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Vitor Vogas

"Agora é para ontem": o que deu muito errado na estratégia de Ricardo e Casagrande

Coluna analisa em detalhes a combinação de fatores que influiu na vitória de Pazolini no 1º turno, os possíveis erros estratégicos do Palácio Anchieta e o que ainda se pode mudar para reverter a derrota de domingo

Publicado em 06 de Outubro de 2026 às 08:35

Públicado em 

06 out 2026 às 08:35
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas
Máscaras de Ricardo Ferraço e Renato Casagrande
Máscaras de Ricardo Ferraço e Renato Casagrande Rodrigo Zaca/Divulgação

O governador Ricardo Ferraço (MDB) foi salvo pelo gongo, no domingo (4), de sofrer uma derrota contundente para seu desafiante, Lorenzo Pazolini (Republicanos). Uma derrota de Ricardo no primeiro round teria sido, por extensão, um revés político histórico para o ex-governador Renato Casagrande (PSB), fiador da candidatura do seu outrora vice-governador.


Antes do fim da contagem preventiva do juiz, o gongo soou, dando uma sobrevida ao atual detentor do cinturão. Ricardo pôde dirigir-se a seu corner para buscar recobrar as forças, receber as orientações de sua comissão técnica (Casagrande incluído) e voltar à luta agora no segundo assalto – segundo ele e Casagrande, “um novo jogo”. Por 0,36 ponto percentual, diferença que faltou para Pazolini atingir a maioria simples dos votos válidos, temos agora o segundo turno.


Mas, para ter alguma chance de virada no melhor estilo Rocky Balboa, Ricardo e sua equipe precisam antes de tudo identificar e reconhecer os erros de estratégia e avaliação cometidos ao longo da campanha – pois erros houve – e corrigi-los antes que seja tarde. “Agora é o futuro”, repetiu Ricardo durante todo o primeiro turno. Mas, para ele mesmo ter algum futuro no governo, o mote da campanha precisa ser urgentemente adaptado: “Agora é para ontem”.


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O resultado das urnas veio muito abaixo do que indicavam pesquisas até a véspera e muito aquém do esperado por Ricardo e seu comitê de campanha.


O candidato de Casagrande tem a máquina estadual nas mãos desde abril, uma boa cartela de realizações para apresentar, um governo sanado e organizado, números da violência em queda, investimentos em alta, apoio maciço da classe política capixaba (quase todos os prefeitos do Espírito Santo, salvo a de Vitória e o de Colatina, considerando as maiores cidades). 


Mesmo assim, não conseguiu obter a maior parte dos votos. Não conseguiu convencer mais eleitores que o ex-prefeito de Vitória, cuja campanha é bem menor e não conta com quase nenhum apoio no interior do Estado.


Se nada saiu como o previsto, é inevitável a conclusão de que algo deu muito errado.


Na primeira entrevista do segundo turno, concedida em frente à Residência Oficial, Ricardo, mais de uma vez, foi questionado sobre o que deu errado no primeiro turno. Teve a oportunidade de reconhecer possíveis erros. Preferiu não o fazer. Atribuiu a arrancada de Pazolini nos últimos dias de campanha a uma “nacionalização” das eleições estaduais.

Em entrevista à coluna, evitando falar em erros e acertos, Casagrande seguiu linha similar:

 

“A razão principal foi a força do movimento bolsonarista dos eleitores vinculados a uma posição mais extremada à direita que deram um reforço à campanha de Pazolini. Esse vento bolsonarista fez o adversário crescer e conteve o crescimento de Ricardo. Agora é outra campanha, e caberá ao marketing mostrar que o sentimento dos bons resultados que temos é superior ao sentimento ideológico”.

“Onda bolsonarista” não é tudo

De fato, no país inteiro, o bolsonarismo fez valer sua força – com uma intensidade relativamente inesperada. Mais uma vez, e até mais que em 2018 e 2022, as seções eleitorais foram inundadas por uma enxurrada de votos da extrema direita. Visivelmente, o eleitorado brasileiro votou com o fígado – inclusive, contra o STF.


Irrefutável, a “onda bolsonarista” varreu as urnas também no Espírito Santo, impulsionando os candidatos marcadamente bolsonaristas – vide o excelente desempenho de candidatos do PL nas eleições parlamentares, como o fenômeno Lucas Polese, e a arrancada de Evair de Melo (Republicanos) rumo à segunda vaga no Senado.


