O deputado estadual Fabrício Gandini (Cidadania) vai mesmo ingressar na Justiça com um mandado de segurança, nesta segunda-feira (2), pedindo a suspensão da eleição relâmpago da Mesa Diretora da Assembleia Legislativa, convocada pelo presidente Erick Musso (Republicanos) na última quarta-feira (27) e realizada naquela mesma manhã, pegando a muitos deputados de surpresa. Mais importante que a ação em si é o pano de fundo político-eleitoral dessa reação de Gandini. Seu posicionamento tem tudo a ver com as eleições municipais de 2020 – especificamente, com a corrida rumo à Prefeitura de Vitória. Até porque a antecipação da eleição da Mesa, na qual Erick Musso garantiu sua permanência no comando da Casa até 2023, também passa, diretamente, pelas próximas eleições municipais. Explico.
Como não é segredo para ninguém, Gandini é pré-candidato declarado a prefeito de Vitória em 2020, com o apoio igualmente declarado do prefeito Luciano Rezende, cacique estadual do Cidadania e seu mentor político desde que o atual deputado foi assessor parlamentar de Luciano na Câmara de Vitória. E Erick Musso, o que tem a ver com isso? Também é pré-candidato em Vitória? De modo algum. Aliás, Erick não disputará mandato algum em 2020. Entretanto, o presidente da Assembleia tem como principal aliado o deputado federal Amaro Neto, também do Republicanos. E Amaro, sim, pode ser postulante a prefeito de Vitória em 2020 e/ou candidato ao governo do Estado em 2022, contra Renato Casagrande (PSB) ou quem quer que seja, então, o candidato da situação.
Assim, tanto para Erick Musso como para Amaro e para o grupo político de ambos, é fundamental a permanência do primeiro na posição de presidente do Poder Legislativo estadual, pelo menos até o fim de 2022 – algo que, de fato, Erick conseguiu garantir na última quarta-feira. Guardando esse posto estratégico, o grupo de Erick preserva um enorme poder de pressão e de negociação na interface com o governo Casagrande. O presidente da Assembleia, afinal, é quem define a pauta de votações e o ritmo da tramitação de todos os projetos de lei, inclusive os que são prioritários para o Poder Executivo. Com Erick na presidência da Casa até o início de 2023, Casagrande terá que negociar diretamente com ele até o fim do seu atual governo. Isso pode significar ter que fazer algumas concessões ao grupo de Erick e Amaro nas eleições de 2020 e até de 2022.
A prova mais contundente do que afirmamos acima é a informação publicada aqui nesta quinta-feira (28) e não contestada por ninguém do grupo de Erick: no último dia 19, Casagrande recebeu Erick, Amaro e Roberto Carneiro, diretor-geral da Assembleia e presidente estadual do Republicanos (ex-PRB). Na reunião, eles selaram um acordo: Casagrande não mobilizaria sua base na Assembleia para derrubar a PEC de Erick que abriu caminho para sua reeleição antecipada; em troca, Erick garantia uma tramitação bem célere da reforma da Previdência do governador na Casa. Assim foi feito.
O que Casagrande não esperava é que Erick fosse realizar a eleição para a próxima Mesa de modo tão prematuro – dois dias após a aprovação da PEC e sem tempo político hábil para o Palácio Anchieta organizar uma contraofensiva. Na sessão da última quarta, pego de calças curtas, o governo ainda tentou esboçar uma reação, que se mostrou pífia, à chapa encabeçada por Erick. Essa reação passou por Gandini, que, ao lado do deputado Dary Pagung (PSB), chegou a ensaiar a montagem de uma chapa. É aí que entra o deputado do Cidadania.
