O presidente da República Federativa do Brasil ainda não se deu conta de que é o presidente da República Federativa do Brasil. Só isso explica. Jair Bolsonaro está se esforçando muito em superar todos os limites não só do cabível e do admissível para alguém que ocupa o cargo, mas até do imaginável, com atitudes e declarações que beiram as raias do surrealismo. Por vezes, seu comportamento é tão “incrível” (no sentido literal mesmo, de “aquilo que não é crível”) que precisamos parar e pensar duas vezes para crer que um chefe de Estado tenha mesmo sido capaz de agir daquele modo.
Se não fosse Bolsonaro o presidente em questão, seria o caso de se descartar a informação por “absurda”, jogá-la na gaveta das “cascatas” ou “fake news” e partir para a próxima. Mas o presidente em questão é Bolsonaro, de modo que as fronteiras do “verossímil” têm sido bastante alargadas. Com ele no poder, aparentemente tudo passa a ser plausível vindo do presidente. O nonsense é mais real a cada dia. E as “cascatas” agora são verdadeiras. Obscenamente verdadeiras.
Seu post na última terça à noite no Twitter, compartilhando imagens obscenas com todos os seus seguidores (sem classificação etária), é ruim sob todos os ângulos, para ele mesmo, para o Brasil e para os brasileiros. Atitude inadequada, indecorosa, descabida, indefensável e irresponsável, além de não condizente com o próprio discurso que o levou ao Planalto, marcado por forte viés moralista. Se o que Bolsonaro pretende é resgatar “a moral, os bons costumes e os valores cristãos”, é difícil conceber um jeito mais confuso de pregar essa mensagem. As imagens são chocantes, mas o que mais choca é o voluntarismo do governante. Em que parte do mundo um presidente da República pode fazer uma postagem como aquela, divulgar pornografia explícita e achar que “tá ok”?
Sem ter descido ainda do palanque virtual, o presidente parece não compreender a dimensão e a liturgia do cargo, tampouco a gravidade de cada palavra proferida por seu ocupante. Prefere continuar agindo como se ainda fosse um deputado caçador de polêmicas e não o 38º presidente da República, com todas as exigências inerentes ao ofício: entre elas, a responsabilidade, a moderação e a temperança, pois o que ele representa agora não é só sua própria imagem, mas a de toda uma nação e a de seu povo.
Com a insistência nessa postura da campanha e da pré-campanha, Bolsonaro desmente declarações dadas por ele mesmo, durante a leitura de discursos protocolares, logo após a vitória eleitoral: a de que buscaria unir os brasileiros e pacificar o país. Será que também foi cascata? A prática tem demonstrado que ele pretende mesmo é se distanciar do “protocolar” e do “presidenciável” para manter vivo o personagem do candidato, só que agora com a faixa no peito. Seguirá investindo pesado na radicalização do discurso que divide brasileiros em um “nós contra eles” fratricida, mudando-se apenas as posições no ringue político.
O problema, para Bolsonaro, é que ele agora não precisa de votos populares. Precisa convencer as pessoas a apoiar as medidas do seu governo (mesmo aquelas que, aparentemente, não contam com sua própria simpatia e contra as quais ele mesmo se posicionou em passado recente). É o caso das reformas econômicas.
Agindo assim, Bolsonaro não acolhe quem está fora de seu círculo, não ganha novos adeptos, não amplia sua base social. Só cimenta o muro atrás do qual ele se posiciona, ladeado pelos seguidores incondicionais que vão aplaudi-lo não importa o que ele faça ou diga. Tende, assim, a se entrincheirar cada vez mais em um nicho de apoiadores convictos, situados em uma extremidade do eleitorado brasileiro. O risco é que essa extremidade fique cada vez mais extrema – ou seja, cada vez menor para ele.
TORRENTE DE INUTILIDADES
Enquanto perde tanto tempo e se afoga em uma chuva de questões que chocam pela irrelevância, o presidente poderia canalizar sua notória capacidade de mobilizar a audiência via redes sociais para causas realmente importantes para o país, e para seu governo, neste momento. Prefere desperdiçar esse poder para “expor a verdade para a população”. Mas tanto na definição dessa “verdade” como na forma de “exposição”, também faltam bom-senso e responsabilidade. Mesmo no tema “carnaval”, Bolsonaro poderia ter direcionado toda a atenção despertada por ele para transmitir uma mensagem útil de verdade. Poderia, ainda, ter dado um incentivo ao segmento turístico, grande gerador de divisas, ajudando a divulgar as incontáveis atrações do carnaval brasileiro, onde a imensa maioria das pessoas se diverte sem chocar nem fazer mal a ninguém.
BANHO DE LEVIANDADE
Em vez disso, ele pega um caso chocante, maximiza-o, trata a exceção como regra e carimba que essa é a “verdade” sobre os blocos de rua. Ora, devemos concluir então que o carnaval agora é só “isso”? Para o presidente, parece que sim. Para o resto do mundo, foi a mensagem que ele passou. A partir do momento que o próprio presidente faz essa generalização, foliões do Brasil inteiro são apresentados, aos olhos do mundo, como se assim também agissem. Depreciando a maior festa popular do Brasil, Bolsonaro presta um desserviço ao turismo brasileiro, à imagem do país e à do próprio povo que ele agora representa. O que não percebe é que também não está ajudando muito a própria imagem, a qual já inspira comparações com Jânio Quadros, o presidente mais nonsense que já governou o Brasil. Até agora.