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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica aqui, diariamente, informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Audifax quer fusão da Rede com PPS

A aprovação da fusão, por sinal, é posição majoritária hoje entre os caciques da Rede, incluindo o senador Randolfe Rodrigues (AP)

Publicado em 03/12/2018 às 05h24

Audifax Barcelos quer a fusão da Rede com o PPS. Muito próximo e muito grato ao prefeito – que abraçou e viabilizou a sua candidatura ao Senado desde o início –, Fabiano Contarato deseja o mesmo. A aprovação da fusão, por sinal, é posição majoritária hoje entre os caciques da Rede, incluindo o senador Randolfe Rodrigues (AP) e o único prefeito de capital eleito pela sigla em 2016, Clécio Luís, de Macapá. Basicamente, quem tem mandato na Rede quer a fusão. Acontece que a Rede não tem “caciques”. Tem cacique. Para ser mais preciso, tem Marina Silva. E, por ora, ela resiste à ideia da fusão, tendo a ex-senadora Heloísa Helena (AL) como companheira de trincheira.

Apesar da postura e do discurso democráticos, Marina tem a fama de ser centralizadora, característica que já a prejudicou mais de uma vez em eleições passadas, embaraçando a atração de aliados. Outra característica marcante de Marina é seu profundo idealismo, o que é uma virtude, digna de admiração e de inveja, até certo ponto: o ponto, por exemplo, em que põe em risco a sobrevivência do próprio partido.

Para Audifax, conforme apuramos, passou da hora de a Rede (assim como muitos partidos programáticos de centro-esquerda) serem menos ideológicos e mais pragmáticos, mais agarrados ao que impõe a realidade objetiva. E o que a realidade objetiva impõe à Rede no momento é basicamente o seguinte: unido ao PPS, o partido não terá vida fácil, mas pelo menos sobrevive no jogo político. Já sem a fusão com o PPS, pode esquecer: o que já era difícil se tornará impossível. O partido vai morrer por inanição política.

A Rede foi um sonho bonito sonhado por Marina, de construir um partido a sua feição, que traduzisse suas convicções. Mas agora o sonho acabou, sobreposto pela realidade. Mais precisamente, acabou por força das urnas, as mesmas que foram cruéis com a Rede nas eleições municipais de 2016 e que terminaram de enterrá-la em outubro de 2018.

No Espírito Santo, a julgar pelo tamanho do partido, a Rede até que se saiu bem. Além da eleição de Contarato, a legenda fez seu primeiro deputado estadual: Xambinho, vereador da Serra e também afilhado político de Audifax. Mais importante ainda: em solo capixaba, a Rede obteve cerca de 3% dos votos válidos para deputado federal, condição essencial para superação da cláusula de barreira (nesta eleição, a regra impôs pelo menos 1,5% dos votos por Estado, na disputa pelas vagas na Câmara). Já em outros Estados, o partido não teve o mesmo desempenho. Sem Fundo Partidário e tempo de TV a partir de 2019, o partido está ameaçado de extinção.

Na prática, sem mínimos recursos e visibilidade, ninguém vai querer ser candidato a nada pela Rede em lugar algum, inclusive no Espírito Santo. Quem já está no partido vai buscar outro pouso. E quem quer ser candidato a algo não vai nem pensar em entrar. É evidente que tal situação atrapalha sumamente os planos político-eleitorais de Audifax – os quais, conforme relatamos aqui ontem, são no mínimo audaciosos, passando por candidatura ao governo do Estado em 2022 e até à Prefeitura de Vitória daqui a dois anos. Para isso, porém, ele precisará de um partido estruturado, enraizado por todo o Estado e no qual possa abrigar um bom número de cabos eleitorais para ajudá-lo nas eleições. Sem a fusão, a Rede de Marina não será esse partido.

Nesse caso, Audifax cogita até migrar para outra sigla. Todos os partidos de direita estariam automaticamente descartados. Para manter uma mínima coerência com seu histórico, ele procuraria novo abrigo em uma sigla do campo de centro-esquerda (já passou pelo PDT e pelo PSB). Qual, no entanto? O problema é que restam muito poucas opções. Se a fusão com o PPS não der certo, sobra muito pouco para Audifax. É por isso que ele está apostando tudo em sua concretização.

Qual era a estratégia?

Se Paulo Hartung (agora sem partido) tivesse sido candidato à reeleição, o conselho de campanha de Casagrande não pretendia “perder tempo” tentando rebater e descolar de cima dele o rótulo de gestor irresponsável do ponto de vista fiscal. Mesmo que evidentemente não concorde com o rótulo, um conselheiro de Casagrande admite que Hartung teve êxito na construção dessa narrativa. Ou seja, o rótulo pegou. Como a campanha era curta, eles iam focar no futuro, nas propostas para o próximo governo. E mostrariam problemas do atual.

Manato demorou

Desde o início, o monitoramento dos analistas de Casagrande captou um sentimento anti-PT arrasador também entre os capixabas. Eles consideram, inclusive, que Manato demorou demais para tentar direcionar esse sentimento para cima de Casagrande. Desde o início, Manato colou sua imagem à de Bolsonaro. Mas só na reta final tentou associar Casagrande à esquerda e ao PT, chamando-o até de “vermelho” em debates. A estratégia lhe rendeu pontos preciosos. Se tivesse investido nela antes...

Quem pode condená-lo?

Ou seja: pelo jeito nem Manato acreditou plenamente no potencial dessa estratégia de investir tudo no maniqueísmo que demonizou a esquerda e que tomou conta do país. É uma dicotomia primitiva, sem nuances, sem profundidade... mas colou em muitos Estados!

Quem teria acreditado?!?

É preciso dar um desconto para Manato. Ninguém na verdade esperava o grau de sucesso atingido por essa estratégia da dicotomia “direita bom; esquerda ruim”.

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