Extremamente governista, Gandini agora vai à Justiça na tentativa de suspender a reeleição de Erick, alegando que a atual Mesa não avisou a todos os deputados com antecedência sobre o processo eleitoral e que ele teve cerceado o seu direito de preparar e lançar uma chapa em tempo razoável. Mas tem mais. Ex-presidente da Câmara de Vitória (2013-2014) e ex-secretário de Gestão de Vitória na segunda administração de Luciano (2017-2018) , Gandini, até agora, tem exercido um mandato discreto na Assembleia. Com o ano eleitoral batendo à porta, o deputado pode estar começando a se movimentar nessa direção por dois motivos:
Moral junto ao Palácio Anchieta
Assim, ajudando o governo de modo mais assertivo no plenário, Gandini também ajudará a si mesmo, ganhando pontos na relação com o Palácio Anchieta, até para não perder o PSB – que no momento acena com candidatura própria em Vitória – na aliança com o Cidadania dele mesmo e de Luciano Rezende na eleição do ano que vem na Capital.
GANDINI: “GRATZ NÃO COMEÇOU DO DIA PARA A NOITE”
Questionamos Gandini se ele partirá mesmo para a oposição interna a Erick Musso. A resposta não deixa dúvida.
“Até então, ele [Erick] não tinha me dado motivo para acioná-lo na Justiça nem para fazer uma oposição interna a ele, apesar de ele já ter dado antes alguns sinais, como a mudança no Regimento Interno [aprovada em fevereiro] que deu superpoderes ao presidente. Dessa vez foi um retrocesso tão absurdo que resolvi não me calar. Nem associação de bairro faz eleição como a da Assembleia foi feita. Qualquer associação comunitária abre um prazo, ainda que mínimo, ainda seja na véspera, para registro de chapas.”
O deputado do Cidadania cita até o ex-presidente da Casa José Carlos Gratz.
“A Era Gratz não começou do dia para a noite. Começou com ações em que a Assembleia foi colocando o Executivo de joelhos. Quando o Fórum Reage Espírito Santo foi fundado, já havia muitos sinais. Então fiquei preocupado com uma eleição feita dessa forma. Estamos começando a viver a possibilidade de retrocesso novamente.”
Gratz presidiu a Assembleia por seis anos, de 1997 até o início de 2003.
LUCIANO: “JÁ VIMOS ESSE FILME”
Outra prova inequívoca de que a (re)ação de Gandini tem tudo a ver com as eleições municipais de 2020 foi a manifestação do prefeito Luciano Rezende, pelo Twitter, na manhã desta sexta-feira (29). Em alusão à notícia de que Gandini buscaria a Justiça para anular a eleição da Mesa, o prefeito publicou mensagem em sua conta usando hashtags como (por extenso) “defender o ES de ameças” e “já vimos esse filme”.
Embora sem citar nomes, o prefeito, há meses, vem fazendo menções a “ameaças” políticas à cidade de Vitória, tanto em discursos como em entrevistas. Por todo o contexto explicado acima, a publicação, desta vez, só pode ter como alvo indireto a possível candidatura de Amaro Neto (derrotado por Luciano em 2016) a prefeito da Capital novamente em 2020, contra Gandini, e/ou a governador em 2022, contra o candidato do Palácio Anchieta.
SE GANHAR, NÃO ASSUME
Só um último detalhe: como já registramos aqui, dos sete membros da chapa de Erick eleitos para a Mesa do biênio 2021-2023, quatro podem nem sequer chegar a tomar posse, caso sejam eleitos prefeitos, em 2020, dos respectivos municípios onde pretendem concorrer. Mas o mesmo vale para o próprio Gandini. É um arremesso do meio da quadra, mas não deixa de ser possível: supondo que a Justiça anule, como ele quer, a eleição da última quarta-feira, que seja realizada outra, que Gandini seja eleito presidente da Assembleia a partir de 2021 e que, antes, vença a eleição em Vitória, o cargo de presidente da Assembleia ficará vago.
São as loucuras proporcionadas por uma eleição tão antecipada, em mais de 400 dias da posse da data da Mesa ora eleita.