Mas, no caso específico de Pazolini, acredito que essa explicação seja insuficiente e precise ser relativizada. A força da onda bolsonarista certamente ajudou a impulsionar, em alguma medida, o candidato do Republicanos. Afinal, sendo ele o candidato apoiado pelo PL e por Flávio Bolsonaro, certamente foi, por eliminação, o escolhido pelos eleitores mais fervorosos da família Bolsonaro (aqueles que só votam em candidatos com o selo JB).


Por outro lado, diferentemente de outros candidatos a governador país afora, como Douglas Ruas no Rio de Janeiro e tantos outros, Pazolini em momento algum “nacionalizou” a campanha estadual – ao contrário, fugiu disso nos debates e sabatinas. Assim como o próprio Ricardo, esquivou-se de embates ideológicos, só tratou de Espírito Santo (superficialmente ou não, é outra discussão), nem sequer mencionou Flávio Bolsonaro, Lula etc. e jamais usou a imagem do candidato à Presidência do PL em sua campanha.


A avalanche ajudou? Ajudou. Mas, na minha avaliação, o peso do bolsonarismo foi relativo. Há outros fatores envolvidos.

A perda da Grande Vitória 

Na Grande Vitória, por exemplo, em termos de apoios políticos, Ricardo e Casagrande ergueram um pretenso “muro de contenção” ao redor de Vitória, isolando a Capital. O atual governador tem o apoio dos prefeitos de Cariacica (Euclério Sampaio), Vila Velha (Arnaldinho Borgo), Serra (Weverson Meireles e o padrinho político do prefeito, Sergio Vidigal) e Viana (Wanderson Bueno, coordenador da campanha de Ricardo). Esse cinturão de prefeitos apoiadores não se converteu em transferência de votos.

Foi justamente na Grande Vitória que Ricardo sofreu suas derrotas mais sentidas. Se dependesse de Serra, Vila Velha e Vitória, Pazolini teria vencido em primeiro turno, com o dobro de votos nos dois primeiros casos. Na Serra, o placar foi 52% a 26% a favor de Pazolini. Em Vila Velha, 54% a 27%. Claramente, mesmo com as máquinas municipais e a estadual nas mãos, faltou chegar a esse eleitor metropolitano.

Outra reflexão cabível é: numa eleição estadual, até que ponto líderes municipais realmente conseguem transferir votos?  

Casagrande não conseguiu transferir seu capital

A pesquisa Quaest para a Rede Gazeta publicada no dia 25 de setembro revela dois aparentes paradoxos.


Em primeiro lugar, o governo de Ricardo é até bem avaliado: para 41%, a avaliação é positiva; para 34%, regular; só 7% o avaliam negativamente.


Em segundo lugar, a grande maioria dos entrevistados (62%) entende que Casagrande “merece eleger seu sucessor”. Só 25% acham que não. Ora, Ricardo já é, desde abril, o sucessor de Casagrande. Essa boa avaliação, inclusive, pode ser ainda um eco da excelente avaliação com que o socialista deixou o governo.


De todo modo, impõem-se duas conclusões: 1) A campanha de Ricardo não conseguiu converter boa avaliação de governo em votos; 2) Casagrande não chegou nem perto de transfundir seu capital político para Ricardo e transformar isso em votos para ele.


Uma teoria: Ricardo fez toda a sua campanha calçada no portfólio de entregas do governo nos últimos oito anos, que de fato foram muitas. Mas talvez, só talvez, o eleitor não associe a Ricardo “os bons resultados” do governo e “as transformações do Espírito Santo”, sempre repetidas por ele, mas a Casagrande.


A campanha do ex-vice de Casagrande diz que “agora é o futuro”, ou seja, promete no presente o futuro, mas remete a um passado recentíssimo que a rigor não “pertence” a ele: o futuro está lastreado no pretérito, em uma oração que tem outro sujeito.

O “desejo de mudança”

Adicionalmente, não se pode ignorar o “desejo de mudança” que sempre pesa em qualquer eleição disputada pelo incumbente; um desejo possivelmente represado pelo povo capixaba ao longo de 24 anos de revezamento dos dois mesmos governantes (Hartung e Casagrande) no poder, e que agora pode estar “extravasando”.


