Não tem jeito: após os resultados colhidos nas urnas no
domingo (4), se quiser ter alguma esperança de virar o jogo e lograr uma
difícil virada no segundo turno, o governador Ricardo Ferraço (MDB) terá de
atrair em peso os votos da esquerda no Espírito Santo – começando, basicamente,
pela totalidade dos 323.483 votos dados a Helder Salomão (PT) no primeiro
turno.
Na verdade, numa conta simples, esses votos ainda seriam
insuficientes para determinar a vitória de Ricardo, com os números de ontem.
Somando a própria votação com a de Helder, o governador ainda ficaria a 5.753
votos da marca de Pazolini. Assim, por incrível que pareça, os 20.658 votos de
Breno Barcelos (Missão) e Rafael Demuner (UP) foram determinantes para “forçar”
o segundo turno.
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Logicamente, esta conta não é tão simples, pois o boletim de
urna do primeiro turno não necessariamente se reproduz no segundo, e há uma
série de outras variáveis na mesa, como o índice de abstenção (o qual pode
mudar de um escrutínio para o outro). Mas repito: basicamente, para ter a
mínima expectativa de virada, Ricardo e sua campanha precisam conquistar
integralmente esse eleitorado de Helder. Como fazê-lo? Eis a questão.
Tendo realizado uma campanha muito digna, Helder também não
fez feio nas urnas. Pelo contrário. Os 15,32% de votos válidos do candidato do
PT são capital político para jogo em qualquer lugar do mundo. E agora devem ser
trabalhados.
Minoritário no Espírito Santo, o eleitorado de esquerda é
maior que os 323.483 votos de Helder – haja vista, por exemplo, a votação de Fabiano
Contarato (PT) para o Senado: 521.431.
A conclusão matemática é que, no 1º turno, Ricardo já
recebeu parte dos votos da esquerda no Estado, em consequência de uma provável
estratégia de “voto útil” antecipada por uma parte desse eleitorado, por absoluta
rejeição a Lorenzo Pazolini (Republicanos) – notadamente, em razão da aliança
do ex-prefeito de Vitória com o PL e com Flávio Bolsonaro.
A pesquisa Quaest da véspera para a Rede Gazeta mostrou que
Ricardo, de fato, tendia a receber mais votos que o próprio Helder entre
eleitores lulistas e da esquerda não lulista. Se isso se confirmou matematicamente
nas urnas, não temos como saber.
Agora, pela lógica, a campanha de Ricardo deverá buscar
intensificar essa estratégia de estímulo ao “voto útil” da esquerda. O xis da
questão é: como fazê-lo? Como buscar “captar” esses votos de Helder sem correr
o risco de perder os votos já conquistados entre eleitores antipetistas e antilulistas?
Pazolini, é claro, prevaleceu entre esses grupos, mas, com
votação ideologicamente pulverizada, Ricardo também há de ter atraído parte
deles – e também não pode se dar ao luxo de agora perder esses eleitores do
centro para a direita.
Ciente de sua importância multiplicada agora no jogo, o PT tem
o passe valorizado no Espírito Santo. O que fará a direção estadual? “Apoio
crítico” a Ricardo, apoio integral sem ressalvas, “militância liberada” ou opção
pela neutralidade?
“A iniciativa cabe à
parte interessada”
Sob reserva, dirigente de alta patente do partido no
Espírito Santo diz que o PT poderá, sim, discutir internamente essa questão,
mas somente se for provocado. “A iniciativa deve partir da parte interessada.”
Ou seja, o PT a princípio não tomará iniciativa alguma em favor de Ricardo. Ele
é quem precisa dos votos e, portanto, é quem deve bater à porta do partido.
Mas vai Ricardo procurar o PT? Complicado para ambas as
partes. Primeiro porque, se fizer um gesto muito forte de aproximação com o
partido de Lula, o governador correrá aquele risco de desagradar a outra
importante fatia de seu próprio eleitorado...
Segundo porque, sendo ele próprio um político de direita,
sem nenhum histórico de simpatia pelo PT, Ricardo travou, com Helder, alguns duros
embates verbais durante o primeiro turno.
Além das críticas ao atual governo em áreas como mobilidade
urbana, o candidato do PT apresentou o emedebista como um “coadjuvante” (de Casagrande)
e como uma espécie de inimigo dos trabalhadores e dos mais humildes –
destacadamente, em função da relatoria da reforma trabalhista no Senado, em
2017.
