro segue expressando a mesma visão primitiva do antigo deputado em questões educacionais e comportamentais que já não tem lugar no século 21

Publicado em 30 de Abril de 2019 às 00:49

Públicado em 

30 abr 2019 às 00:49
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

O presidente Bolsonaro segue firme em uma marcha do atraso, em direção a um passado que ele sonha em reeditar no presente, segundo uma visão de mundo reacionária que prefere renegar e "revogar" mudanças já consolidadas na sociedade, em vez de buscar assimilá-las e adaptar-se a elas. Isso inclui uma cruzada anacrônica contra tudo o que possa representar a ideia de "diversidade" – para Bolsonaro, um mal a ser combatido vigorosamente por ele enquanto for presidente da República.
Na Presidência, Bolsonaro segue expressando a mesma visão primitiva do antigo deputado em questões educacionais e comportamentais que já não tem lugar no século 21 (e já se vai quase um quinto do século). É o inimigo número um da "diversidade", nas escolas, nas famílias, nos meios de comunicação, na sociedade em geral. Mas a diversidade não é apenas um conceito. É um fato social. O presidente não controla isso, nem cabe a ele controlar. Não obstante, tem buscado manter sob controle o que acredita que deva ser mantido sob rigorosa supervisão pessoal do presidente: de questões do Enem (como já foi sinalizado) ao conteúdo da publicidade oficial de estatais, como se não tivesse ele nada mais importante com que se preocupar no cargo.
Na última manifestação concreta dessa cruzada pessoal, Bolsonaro censurou a posteriori um comercial do Banco do Brasil que já estava no ar havia dias. Motivo: para os padrões bolsonaristas, a peça de 30 segundos exibia "diversidade demais". Esta, no caso, era encarnada por jovens negros, tatuados, com cabelo pintado, homossexuais e uma transexual.
Por acaso não há, na sociedade brasileira, jovens negros, tatuados, homossexuais e transexuais? Não são tais segmentos potenciais clientes que o banco deve se empenhar em atrair? Do ponto de vista estritamente comercial, não são um público-alvo como outro qualquer, como o seriam "brancos heterossexuais não tatuados"? E era a essa potencial clientela (no jargão do marketing, a esse target) que a campanha se endereçava, até para "diversificar" a cartela de clientes do banco.
Que o presidente, como indivíduo, queira manter seus preconceitos e sua visão pessoal arcaica sobre diversos temas, é direito e problema dele. Quando passa a transformar tais preconceitos pessoais em visão oficial do Estado brasileiro, aí temos um problema para o país.
Bolsonaro diz não perseguir minorias. Só que suas decisões e declarações o desmentem. No caso do Banco do Brasil, essa perseguição atrapalha o banco a perseguir suas metas comerciais
No caso específico, vale lembrar que o BB é um banco público que concorre no mercado financeiro com bancos privados fortíssimos pela prospecção de clientes. Sendo assim, suas estratégias comerciais e mercadológicas devem ser regidas por critérios estritamente técnicos e profissionais.
Ao interferir pessoalmente no que o banco público pode ou não mostrar em suas campanhas, o presidente não só fere a Lei das Estatais (como tratou de lembrar o secretário de Governo, general Santos Cruz) como atrapalha o próprio banco a perseguir seus objetivos estratégicos. É um estilo ultracentralizador que se remonta ao de regimes totalitários e que não se coaduna com o papel de um presidente no regime democrático em que ele foi eleito.
"Famílias"
Na justificativa para o impulsivo gesto, o presidente revelou mais uma vez sua visão de mundo obsoleta: "A massa quer o quê? Respeito às famílias". Da fala se depreende que, para Bolsonaro, "famílias" não possuem homossexuais ou, pelo menos, não deveriam possuir (em 2011, à "Playboy", disse preferir um filho morto a um filho gay). Pior: homossexuais não podem constituir a própria família.
Mais lamentável ainda foi ver as explicações do presidente do BB, Rubem Novaes, para a exclusão do comercial, remetendo à campanha radicalizada de 2018 e fazendo uma separação entre cidadãos "normais" e não tão normais assim. Segundo ele, a "esquerda" tentava caracterizar "o cidadão 'normal' como a exceção e a exceção como regra".
Na cabeça de Novaes, possivelmente ressoam as palavras ditas por Bolsonaro no sábado: "Quem indica e nomeia presidente do Banco do Brasil? Sou eu? Não preciso falar mais nada, então". No mesmo dia, em mais uma expressão do seu estilo ultracentralizador, o presidente também avisou que seus ministros devem seguir sua linha de pensamento ou se manter em silêncio. Quer dizer, nada de diversidade de opiniões nem dentro do seu governo.
A distinção feita pelo presidente do BB, subscrevendo as concepções de "quem o indicou e o nomeou", atualiza e reforça preconceitos baseados na ideia de normatividade: haveria padrões comportamentais a serem seguidos por todos, logo aqueles que fogem a tais padrões estariam fora da "normalidade" – por conseguinte, seriam "anormais". Quem estabelece tais normas e padrões é algo que nem ele nem Bolsonaro tentaram explicar. Recorrendo à Constituição Federal, temos apenas que todos os cidadãos são iguais perante o Estado brasileiro, em direitos e obrigações.
O que não é normal é ouvir esse tipo de discurso professado, reavivado e legitimado por autoridades brasileiras em pleno 2019.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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