Aos poucos a realidade se impõe e se sobrepõe às fabulosas promessas de campanha. Como candidato, Bolsonaro prometeu acabar com a mamata e fazer tudo diferente de seus antecessores, uma vez no poder. O discurso de fim do loteamento político do Estado não resistiu aos dois primeiros meses de governo e à necessidade prática, imperativa, de negociar com o Congresso, prestigiar antigos aliados e oferecer cargos cobiçados para conquistar novos.
No Espírito Santo, o maior exemplo da distância entre discurso e realidade é Carlos Manato. Derrotado nas urnas em 2018, o ex-deputado foi o primeiro capixaba agraciado com um cargo de menor escalão na estrutura do governo Bolsonaro: secretário especial para a Câmara Federal. Uma vez instalado no núcleo político, ainda durante a transição, tratou de trabalhar para emplacar os seus próprios indicados políticos... os quais, por sua vez, se confirmados nos cargos, tratarão de indicar seus próprios protegidos em escalões ainda menores.
Em 19 de dezembro, Manato admitiu à coluna a intenção de emplacar dois aliados no governo: o vice-presidente estadual do PSL, Amarildo Lovato, no Inmetro, e o ex-presidente da Findes Marcos Guerra, no Sesi, na Codesa ou no DNPM. Também pelo PSL, Guerra foi candidato derrotado a deputado federal em 2018 e agora admite que pode ser candidato a prefeito de Colatina, pelo mesmo partido, em 2020. No dia 13 de dezembro, Manato elegeu-se para presidir o Conselho Deliberativo do Sebrae no Espírito Santo. Guerra teve atuação e voto decisivos na vitória de Manato.
Agora, o dirigente máximo do PSL no Estado articula nos bastidores a nomeação de outro aliado no governo: o tenente-coronel Rogério Lima, ex-presidente da Associação dos Oficiais Militares do Espírito Santo (Assomes). Lima também foi candidato pelo PSL a deputado federal em 2018, igualmente sem sucesso. Agora, como admite o próprio militar, ele pode ser indicado, por influência de Manato, a um destes dois cargos: ou vai comandar a SPU no Espírito Santo ou vai chefiar a Superintendência do Ibama no Estado.
À coluna, ele confirmou que vem conversando com Manato sobre isso e que o ex-deputado federal é o autor da indicação do nome dele, a qual ele espera que se confirme após o carnaval. O tenente-coronel tem formação jurídica e longa trajetória nas fileiras da PMES. A grande dúvida que fica é quais são, afinal, suas qualificações técnicas e específicas para chefiar o órgão responsável pela proteção, fiscalização e concessão de licenças ambientais no Espírito Santo.
A um internauta que lhe questionou exatamente isso, em uma rede social, Lima respondeu que é “um amante do meio ambiente”. Questionado pela coluna, ele afirmou que será um gestor e que não interferirá no trabalho dos técnicos do instituto. De todo modo, é mais uma prova de que o critério predominante no preenchimento dos cargos comissionados em escalões inferiores do governo não será, de modo algum, puramente técnico.
Por essas e outras evidências, o tal “banco de talentos” montado pelo governo Bolsonaro está muito mais para um “banco de reservas”, por meio do qual serão abrigados, na inchada máquina pública, muitos dos candidatos derrotados em 2018. Ainda que possuam eventuais qualidades, serão contemplados com um naco de poder, primordialmente, por dois motivos: apoiarem o governo Bolsonaro e cultivarem boas relações políticas com o grupo que chegou ao governo. O resto é artifício retórico, é não querer chamar pelo nome certo aquilo que sempre ocorreu e que continuará ocorrendo, substituindo “indicações políticas” por um termo bonito e pomposo.
Ou acaso, antes, quem era indicado politicamente tinha zero qualificação? Alguns podiam até ter grandes méritos, serem altamente capacitados, mas chegaram lá por conexões políticas. Da mesma forma, agora, o “talento” pode até ter o melhor dos currículos, mas isso não mudará o fato de que sua indicação passará por um padrinho político e que a eventual nomeação passará pelo crivo político de quem toma as decisões. É simples assim.
À reportagem de A GAZETA, defendendo o “banco de talentos”, Manato afirmou que isso não significa que o governo cederá ao “toma lá, dá cá”. Ora, essa prática se dá em muitas vias diferentes, ou em muitos “vieses”, para usar o termo da moda. Segundo Manato, se o governo aceitar a indicação de um deputado para o preenchimento de certo cargo (o toma lá), isso não significará que esse deputado estará condicionado a aprovar a reforma da Previdência (o dá cá).
Por outro lado, a própria aceitação de algumas indicações, como as do próprio Manato, já não seria um “dá cá” pelo apoio prestado por eles à eleição de Bolsonaro? Que fique claro: não se trata de criminalizar indicações políticas nem de condenar Manato e os seus por fazerem algo que quase todo mundo faz.
O que não vale é dizer que vai acabar com o “toma lá, dá cá”, que vai mudar todas as práticas políticas, que vai moralizar tudo isso daí... para no fim das contas mandar todas essas ideias de volta para o banco. Ou para o vestiário.
Escolham aí: ou está faltando trabalho ou está sobrando vontade de mostrar serviço neste início de mandato na Assembleia. Na sessão ordinária da última segunda, os deputados passaram dez minutos discutindo a derrubada de um veto do Executivo a projeto da ex-deputada Eliana Dadalto (PTC) que declara a concertina (uma espécie de sanfona) patrimônio cultural do Espírito Santo. O veto foi derrubado. Viva a concertina!