A série de sabatinas de A Gazeta e CBN Vitória com candidatos
a governador do Espírito Santo evidenciou algumas diferenças importantes entre
o governador Ricardo Ferraço (MDB) e o ex-prefeito de Vitória Lorenzo Pazolini
(Republicanos). Mas, curiosamente, também explicitou algumas grandes
semelhanças, pelo menos do ponto de vista retórico, do discurso de campanha
construído por cada um.
A retórica eleitoral de ambos se assemelha, principalmente,
quando são “chamados” a se posicionarem sobre questões de fundo mais ideológico
e, acima de tudo, quando instados a definirem a si mesmos pelo critério
ideológico. Pazolini chegou a dizer que sua gestão em Vitória foi de centro-direita.
Ricardo recusou-se a assumir para si uma identidade. “Centro”, “centro-direita”,
“direita”? – perguntou-lhe, em vão, a colunista Letícia Gonçalves. Ele não se
deu uma classificação.
Nesse aspecto, a estratégia discursiva dos dois se aproxima
bastante: tanto o governador como o ex-prefeito de Vitória estão buscando apresentar-se como candidatos moderados, equilibrados e muito
mais preocupados com os interesses do Espírito Santo do que com pautas e
definições ideológicas.
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Quando perguntamos a Ricardo quem ele apoia na eleição
presidencial, o candidato do MDB respondeu:
Eu sou e vou continuar sendo 100% Espírito Santo. [...] Nós
achamos que submeter o Espírito Santo à polarização ideológica é como você
colocar em segundo plano o interesse maior do dia a dia dos capixabas.
Ricardo Ferraço (MDB), governador e candidato ao mesmo cargo
Diante da minha insistência, o governador esquivou-se com esta:
Vitor, você me pergunta se o meu lado é o lado A ou o lado B. Eu
não tô do lado do A, nem do B. Eu tô do lado do Espírito Santo.
Ricardo Ferraço (MDB), governador e candidato ao mesmo cargo
No dia seguinte, quando perguntei a Pazolini se ele é “bolsonarista”, o candidato do
Republicanos não disse nem que sim nem que não. Respondeu assim:
Sou sempre alguém a favor da boa gestão.
Lorenzo Pazolini (Rep), candidato a governador
Em sua entrevista, Ricardo falou contra a “brigalhada
ideológica”.
Veja que, nessa trajetória de sucesso que o Espírito Santo
construiu, nós nunca vimos o Estado submetido a essa brigalhada ideológica.
Ricardo Ferraço (MDB), governador e candidato ao mesmo cargo
Em outro ponto da sabatina, ele afirmou que “ideologia não bota comida na mesa”:
Ideologia não bota comida na mesa do povo. Ideologia não gera
emprego, não gera trabalho. O que gera emprego, trabalho, desenvolvimento e
prosperidade é o foco no trabalho e nos resultados, na organização do Espírito
Santo.
Ricardo Ferraço (MDB), governador e candidato ao mesmo cargo
Pazolini fez a mesma crítica, também usando o substantivo
“brigalhada”, que não “coloca comida na mesa”:
E é isso que nosso Brasil precisa: vencer essa brigalhada,
vencer esse conjunto de discussões que às vezes não estão mudando a vida das
pessoas, pra que nós possamos de fato melhorar a vida de quem precisa, colocar
comida na mesa.
Lorenzo Pazolini (Rep), candidato a governador
Ainda disse o ex-prefeito:
Essa discussão às vezes se torna pueril, estéril, e acaba não transformando a vida das pessoas.
Lorenzo Pazolini (Rep), candidato a governador
O surpreendente crescimento de Augusto Cury (Avante),
aferido pelas mais recentes pesquisas de intenção de voto para a Presidência,
talvez possa ser lido como um sintoma, um sinal de que os brasileiros em geral
estão cansados da polarização ideológica histérica e estéril entre esquerda e
extrema-direita (ou, mais precisamente, entre o petismo e o bolsonarismo).
As campanhas de Ricardo e de Pazolini parecem atentas a isso. E, ao menos na retórica política, no discurso eleitoral, os dois hoje poderiam até estar de mãos dadas no mesmo palanque.
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