Ora, na primeira eleição em 32 anos sem Hartung nem Casagrande disputando o Palácio Anchieta, algo que não ocorria desde 1994, é até certo ponto natural que o capixaba olhe para as opções e busque algo “diferente”.


Ricardo, como o candidato de Casagrande, extensão de seu governo e membro da mesma geração política, pode não ser a primeira escolha de quem prioriza esse critério, buscando o “novo” ou o “diferente”. Essa ideia, para esse eleitor, pode ser melhor encarnada por Pazolini.


É precisamente a ideia que Ricardo e Casagrande procuram combater desde a pré-campanha, alertando para o “risco” de eventual mudança para “algo pior” e argumentando que em time que está ganhando não se mexe, que não há por que se arriscar a mudar o que vem dando muito certo e que Ricardo representa a “continuidade com segurança”.


Ontem, em entrevista a esta coluna, Casagrande tornou a afirmar, como estratégia para o segundo turno:


“A mudança sempre é um componente e uma variável no processo eleitoral. Isso pode estar pesando. Agora, se o capixaba perceber que pode correr risco com essa mudança, ele vai pensar se vai mudar ou não. É por isso que reforçar um eixo de debate em que a confiança e a certeza de que o Estado continuará sendo bem gerenciado por Ricardo pode conter também a força da mudança.”


Como diz Ricardo, e voltou a dizê-lo ontem, em frente à Residência Oficial, sua promessa é a de “manter o Espírito Santo no mesmo rumo e no mesmo ritmo”. Mas talvez grande parte dos capixabas queiram outro rumo, por melhor que seja o atual. 

A campanha nas ruas e nos meios de massa

Como já observei aqui, ao longo do primeiro turno, a campanha de Ricardo na TV e no rádio foi sem graça, sem vibração, sem apelo emocional. Foi uma campanha que não entusiasmou.


Em contrapartida, enquanto a propaganda de Pazolini me parece melhor, o ex-prefeito é conhecido por ser “bom de rua”, no corpo a corpo com os eleitores. Segundo vários relatos, sua campanha, nas andanças e carreatas pelas ruas da Grande Vitória, tem sido marcada por “banho de povo” e calor humano. “As pessoas saem de suas casas espontaneamente para abraçá-lo”, diz um dos aliados do ex-prefeito.

Perfil

Por mais que se busque contornar essa dificuldade, não dá para fugir do dado concreto que se impõe.


O governador tem muitos atributos, muitos dos quais ele mesmo costuma relacionar e é preciso reconhecer: conhecimento, experiência, preparo técnico, capacidade gerencial, energia inesgotável para o trabalho. Colaboradores dele sempre citam tudo isso, e ele mesmo lembrou ontem na primeira entrevista após o baque do primeiro turno:


“Neste segundo turno, pretendemos aprofundar o debate, aprofundar a capacidade, a competência, a coragem, a experiência de quem conhece o Espírito Santo e tem capacidade de proporcionar um futuro cada vez melhor e mais justo para os capixabas [...] para manter o Espírito Santo nesse mesmo rumo e nesse mesmo ritmo. [...] Estou pronto e preparado para levar o Espírito Santo para o futuro.”


Não dá para duvidar de nada disso.


Mas tudo isso talvez não baste. O eleitor às vezes vota com o fígado, mas vota acima de tudo com o coração. O governador de fato tem muitas virtudes, mas carisma não é uma delas. Mudou muito nesse aspecto, é verdade. Mas lhe falta aquela simpatia, aquele sorriso natural e espontâneo, tão importantes num país em que se vota muito mais com a emoção do que com a razão.


Como provam vários estudos, não basta ter os melhores resultados nem os inapeláveis argumentos. Em grande medida, a escolha do eleitor é regida por fatores emocionais e pela identificação pessoal com o candidato.


Sem uma tradução precisa em português, o adjetivo em inglês é relatable. Num filme ou numa série qualquer, o espectador se sente atraído pelo personagem com quem consegue se identificar num nível muito pessoal (com quem “se relaciona” nesse sentido).


Ora, na política é a mesma coisa. Afinal, em uma das suas muitas acepções, o que é a política senão um grande teatro? De sombras, de marionetes, farsa, comédia, tragédia... depende de cada contexto... Mas divago. Perdoem-me a digressão. O ponto aqui é o seguinte: política também é performance, é imagem, é aquilo que o espectador vê. É a composição do personagem.


O perfil do candidato conta muito. E isso pode ter, digamos... pesado. 

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Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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