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Vitor Vogas

Ricardo precisa mais que nunca dos votos da esquerda. Mas será necessária uma DR

Se quiser ter alguma esperança de virar o jogo e lograr uma difícil virada no segundo turno, o governador Ricardo Ferraço (MDB) terá de atrair em peso os votos de Helder – sem correr o risco de perder os da direita. Como fazer isso? É o que analisamos

Publicado em 05 de Outubro de 2026 às 19:20

Públicado em 

05 out 2026 às 19:20
Vitor Vogas

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Vitor Vogas Vitor Vogas
Debate na TV Gazeta com os candidatos ao Governo do ES: Helder Salomão, Ricardo Ferraço, e Lorenzo Pazolini
Debate na TV Gazeta com os candidatos ao Governo do ES: Helder Salomão, Ricardo Ferraço, e Lorenzo Pazolini Carlos Alberto Silva

Não tem jeito: após os resultados colhidos nas urnas no domingo (4), se quiser ter alguma esperança de virar o jogo e lograr uma difícil virada no segundo turno, o governador Ricardo Ferraço (MDB) terá de atrair em peso os votos da esquerda no Espírito Santo – começando, basicamente, pela totalidade dos 323.483 votos dados a Helder Salomão (PT) no primeiro turno.


Na verdade, numa conta simples, esses votos ainda seriam insuficientes para determinar a vitória de Ricardo, com os números de ontem. Somando a própria votação com a de Helder, o governador ainda ficaria a 5.753 votos da marca de Pazolini. Assim, por incrível que pareça, os 20.658 votos de Breno Barcelos (Missão) e Rafael Demuner (UP) foram determinantes para “forçar” o segundo turno.


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Logicamente, esta conta não é tão simples, pois o boletim de urna do primeiro turno não necessariamente se reproduz no segundo, e há uma série de outras variáveis na mesa, como o índice de abstenção (o qual pode mudar de um escrutínio para o outro). Mas repito: basicamente, para ter a mínima expectativa de virada, Ricardo e sua campanha precisam conquistar integralmente esse eleitorado de Helder. Como fazê-lo? Eis a questão.


Tendo realizado uma campanha muito digna, Helder também não fez feio nas urnas. Pelo contrário. Os 15,32% de votos válidos do candidato do PT são capital político para jogo em qualquer lugar do mundo. E agora devem ser trabalhados.


Minoritário no Espírito Santo, o eleitorado de esquerda é maior que os 323.483 votos de Helder – haja vista, por exemplo, a votação de Fabiano Contarato (PT) para o Senado: 521.431.


A conclusão matemática é que, no 1º turno, Ricardo já recebeu parte dos votos da esquerda no Estado, em consequência de uma provável estratégia de “voto útil” antecipada por uma parte desse eleitorado, por absoluta rejeição a Lorenzo Pazolini (Republicanos) – notadamente, em razão da aliança do ex-prefeito de Vitória com o PL e com Flávio Bolsonaro.


A pesquisa Quaest da véspera para a Rede Gazeta mostrou que Ricardo, de fato, tendia a receber mais votos que o próprio Helder entre eleitores lulistas e da esquerda não lulista. Se isso se confirmou matematicamente nas urnas, não temos como saber.


Agora, pela lógica, a campanha de Ricardo deverá buscar intensificar essa estratégia de estímulo ao “voto útil” da esquerda. O xis da questão é: como fazê-lo? Como buscar “captar” esses votos de Helder sem correr o risco de perder os votos já conquistados entre eleitores antipetistas e antilulistas?


Pazolini, é claro, prevaleceu entre esses grupos, mas, com votação ideologicamente pulverizada, Ricardo também há de ter atraído parte deles – e também não pode se dar ao luxo de agora perder esses eleitores do centro para a direita.


Ciente de sua importância multiplicada agora no jogo, o PT tem o passe valorizado no Espírito Santo. O que fará a direção estadual? “Apoio crítico” a Ricardo, apoio integral sem ressalvas, “militância liberada” ou opção pela neutralidade? 

“A iniciativa cabe à parte interessada”

Sob reserva, dirigente de alta patente do partido no Espírito Santo diz que o PT poderá, sim, discutir internamente essa questão, mas somente se for provocado. “A iniciativa deve partir da parte interessada.” Ou seja, o PT a princípio não tomará iniciativa alguma em favor de Ricardo. Ele é quem precisa dos votos e, portanto, é quem deve bater à porta do partido.


Mas vai Ricardo procurar o PT? Complicado para ambas as partes. Primeiro porque, se fizer um gesto muito forte de aproximação com o partido de Lula, o governador correrá aquele risco de desagradar a outra importante fatia de seu próprio eleitorado...


Segundo porque, sendo ele próprio um político de direita, sem nenhum histórico de simpatia pelo PT, Ricardo travou, com Helder, alguns duros embates verbais durante o primeiro turno.


