Amanhã viveremos, mais uma vez, através da memória e dos rituais religiosos o dia da Paixão de Cristo. Esse dia é marcado pelo sangue, pelo silêncio, pela cruz e pela morte. Mas é um dia para olhar para o calvário e os gólgotas do mundo de hoje, onde tantos e tantas seguem sendo crucificados (as), sobretudo, nos leitos de UTI, onde a cada dia “tantos Nazarenos” dão o último suspiro sem poder gritar ao menos “por que me abandonastes?”.
O drama da paixão não é histórico, é real e hodierno. Ele é vivo, no hoje e no agora do nosso cotidiano. Cada dia da pandemia é uma Sexta-Feira da Paixão com cruzes e crucificados, choros e prantos, Pilatos e criminosos. A pandemia que estamos atravessando é, sem dúvida, uma Via-Crúcis.
Antes de escrever esse artigo, fiquei pensando naquelas estações da Via Sacra, ou seja, daquela oração tradicional que os católicos rezam toda sexta-feira da quaresma fazendo memória do trajeto de Jesus. Me lembrava daquele primeiro quadrinho da Via Sacra que ficava/fica pendurado nas Igrejas. O drama do calvário iniciou com a condenação.
Sim, nós também, anos atrás estávamos todos condenados a ser infectados por um vírus estranho e insano capaz de nos humilhar, nos amordaçar, nos fazer cair tantas vezes, perder o fôlego e até a figuração humana. Mas no caminho sempre temos os cireneus, aqueles e aquelas que tomam a nossa cruz para nos dar ar, dar fôlego.
Os cireneus da pandemia estão equipados, são os anjos de branco que colocam suas mãos e suas vidas a serviço da vida. Mas também temos as Verônicas, que ao ver o rosto cansado e fatigado, apressam-se em cuidar, limpar a fisionomia abatida e cansada. Lembro aqui de quantas enfermeiras que com carinho e dedicação refazem e atualizam esse gesto.
Também temos as mulheres que choram. No caminho do gólgota também tinham aquelas que choravam pelos filhos. Hoje, a cena se repete no grito de mães e famílias, que ao lado de fora dos hospitais elevam prantos e soluços por aqueles que foram para uma UTI sem saber se regressam.
Não bastasse tamanha dor, recordamos daqueles que o vírus humilha mais. Próximo ao leito, cada infectado é despido de suas “vestes”, de suas roupas, e recebe apenas o básico e o permitido. E, assim, ele se prepara para ser crucificado na intubação. Sedado, ele é preparado para ser “pregado” nesse leito, amortecido, ele aos poucos se desfaz de tudo, da sua memória, da sua dignidade.
No final, uns conseguem ser descidos da cruz, outros não. Morrem pregados no leito. As marcas dos que desceram da cruz permanecem visivelmente e podemos dizer que é uma chaga que tendem a carregar para toda vida. Os que não são descidos da cruz, são transportados aos túmulos; outros tantos estão sendo colocados nos corredores dos hospitais qual Sheol da antiguidade à espera dos “Josés de Arimateias” para os levarem a ser sepultados. Diferentemente de Jesus, esses corpos são incapazes de receber um colo de mãe, de família, de amigos. São cadáveres indignos de uma despedida, ou ainda de serem tocados por uma gota de lágrima ou perfumados por flores, bálsamos e aromas.
Mas no final, cada um, independentemente do desfecho, recebe uma nova vida. Os que se recuperam voltam ao convívio da família e dos amigos, os que se vão viram eternidade, na memória, no estado de fé e na história que sempre terá espaço para eles.
Por fim, Pilatos permanece no seu Palácio, com as mãos lavadas e sendo afagado pelos seus servidores e militantes. O povo segue dividido entre "Hosanas" e "Crucifica-os". E a pandemia segue atualizando um calvário que não parece ter fim.