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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente, informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Auxílio em Vitória é boa iniciativa para todos. Inclusive, para candidatos

Medida excepcional é mesmo importante para famílias de baixa renda neste momento. Ao mesmo tempo, pode render dividendos políticos para a gestão de Luciano e eleitorais para o candidato da máquina, Gandini, e também para vereadores

Publicado em 05/07/2020 às 06h00
Atualizado em 05/07/2020 às 06h01
Luciano Rezende, Cleber Felix e Fabrício Gandini
Luciano Rezende, Cleber Felix e Fabrício Gandini. Crédito: Reinaldo Carvalho/Ales, Facebook e Tati Beling

Uma boa iniciativa. Assim podemos definir o auxílio emergencial de R$ 900,00, em três parcelas, que a gestão de Luciano Rezende (Cidadania) dará a até 3.433 famílias que recebem até meio salário mínimo per capita e vivem em Vitória. Aprovado por unanimidade neste sábado (4) pela Câmara Municipal, o projeto de transferência direta e temporária de renda é medida importante para quem mais precisa e realmente ajudará essas famílias mais necessitadas em momento excepcional, de calamidade pública, por conta da pandemia do novo coronavírus.

Como se sabe, em toda situação de crise econômica, os cidadãos de baixa renda e em vulnerabilidade social são os afetados mais rápida e mais intensamente. Mais ainda numa situação como esta, em que o inesperado abalo econômico se soma a uma crise sanitária e humanitária sem precedentes neste século. O impacto financeiro estimado é de pouco mais de R$ 3 milhões. Se há folga no orçamento municipal para isso e a prefeitura está segura de que é financeiramente viável, por que não? É questão de segurança alimentar.

Ao mesmo tempo, é inegável que a medida tende a ter rebatimentos positivos não só do ponto de vista político, para a imagem da própria prefeitura, como também, consequentemente, do ponto de vista eleitoral, para o candidato a prefeito da máquina junto a esses segmentos mais carentes.

Ainda que certamente não seja essa a motivação nem a finalidade do auxílio (até porque a minuta partiu da Secretaria de Assistência Social), o benefício emergencial também pode representar um benefício providencial ao deputado estadual Fabrício Gandini (Cidadania), candidato à sucessão de Luciano apoiado pelo prefeito.

O “auxílio” também a Gandini não deixa de ser uma consequência provável, praticamente certa, enquanto a prefeitura assiste financeiramente a essas famílias. Uma coisa não exclui a outra. Une-se a fome (ou o combate à fome) com a vontade de comer.

É o mesmo raciocínio que vale para o programa Bolsa Família, do governo federal. É um programa importante? Sim. Representa um auxílio valioso a famílias em situação técnica de pobreza ou extrema pobreza? Sim. Durante muitos anos, ajudou a tirar da miséria milhões de famílias Brasil afora? Certamente. Ao mesmo tempo, proporciona benefícios políticos ao governo que mantém o programa e eleitorais aos candidatos vinculados a tal governo? Não cabe a menor dúvida que sim.

(Se alguém ainda tem alguma dúvida, pergunte a Jair Bolsonaro, que passou anos na Câmara Federal a desqualificar o Bolsa Família como “programa eleitoreiro”, mas, uma vez na Presidência, não só o manteve como tirou do quepe um 13º agora pago aos beneficiários.)

Voltando a Vitória: não é demais lembrar que os bairros de mais baixa renda na Capital (sobretudo os da Grande São Pedro) são precisamente as áreas da cidade onde Luciano e Gandini encontram maior dificuldade e não têm tão boa “entrada”.

No caso do atual prefeito, isso ficou estatisticamente retratado em sua corrida à reeleição, em 2016, no mapa da votação na cidade e na radiografia das urnas. Nos bairros de mais baixa renda, o oponente de Luciano no 2º turno, Amaro Neto, derrotou-o com folga, na proporção de dois votos para um. É óbvio que isso se deveu em parte à popularidade do apresentador de TV nessas classes, como também é evidente que isso por si só não explica diferença tão larga.

Já no caso de Gandini, o deputado estadual e ex-presidente da Câmara de Vitória é “cria” de Jardim Camburi, populoso bairro de classe média da Capital. É classe média típica mesmo, “classe média média”, mas, em uma cidade com contrastes sociais tão marcados como Vitória, pode parecer, ao eleitor mais pobre, um representante da “elite” da cidade, como esse eleitor pode encarar toda a região continental.