Além das críticas ao atual governo em áreas como mobilidade urbana, o candidato do PT apresentou o emedebista como um “coadjuvante” (de Casagrande) e como uma espécie de inimigo dos trabalhadores e dos mais humildes – destacadamente, em função da relatoria da reforma trabalhista no Senado, em 2017.


No debate final da TV Gazeta, Helder falou em “tráfico de influência” no caso Apex Partners, respondendo a uma pergunta de Pazolini sobre o tema. Em debate anterior, ao fazer pergunta sobre o mesmo assunto para o próprio Ricardo, Helder usou a expressão “Master Capixaba”. Ricardo não gostou nem um pouco e rebateu que quem entende de Master é o governo do PT.


No debate da TV Gazeta, Ricardo disse não ter “diferenças pessoais” com Helder, mas de pensamento. Citou que ele mesmo defende a propriedade privada, enquanto o petista “defende invasão de terra”. Helder ficou indignado, pediu um direito de resposta (negado pela direção do debate) e, no intervalo, desabafou: “O candidato passou do limite”.


Agora é um outro limite que cada um precisa calcular, para decidir até onde está disposto a ir visando evitar uma hoje mais provável vitória de Pazolini no segundo turno.

Casagrande: “Estou à disposição para fazer a mediação”

Para Ricardo, contar com uma “migração natural” de todos os eleitores de Helder, num “efeito manada”, sem que ele precise fazer nada, soa muito arriscado. Isso não necessariamente vai se processar dessa maneira. Nem todos irão por gravidade, movidos pelo puro entendimento de que eventual eleição de Pazolini (e consequente chegada do PL de Magno Malta ao poder) seria um “mal maior” para a esquerda e que a hipótese de permanência de Ricardo seria a “menos ruim”.


Tendo de decidir entre Pazolini e Ricardo, alguns poderão votar branco ou nulo. Outros, simplesmente se abster. Gestos em direção à esquerda precisarão ser feitos.


Difícil, porém, imaginar Ricardo tomando alguma iniciativa nesse sentido, devido aos motivos já expostos. Mas ele talvez possa contar com alguém muito mais credenciado para fazer essa ponte com a esquerda: seu principal apoiador, Casagrande (PSB).


Ao contrário de Ricardo, Casagrande governou com o PT. Também diferentemente de Ricardo, declarou voto em Lula no primeiro turno. E ainda teve o apoio informal do PT para o Senado – aonde voltará com a dificílima missão de compor uma minoria e buscar, na medida do possível, fazer um contraponto à extrema direita que passará a dominar a Câmara Alta.


O próprio Casagrande já tratou de se colocar inteiramente à disposição de Ricardo para cumprir essa tarefa. Perguntei ao ex-governador se ele fará a mediação com forças de esquerda que o apoiaram para o Senado, como o PT. “Estou à disposição”, respondeu o líder do PSB.

Ele disse que “ainda” não abriu conversas com Helder e João Coser, o presidente estadual do PT – eleito deputado federal.


Perguntei-lhe, então, se ele pretende cumprir agora esse papel de interlocutor com forças de esquerda, em nome e em prol de Ricardo.


“Pretendo cumprir o papel de articulação com todas as forças, inclusive de direita. Prefeitos, vereadores, entidades...”, respondeu Casagrande. 

Ricardo: “Casagrande terá protagonismo nessa construção”

Quanto ao próprio Ricardo, na entrevista coletiva concedida por ele na tarde deste day after, em frente à Residência Oficial, comentou o papel que espera que Casagrande cumpra em sua campanha agora no segundo turno.


“Casagrande por certo terá um papel sempre muito relevante. Como governador do Estado, liderou um governo muito exitoso. Agora é senador, e o papel dele será estar ao nosso lado para que juntos possamos continuar mobilizando o Espírito Santo para esse futuro de oportunidade que estamos construindo.”


Perguntei a Ricardo, então, especificamente, se ele espera que Casagrande cumpra o papel de interlocutor com a esquerda. Segundo o governador, o senador eleito terá “protagonismo nessa construção”.


“Casagrande é um amigo, é um irmão, é um aliado, é o nosso senador. E por certo ele terá um protagonismo nessa construção, conversando com todos e todas que desejem conversar e que tenham por propósito manter o Espírito Santo neste rumo e neste ritmo.”


E ele mesmo? Procurará Helder Salomão? Ricardo respondeu vagamente:


“Vamos conversar com todo mundo que quer o bem do Espírito Santo, porque o papel de um governador não é dividir o Estado, até porque uma casa dividida não prospera. O papel de um governador é unificar, é dialogar com todo mundo que quer unir o Estado. Eu vou conversar naturalmente com todo mundo que deseja o bem e tem um bom propósito para o Espírito Santo.”

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Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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