Na última segunda-feira (17), as portas da casa mais cobiçada do Brasil abriram. Nela, entraram diferentes personalidades: homens, mulheres, hétero e homossexuais, resilientes, incomodados, enfim. Por essas portas entraram muitas marcas, que também anseiam por cobiça e, assim, veem no Big Brother uma máquina de marketing. E como! Diante disso, o que se explica o fetiche dos brasileiros pelo BBB?
A pergunta é interessante e intrigante, mas passa por uma questão muito simples: pessoas se conectam com pessoas. Pessoas se veem em pessoas. Pessoas desejam o desejo da pessoa (outra). Essa conexão gera vínculos e esse vínculo se projeta nas reações daquela personalidade mal-humorada ou bem-humorada, acessível ou intransigente, fraterna ou individualista, e por aí vai. No BBB acontece um processo de identificação do eu.
Recentemente, a BBC produziu uma matéria que destaca uma pesquisa desenvolvida pelo professor de Psicologia Jonathan Cohen, da Universidade de Haifa, em Israel, em que mostrou que os telespectadores dos reality shows desenvolvem grandes sentimentos de empatia pelos participantes e, muitas vezes, se reconhecem em suas escolhas e ações.
O experimento entrevistou 183 pessoas sobre 12 reality shows diferentes, incluindo produções que contam com versões em diversos países, como Big Brother, MasterChef e Supernanny. Os resultados mostraram que quanto mais as pessoas gostam de um programa, maior é a identificação e a vontade de um dia fazer parte da atração.
Por outro lado, dentro da casa, do espaço de relação dos participantes surgem e insurgem situações e temáticas que fervem do lado de fora: machismo, racismo e xenofobia, etc... Por vezes nos escandalizamos com aquilo que vemos lá dentro, no confinamento, mas no chão da realidade de fora, esses temas são claros e nítidos, mas... não vigiamos tanto.
A própria Globo, percebendo a relevância dessas discussões, passou a dar um significado diferente a elas, uma vez que abandonou práticas e quadros que sexualizavam algumas das participantes, por aí se vê que a audiência passou a assistir ao programa de forma diferente. Ao mesmo tempo, telespectadores mais adolescentes e jovens e que não costumam assistir televisão aberta foram atraídos, e muitos deles consomem o reality também pelas redes sociais.
Vejam que até aqui aparece muitas vezes as palavras identificação, atração, empatia, personalidade, conexão, e tudo isso tem haver com marketing. E marketing é o que acontece dentro da casa mais vigiada do Brasil, o tempo inteiro. A inserção de marcas dentro da casa é uma promoção contínua. E toda promoção passa por um processo de identificação das pessoas com a marca e das marcas com as pessoas. Dentro do BBB podemos ver um retrato do que pensam as marcas e do que é a vida do lado de fora.