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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Arnaldinho: voto da mudança, inclusive de papéis entre ele e Max

Vereador se projetou fazendo oposição a Max nos últimos quatro anos. Agora, será ele e o prefeito, estará na vitrine e precisará dar as respostas que cobrava da atual gestão, enquanto atual prefeito, mesmo sem mandato, deve fazer-lhe oposição

Publicado em 01/12/2020 às 12h55
Atualizado em 01/12/2020 às 14h16
Arnaldinho venceu a corrida rumo à Prefeitura de Vila Velha
Arnaldinho venceu a corrida rumo à Prefeitura de Vila Velha. Crédito: Amarildo

A vitória do vereador Arnaldinho Borgo (Podemos) na eleição para prefeito de Vila Velha foi a vitória de um “voto pela mudança” na segunda maior cidade capixaba, contrariando, inclusive, a preponderância do “voto seguro”, pelo “continuísmo” ou pelo “já conhecido”, observada na maioria dos outros maiores municípios do Estado. Como já formulamos aqui, essa não foi, majoritariamente, a eleição da mudança, e sim a da lembrança e da segurança. Em Vila Velha, com o triunfo de Arnaldinho sobre o prefeito de Max Filho (PSDB), deu-se o contrário.

Mas é preciso salientar que a expressiva vitória de Arnaldinho representa não só uma mudança no assento de prefeito como também uma significativa inversão de papéis no ecossistema político da cidade: Arnaldinho projetou-se politicamente fazendo da tribuna da Câmara de Vila Velha um bunker e praticando uma oposição ruidosa, incansável e implacável ao prefeito Max Filho. Agora, de principal opositor da prefeitura, passa à condição de prefeito.

Quem era seta vira alvo, e vice-versa. Quem até então era pedra, agora vira vidraça. Não foi só o poder que mudou de mãos em Vila Velha. O estilingue também.

Max Filho sai dessa eleição muito mordido com Arnaldinho, que, realmente, passou do tom do deboche em alguns momentos e foi até desrespeitoso algumas vezes (dizendo, por exemplo, que não faz parte da “laia política” de Max, em um debate televisivo). Mas também recebeu do prefeito alguns ataques pessoais desrespeitosos e até apelativos (um grande erro da campanha do prefeito e que lhe custou muito caro). Enfim, foi uma campanha de golpes abaixo da linha da cintura, dos dois lados.

Numa coisa, porém, Max acertou: muitas vezes Arnaldinho exagerava na crítica, na dramatização e na generalização, sem que as reclamações fossem acompanhadas por soluções para os problemas sublinhados. Quem o ouvia em entrevistas e debates tinha a impressão de que “nada funciona em Vila Velha” e que a cidade está abandonada, porque ele mesmo literalmente dizia isso, enquanto candidato. Nada, absolutamente “nada”, funciona em Vila Velha? Difícil crer.

A partir de 1º de janeiro, Arnaldinho deverá guardar a retórica exagerada da campanha na gaveta de sua escrivaninha, no gabinete do prefeito que ele herdará de Max. E caberá a ele então dar as respostas prometidas, as mesmas que ele mesmo cobrava enfaticamente e que o povo de Vila Velha agora aguarda ansiosamente, com o dinamismo anunciado por ele (ponto fraco da gestão de Max) e com respeito à coisa pública (ponto forte do atual prefeito).

Uma vez na prefeitura, em vez de pedra, Arnaldinho será a vidraça. Administrar Vila Velha será para o jovem e ascendente político, de carreira promissora, uma vitrine para o bem e para o mal. Pode ajudá-lo a se projetar ainda mais, se ele ali expuser belos produtos (entregas, obras, investimentos, políticas públicas, serviços de qualidade).

Ambicioso, operoso e “cheio de energia”, Arnaldinho saiu das urnas com altíssimo capital político, como o prefeito mais votado na Grande Vitória, com cerca de 69% dos votos válidos. Tem que aproveitar a lua de mel com o eleitorado e não deixar que seu fenômeno de popularidade acabe em fenômeno de populismo.

Se ele for bem nesse mandato, de 2021 a 2024, ninguém segura esse “menino” (como ele mesmo, num ato falho, definiu-se no já citado debate com Max, para logo depois se corrigir). Nem vai precisar do conhecido energético para ganhar asas políticas.

Por outro lado, uma vez na prefeitura, ele ficará exposto como nunca antes esteve a críticas, a cobranças e à atuação de uma oposição implacável até então representada por ele. E, em vez de criticar, terá agora que responder e corresponder; cumprir, realizar e entregar os resultados necessários, em um momento particularmente dificílimo para qualquer um governar.

A cidade de Vila Velha não espera menos de sua mais nova grande aposta.

SOBRE ENERGÉTICOS E ISOTÔNICOS

Em julho, na final da Taça Rio, o Flamengo foi derrotado em disputa de pênaltis pelo Fluminense, com uma cobrança perdida pelo lateral direito Rafinha. Este construiu sua carreira no campeoníssimo Bayern de Munique, da Alemanha, mas ficava em alguns jogos no banco de reservas. Para gozar do adversário, torcedores do Fluminense passaram a dizer que a especialidade de Rafinha na Alemanha era distribuir garrafas de um famoso isotônico para os companheiros.

Aí veio a final definitiva do Campeonato Carioca (a que realmente importava), na qual o Flamengo deu o troco, derrotando o Fluminense. Na comemoração do título, ainda no gramado, Rafinha encheu as mãos de garrafas do isotônico e, entre gargalhadas, distribuiu-as para os demais jogadores rubro-negros. Ressignificou a brincadeira.

Na noite do último domingo (29), em sua festa da vitória, Arnaldinho fez a mesma coisa: diante da imprensa e da legião de apoiadores, fez questão de abrir e tomar, entre risos, uma latinha do famoso energético que Max Filho, no debate de A Gazeta e CBN, havia usado contra Arnaldinho para debochar do adversário.

Arnaldinho Borgo comemora com a bebida Red Bull sua vitória ao cargo de prefeito de Vila Velha. Durante a campanha Max Filho, candidato a reeleição derrotado, chamou Arnaldinho  de candidato Red Bull
Arnaldinho Borgo comemora com a bebida Red Bull sua vitória ao cargo de prefeito de Vila Velha. Durante a campanha Max Filho, candidato a reeleição derrotado, chamou Arnaldinho de "candidato Red Bull". Crédito: Carlos Alberto Silva

TÁ NA MÉDIA

Quando Max Filho elegeu-se prefeito pela primeira vez, no ano 2000, tinha 32 anos. Quando Neucimar Fraga (PSD) chegou lá, em 2008, tinha 42. Somando e dividindo por dois, dá 37 anos… que vem a ser precisamente a idade que Arnaldinho soma hoje. Ou seja, está na média.

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