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Obituário

Anjo negro chega tocando gaita ao céu dos eleitores do ES

Homenagem poética da coluna a Dona Leopa, a eleitora mais velha do Estado, que se foi nesta sexta-feira (9), deixando-nos um exemplo de vida e de consciência política

Publicado em 09 de Outubro de 2020 às 18:16

Públicado em 

09 out 2020 às 18:16
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Dona Leopa bate asas e chega ao céu com seu sorrisão
Dona Leopa bate asas e chega ao céu com seu sorrisão Crédito: Amarildo
O exercício do jornalismo não é fácil, mas às vezes nos proporciona momentos muitos especiais e a oportunidade de conhecer personagens bem marcantes. Nenhum deles até hoje me marcou tanto como a senhora Leopoldina Nascimento, ou, simplesmente, dona Leopa, que se foi na madrugada desta sexta-feira (9), aos 115 anos de idade. Por mais de uma década, a velhinha simpática, sempre com um sorrisão no rosto, ostentou o "título" de eleitora mais velha do Espírito Santo.
Sua história de vida se confunde com a do Brasil República. Era um exemplo de simplicidade, bom-humor, lucidez e consciência política. Até o fim, fez questão de ir às urnas, a cada dois anos. Assim, a cada par de anos, entrevistar a senhora negra, filha de escravos, era uma espécie de agradável tradição da Editoria de Política. 
Em duas dessas oportunidades, nas eleições de 2008 e 2014, fui o repórter responsável por entrevistá-la. Na última ocasião, em um asilo em Cariacica, promovemos um encontro único, entre ela e o adolescente Calebe. O rapaz (também negro) completaria 16 anos no dia da votação, o que o tornava o eleitor mais jovem do Espírito Santo naquele pleito. Desse encontro nasceu poesia (gênero amado por ela). E é a história desse abraço, a última vez que vi dona Leopa, que recontamos abaixo, em versos:
Poema para Dona Leopa - parte 1

Ele em breve apagará as velinhas
Já a luz da velhinha não se apaga
A alegria de antes se alarga
E distante vê-se o fim da linha.

O primeiro chama-se Calebe,
Um rapaz esperto, inteligente
Tem a vida inteira pela frente
E um projeto ousado já concebe:

Hoje cursa só o primeiro ano
Mas a voos altos se destina
Resoluto afirma, sem engano:
“Vou me graduar em Medicina”.

A outra já não é bem uma menina
Mas mantém a juventude a toda prova
Se o corpo é velho, a alma é nova
Com vocês a Dona Leopoldina.

Cujo nascimento, sem berçário,
No início do século vinte,
Prometia uma vida sem requintes
Em seus mais de cem aniversários.

De oito irmãos era a segunda filha
Aliás, filha de um escravo liberto
Seus pais sem um centavo, assim decerto
Foi trabalhar em “casa de família”

Estudos, só até a terceira série
Contudo, espanta por sua cultura
E encanta a todos com a figura
Que os 109 anos lhe conferem.

Nascida na Região Serrana
Aos 21 foi para Cachoeiro
Até que veio o pouso derradeiro:
Tornou-se outra metropolitana.

Duas figuras tão diferentes
Com idade e história tão diversa
Em duas extremidades inversas
Dois extremos, aparentemente.

Como, afinal, aproximá-las?
Qual pode ser a afinidade?
O que pode haver que os iguala
Apesar dessa disparidade?

É que ambos, em pé de igualdade,
Vão exercer em breve o direito
De manifestarem sua vontade
Com seus votos no próximo pleito

Ajudando a erguer o edifício
Da nossa jovem democracia
Nesse tão importante exercício
De política e cidadania

Na foto, posando lado a lado,
São eles, respectivamente,
O mais novo e a mais “experiente”
Eleitora deste nosso Estado.

Data: 11/09/2014 - ES - Cariacica - Calebe, 16 anos, vai votar pela primeira vez, Leopoldina, 109 anos, conhecida como Dona Leopa, não abre mão de sempre exercer o seu direito de votar
Data: 11/09/2014 - ES - Cariacica - Calebe, 16 anos, vai votar pela primeira vez, Leopoldina, 109 anos, conhecida como Dona Leopa, não abre mão de sempre exercer o seu direito de votar Crédito: Fernando Madeira
Poema para Dona Leopa - parte 2

Calebe é o debutante:
No dia em que completa 16
Vai votar pela primeira vez
E sempre voltar daqui em diante.

Fez questão de tirar o seu título
Não só para entrar na estatística
Mas para participar mais da política
Envolvimento do qual é, pois, um símbolo

Afinal, apesar da mocidade
E da sua pouca experiência,
Calebe prova que a consciência
Não tem nada a ver com a idade.

“Não quero mais ter desculpa
E ser sujeito oculto
Não quero mais pôr a culpa
Nas decisões dos adultos.”

Já a nossa Dona Leopoldina
Só veio a votar muito depois
Pois a participação feminina
Só seria aprovada em 32.

Porém, o seu primeiro “xis”
Ela só daria em 50
E, a partir daí, atenta,
Deixar de votar nunca mais quis.

E logo a gente descobre
Que era uma fã do “Pai dos Pobres”
E sempre votava, com orgulho,
No PTB de Getúlio.

Dos tempos de ditadura
Se recorda, porém, com amargura:
“Longe vá”, diz a longeva,
“Aquela período de trevas”.

Dona Leopa é dona
De invejável memória
Carrega e conta a história
Do Brasil na sua poltrona.

A matrona é mesmo peça única
E se mostra grande patriota
Tira de sua gaitinha as notas
De todos os hinos da República.

Chega a recitar Castro Alves
O poeta da abolição
Declama ela: “Deus nos salve
E salve nossa nação”

Calebe respeita e venera
A senhora de tantos pleitos
Se inspira nela e espera
Poder chegar lá do mesmo jeito.

Ao votar pela primeira vez,
Deseja a mesma lucidez
E atingir tão avançada idade
Com a mesma tenacidade.

Leopoldina recebe o adolescente
De braços abertos, em sua sala,
E, muito mais do que fortuna
E muita saúde para alcançá-la
Deseja-lhe, pura e simplesmente,
Muita luz e muita inteligência
Para que, no encontro com a urna,
Vote com a mais alta consciência
Um voto bem pensado e certeiro
Dado ainda na adolescência
E que seja esse o primeiro
De muitos bons votos em sequência.
No dia em que ele apaga as velas
Quem nos dá o maior presente é ela
Com a lição que resiste ao tempo
E da qual tanto necessitamos
Assim também a todos desejamos
Um bom voto, inspirados neste exemplo

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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