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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica aqui, diariamente, informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Ascensão, queda e desafios do PT no ES em seu aniversário de 40 anos

Após viver dias de glória na política do Estado há muito poucos anos, partido mergulhou em queda livre e hoje convive com o antipetismo, um fenômeno de alcance nacional, mas especialmente forte no ES

Publicado em 24/02/2020 às 05h00
Atualizado em 24/02/2020 às 05h01
O barco do PT no ES. Crédito: Amarildo
O barco do PT no ES. Crédito: Amarildo

Em seu aniversário de 40 anos, completados no último dia 10, o PT não tem muito a comemorar, especialmente no Espírito Santo. No Estado, o Partido dos Trabalhadores tem muito trabalho a fazer, e também muitas reflexões, se quiser recuperar sombra do brilho que já teve outrora. Não faz muito tempo, tal como no resto do país, o PT capixaba viveu seus dias mais gloriosos, mas estes deram lugar aos anos de acelerada decadência que sobrevieram, culminando com a mais aguda crise da história do partido também aqui. No Espírito Santo, a história do PT neste século é uma narrativa de ascensão e queda.

Os “dias gloriosos” começam quando Lula sobe a rampa do Planalto, em 2003. De 2005 a 2012, o PT governou duas das principais vitrines políticas do Espírito Santo: Vitória, com João Coser, e Cariacica, com Helder Salomão. Ambos foram eleitos em 2004 e reeleitos em 2008. Nessa mesma eleição, o partido emplacou os prefeitos de duas das maiores cidades do interior capixaba: Carlos Casteglione em Cachoeiro e Leonardo Deptulski em Colatina – ambos reeleitos em 2012. É preciso frisar este fato: em 2008, o PT elegeu, no Espírito Santo, os prefeitos de quatro dos sete maiores colégios eleitorais. De 2009 a 2012, o partido chegou a governar, simultaneamente, essas quatro cidades. Não é pouca coisa, mas tem mais.

No mesmo período – precisamente, em 2010 –, o partido fez o vice-governador do Espírito Santo: Givaldo Vieira, eleito com Renato Casagrande (PSB). De quebra, com a passagem do então senador socialista para o Palácio Anchieta, o PT ganhou, de bandeja, uma cadeira no Senado pela bancada do Espírito Santo: sem ter recebido um só voto, a primeira suplente de Casagrande, Ana Rita Esgário, ascendeu à posição de senadora, de 2011 a 2014.

Por essa conjugação de fatores, considero que esse intervalo de quatro anos, de 2009 a 2012, corresponde ao ápice político do PT no Espírito Santo, coincidindo com a virada do governo Lula para o governo Dilma na Presidência da República. Podemos dizer que, nesse momento histórico, o PT capixaba fez barba, cabelo e bigode – nos padrões capilares daquele Lula líder sindical que emergiu no ABC paulista em fins dos anos 1970.

Se pararmos para pensar, não faz muito tempo que se registrou esse apogeu. Foi logo ali, na última curva da história.

O COMEÇO DA QUEDA

Mas, justamente nos anos seguintes, o partido começa a entrar em queda vertiginosa, em nível nacional, com rebatimentos fortíssimos no cenário político estadual. Em 2013, há as grandes manifestações de rua. Iniciadas como um protesto de partidos e movimentos de esquerda contra o aumento da passagem de ônibus em São Paulo, estas acabam aglutinando ativistas de direita até então dispersos que se organizaram em movimentos cívicos.

Em 2014, começa a Operação Lava Jato, atingindo em cheio o PT ao pôr a nu o envolvimento do partido em escândalos de corrupção para se manter no poder central. Raspando, Dilma consegue se reeleger naquele ano. Mas, nos dois anos seguintes, explode a recessão “como nunca antes na história do país”, resultante de políticas econômicas equivocadas implantadas pelo primeiro governo Dilma. Nos mesmos anos, entram em erupção os protestos populares do “Fora Dilma”, em paralelo à conspiração política que uniu o PMDB de Cunha e Temer, o PSDB de Aécio, o centrão no Congresso e setores da sociedade para apear a presidente do poder, culminando com o impeachment de Dilma, em agosto de 2016.

Em meio a esses acontecimentos, desenvolve-se em segmentos da sociedade brasileira uma rejeição ao PT sem precedentes e sem paralelo com outro partido no Brasil: o chamado antipetismo, do qual Jair Bolsonaro viria a ser o maior capitalizador e o maior beneficiário político.

Nas eleições municipais de 2016, as urnas já foram muito cruéis com os candidatos do PT no país inteiro, mas particularmente no Espírito Santo. E então constatamos que o antipetismo, um fenômeno de abrangência nacional, foi particularmente impactante no Espírito Santo. Aquele mesmo partido que havia elegido uma quadra de prefeitos em quatro das sete maiores cidades oito anos antes, dessa vez obteve o resultado pífio (vexatório para um partido de seu porte), fazendo somente um prefeito nos 78 municípios capixabas e, mesmo assim, na modesta cidade de Barra de São Francisco, com seus 44 mil habitantes.

Na eleição parlamentar daquele ano, o desempenho não foi menos sofrível. Contando os 78 municípios, o partido de Lula só fez 27 vereadores no Espírito Santo. Nas câmaras de Vitória e de Vila Velha, não emplacou nem um sequer. Hoje, dos 74 assentos de vereador existentes em Vitória, Vila Velha, Serra e Cariacica, o PT só ocupa dois, com André Lopes na Câmara de Cariacica e Aécio Leite na da Serra – e o nome desse último, obviamente, corresponde a uma cruel ironia.

Em 2018, a onda anti-PT bateu mais forte que nunca no Estado e produziu novos ecos nas urnas. Na Assembleia Legislativa, a bancada do PT caiu para uma só deputada, Iriny Lopes – enquanto o partido elegera três em 2014. Na Câmara Federal, o PT até conseguiu fazer um deputado federal, mas também aí sua bancada encolheu, pois quatro anos antes fizera dois (Helder e Givaldo)

No mesmo ano, as candidatas do PT ao governo do Estado, Jackeline Rocha, e ao Senado, Célia Tavares, tiveram votações muito fracas, basicamente oriundas da militância enraizada (o voto petista raiz). Na corrida à Presidência, Fernando Haddad teria perdido no 1º turno para Bolsonaro, se a “República do Espírito Santo” respondesse pelo Brasil.

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