No debate final da TV Gazeta, Helder falou em “tráfico de
influência” no caso Apex Partners, respondendo a uma pergunta de Pazolini sobre
o tema. Em debate anterior, ao fazer pergunta sobre o mesmo assunto para o
próprio Ricardo, Helder usou a expressão “Master Capixaba”. Ricardo não gostou
nem um pouco e rebateu que quem entende de Master é o governo do PT.
No debate da TV Gazeta, Ricardo disse não ter “diferenças
pessoais” com Helder, mas de pensamento. Citou que ele mesmo defende a
propriedade privada, enquanto o petista “defende invasão de terra”. Helder
ficou indignado, pediu um direito de resposta (negado pela direção do debate)
e, no intervalo, desabafou: “O candidato passou do limite”.
Agora é um outro limite que cada um precisa calcular, para
decidir até onde está disposto a ir visando evitar uma hoje mais provável vitória
de Pazolini no segundo turno.
Casagrande: “Estou à
disposição para fazer a mediação”
Para Ricardo, contar com uma “migração natural” de todos os
eleitores de Helder, num “efeito manada”, sem que ele precise fazer nada, soa muito
arriscado. Isso não necessariamente vai se processar dessa maneira. Nem todos
irão por gravidade, movidos pelo puro entendimento de que eventual eleição de
Pazolini (e consequente chegada do PL de Magno Malta ao poder) seria um “mal maior”
para a esquerda e que a hipótese de permanência de Ricardo seria a “menos ruim”.
Tendo de decidir entre Pazolini e Ricardo, alguns poderão
votar branco ou nulo. Outros, simplesmente se abster. Gestos em direção à
esquerda precisarão ser feitos.
Difícil, porém, imaginar Ricardo tomando alguma iniciativa
nesse sentido, devido aos motivos já expostos. Mas ele talvez possa contar com
alguém muito mais credenciado para fazer essa ponte com a esquerda: seu principal
apoiador, Casagrande (PSB).
Ao contrário de Ricardo, Casagrande governou com o PT. Também
diferentemente de Ricardo, declarou voto em Lula no primeiro turno. E ainda teve
o apoio informal do PT para o Senado – aonde voltará com a dificílima missão de
compor uma minoria e buscar, na medida do possível, fazer um contraponto à extrema
direita que passará a dominar a Câmara Alta.
O próprio Casagrande já tratou de se colocar inteiramente à disposição
de Ricardo para cumprir essa tarefa. Perguntei ao ex-governador se ele fará a
mediação com forças de esquerda que o apoiaram para o Senado, como o PT. “Estou
à disposição”, respondeu o líder do PSB.
Ele disse que “ainda” não abriu conversas com Helder e João
Coser, o presidente estadual do PT – eleito deputado federal.
Perguntei-lhe, então, se ele pretende cumprir agora esse
papel de interlocutor com forças de esquerda, em nome e em prol de Ricardo.
“Pretendo cumprir o papel de articulação com todas as
forças, inclusive de direita. Prefeitos, vereadores, entidades...”, respondeu
Casagrande.
Quanto ao próprio Ricardo, na entrevista coletiva concedida
por ele na tarde deste day after, em
frente à Residência Oficial, comentou o papel que espera que Casagrande cumpra
em sua campanha agora no segundo turno.
“Casagrande por certo terá um papel sempre muito relevante.
Como governador do Estado, liderou um governo muito exitoso. Agora é senador, e
o papel dele será estar ao nosso lado para que juntos possamos continuar
mobilizando o Espírito Santo para esse futuro de oportunidade que estamos
construindo.”
Perguntei a Ricardo, então, especificamente, se ele espera
que Casagrande cumpra o papel de interlocutor com a esquerda. Segundo o
governador, o senador eleito terá “protagonismo nessa construção”.
“Casagrande é um amigo, é um irmão, é um aliado, é o nosso
senador. E por certo ele terá um protagonismo nessa construção, conversando com
todos e todas que desejem conversar e que tenham por propósito manter o Espírito
Santo neste rumo e neste ritmo.”
E ele mesmo? Procurará Helder Salomão? Ricardo respondeu
vagamente:
“Vamos conversar com todo mundo que quer o bem do Espírito
Santo, porque o papel de um governador não é dividir o Estado, até porque uma
casa dividida não prospera. O papel de um governador é unificar, é dialogar com
todo mundo que quer unir o Estado. Eu vou conversar naturalmente com todo mundo
que deseja o bem e tem um bom propósito para o Espírito Santo.”
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