Gandini sempre fez sua trajetória política com enraizamento forte em seu reduto, o que lhe rendeu votações recordes para a Câmara em 2012 e em 2016. Para uma eleição majoritária, isso não basta. É preciso expandir o seu alcance político, para além da região continental. Chegar aos morros e ao mangue.

Gandini tem consciência disso. Tanto que namora há um ano o vereador Nathan Medeiros (PSL), da Grande São Pedro, para ser seu vice. E, nos últimos anos, preparatórios para a campanha, tem se empenhado tenazmente na construção de uma rede maciça de líderes comunitários aliados dele e da atual gestão, que facilitem sua inserção nessas regiões da cidade onde não é tão conhecido.

Esse auxílio emergencial, enfim, pode se desdobrar em múltiplas dimensões, dando inclusive um bem-vindo auxílio a Luciano e, principalmente, a seu ex-auxiliar e agora candidato, Fabrício Gandini. Será preciso manter a atenção para possível exploração político-eleitoral explícita dessa medida de caráter assistencial. Pelo perfil dele, não creio sinceramente que Gandini fará isso. Mas talvez nem seja necessário.

ENCAIXE PERFEITO NO CALENDÁRIO

Uma ajuda é sempre uma ajuda. Entra na conta e não sai da memória. E cumpre ainda sublinhar um “encaixe perfeito de datas”. O benefício será pago ao longo de três meses, em parcelas de R$ 300,00. Segundo a assessoria da prefeitura, começará a ser pago “a partir da vigência da lei”. A intenção da prefeitura é já fazê-lo a partir de julho, ou seja, até o fim do mês de setembro, precisamente no momento em que começará a campanha municipal. Com o novo calendário eleitoral, recém-promulgado pelo Congresso, a propaganda eleitoral será oficialmente liberada no dia 27 de setembro.

Assim, durante o período eleitoral, o auxílio estará bem fresco na cabeça de quem recebeu o dinheiro na conta (sem nem sequer ter precisado requisitar o depósito). Com o 1º e o 2º turnos agora programados para novembro, o pagamento da última parcela praticamente coincidirá com a etapa decisiva do processo.

GANHO EU, GANHA VOCÊ… TODO MUNDO GANHA!

A propósito, o que foi dito aqui não vale só para o prefeito e para seu candidato à sucessão. Aplica-se, de igual maneira, a todos os vereadores de Vitória, que, em esforço raramente visto, correram para aprovar o auxílio em sessão extraordinária realizada neste sábado.

Todos eles também poderão com isso colher benefícios eleitorais, tanto os muitos que são pré-candidatos à reeleição como aqueles que hoje dizem pleitear a cadeira de prefeito: o presidente Cleber Felix (DEM) e, ainda, Roberto Martins (Rede), Neuzinha de Oliveira (PSDB) e Mazinho dos Anjos (PSD).

BRIGA PELA PATERNIDADE

Indício do que afirmamos acima foi a disputa pela paternidade da ideia do auxílio, travada neste sábado durante a discussão e a votação do projeto. A sessão da Câmara foi marcada por uma longa e paralela discussão entre os vereadores Denninho Silva (Cidadania), governista, e Roberto Martins, oposicionista, relacionada aos louros pela autoria da iniciativa.

Denninho defendeu que o crédito é todo da prefeitura, que já estaria discutindo a medida desde março. Já Roberto fez questão de estender os créditos aos vereadores, que, segundo ele, fizeram indicações e mobilizaram o debate sobre o tema na Câmara.

CMV PARECE UM CASO PERDIDO...

Não tem jeito! Até na discussão de uma matéria que unificou situação e oposição, a sessão da Câmara foi permeada por momentos de puro barraco, protagonizados dessa vez por Denninho.

Desproporcionalmente exaltado, o vereador interrompeu várias vezes (sem poder) colegas que estavam com a palavra e tentou caçar briga de todos os modos. Primeiro com Roberto. Depois, em tom muito agressivo, com o presidente, Clebinho, a quem chamou de “ditador”. Depois, até com o aliado Wanderson Marinho (PSC): “Vossa Excelência é surdo?”

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