“Aprendi com Paulo Hartung que política é maratona, não é corrida de cem metros.” O aprendiz em questão é Amaro Neto, e a alusão que ele faz ao ex-governador é especialmente curiosa pela posição ocupada pelo deputado federal neste momento – semelhante à ocupada pelo próprio Hartung em muitas eleições passadas. Até o pleito de 2018, Hartung era o centro do tabuleiro eleitoral, e todas as peças a seu redor tomavam as próprias decisões em função daquilo que o então governador decidisse fazer. Ciente disso, Hartung costumava “segurar” o processo, deixando para anunciar a sua decisão no limite do prazo legal.
Desta vez, nas eleições municipais deste ano, Amaro é quem ocupa o centro das atenções gerais e das interrogações no Espírito Santo. Mas o deputado aprendeu a jogar com o tempo e pretende usá-lo até o limite, tal como Hartung costumava fazer. Isso significa que ele deve esperar até a reta final do calendário eleitoral para dar duas respostas ansiosamente aguardadas por todo o meio político capixaba (incluindo aliados e adversários, pré-candidatos e dirigentes partidários de toda a Grande Vitória): Amaro será candidato a prefeito? E, se o for, em qual município será?
Hoje, segundo o próprio, todas as opções estão sobre a sua mesa: ser candidato a prefeito de Vitória, da Serra, de Cariacica, de Vila Velha, ou, inclusive, não ser candidato a nada. E atenção: a “reta final” a que Amaro se refere para tomar a sua decisão não é agora, no início de abril, mas sim no início de agosto, quando termina o prazo para os partidos realizarem as respectivas convenções. Explico.
No dia 4 de abril, teremos o prazo fatal para duas definições: até essa data, todos os pré-candidatos deverão estar filiados ao partido pelo qual concorrerão e com o domicílio eleitoral devidamente registrado na cidade onde disputarão o pleito. Depois disso, “ninguém entra, ninguém sai”.
Para Amaro, o primeiro ponto (prazo para filiação partidária) é irrelevante: muito bem acomodado no Republicanos, ele nem cogita trocar de partido. Já o segundo ponto dará ao mercado político uma primeira pista importante (mas não definitiva) sobre o que ele poderá fazer, uma vez que reduzirá, automaticamente, o seu leque de opções a duas: ser candidato na cidade onde estiver seu título ou não disputar a eleição.
Hoje, seu domicílio eleitoral está em Vitória. Se ele o mantiver ali, suas opções se restringirão a disputar a prefeitura da Capital ou cargo algum este ano. Mas, por exemplo, se ele transferir o título para a Serra, saberemos, no dia 4 de abril, que, se ele for candidato a prefeito, só poderá disputar a sucessão de Audifax Barcelos. Isso se ele for candidato. Amaro prefere manter a questão em aberto.
“Tenho as seguintes opções: ou disputar em uma das cidades da Grande Vitória ou não disputar. Este primeiro momento é só de filiação partidária e de domicílio eleitoral. Querem antecipar muito a questão eleitoral. Da minha parte, será definido na reta final. Mas, quando eu decidir na reta final, não quer dizer que serei candidato. Isso vai depender de algumas coisas”, despista Amaro.
"Agora eu posso mudar meu título para algum município ou mantê-lo em Vitória. Mas isso também não quer dizer necessariamente que serei candidato. Vou trabalhar com o tempo"
Amaro considera sinceramente não ser candidato na eleição municipal deste ano – hipótese levada tão a sério por ele quanto as demais. “Se eu não disputar em lugar nenhum, posso rodar o Estado inteiro e ajudar a eleger outros candidatos do meu grupo. Se eu conseguir ser candidato, ok. Se eu não conseguir, vou ajudar os parceiros para, em 2022, abrir um espaço: pode ser reeleição à Câmara, pode ser o Senado, pode ser o governo do Estado.”
Essa última declaração de Amaro merece ser sublinhada, pois levanta um fator fundamental em sua tomada de decisão. Como não é segredo para ninguém, o deputado tem por grande meta chegar ao Palácio Anchieta. Dependendo das condições políticas, pode candidatar-se ao governo já na próxima eleição. Sua decisão sobre candidatura este ano passa diretamente por 2022.
Supondo que ele dispute uma prefeitura em outubro e ganhe, essa vitória pode ter um efeito colateral ruim para ele, representando-lhe uma trava para disputar o governo já em 2022. Ele até poderia fazê-lo, como Doria fez em São Paulo, mas teria que abandonar a prefeitura com um ano e quatro meses de mandato. Amaro estaria disposto a dar uma de Doria capixaba?
"Terei muita prudência. Não posso dizer se vou disputar ou não o governo em 2022 caso me torne prefeito. Vai depender muito do ambiente. Max Filho teve uma chance de ouro em 2018 e acabou não disputando o governo."
O fato é que, ganhando ou perdendo uma eleição a prefeito (principalmente perdendo), entrar nessa disputa talvez tenha mais a atrapalhar do que a ajudar o seu projeto de chegar ao governo do Estado. Amaro, cumpre lembrar, já perdeu uma eleição municipal – à Prefeitura de Vitória, em 2016.
Se ele disputar uma prefeitura este ano e perder, acumulará a segunda derrota seguida para o Executivo municipal, queimando assim capital político. Por outro lado, se tornar-se prefeito e for mal na gestão, perde ainda mais capital político, além da aura de novidade não testada em uma possível eleição para o Executivo estadual.
Pensando na próxima eleição ao governo, disputar uma prefeitura este ano tem mais a ajudá-lo ou a atrapalhá-lo? Amaro responde: “Vamos a um cenário em que eu vire prefeito: posso disputar o governo em 2022 ou não. Cenário de eu não disputar nada este ano: preciso eleger alguns prefeitos aliados para poder disputar o governo. Cenário de eu não disputar nada este ano, ou disputar e perder, e ser sufocado pela máquina do governo e pela máquina da prefeitura onde eu perder: eu só poderei ser candidato a deputado federal em 2022”.