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Vilmara Fernandes

Justiça detalha como guarda municipal e advogados blindavam o PCV no ES

Foi apontado vazamento de dados sigilosos e troca de informações entre advogados que atuariam como "pombos-correios" e a facção; defesas apontam que o cenário é outro

Publicado em 29 de Maio de 2026 às 03:30

Públicado em 

29 mai 2026 às 03:30
Vilmara Fernandes

Colunista

Vilmara Fernandes

Arte - Camilly Napoleão com Adobe Firefly/MPES

Na última quarta-feira (27), a Justiça do Espírito Santo aceitou a denúncia contra quatro advogados e um guarda municipal por envolvimento em um esquema de colaboração mútua para favorecer e blindar a cúpula do Primeiro Comando de Vitória (PCV).


A decisão judicial detalha a participação de cada um dos acusados no esquema, operado na região da Grande Terra Vermelha, em Vila Velha, transformando as prerrogativas da advocacia e o acesso a sistemas sigilosos do Estado em ferramentas de gestão para o crime organizado. 


A investigação e a posterior denúncia foi conduzida pelo Ministério Público do Estado do Espírito Santo (MPES), por intermédio do Gaeco, com dados obtidos durante as fases da Operação Telic.


As informações colhidas identificaram que o esquema permitia que líderes da facção já presos, como Cleuton Gomes Pereira, o "Frajola", continuassem a gerenciar o tráfico de drogas e a ordenar ataques a rivais. A comunicação era feita por meio de "catuques" (bilhetes) transportados por advogados, em uma ação semelhante a “pombo-correio” para lideranças e integrantes em liberdade.


A apuração também revelou que dados sensíveis da segurança pública eram vazados em tempo real para proteger os interesses da organização.


Confira o papel atribuído a cada réu na ação penal:


1 - Bárbara Bastos Rodrigues 

Apontada como peça central da célula jurídica da facção criminosa. O relato é de que, valendo-se de suas prerrogativas profissionais como advogada, ela teria realizado mais de 150 atendimentos na Penitenciária de Segurança Máxima de Viana (PSMA II) ao líder criminoso "Frajola".


Os indícios apontam que Bárbara atuava como mensageira, transmitindo ordens de tráfico, com a contabilidade de entorpecentes ("peixe, chá e óleo") e logística de armas de fogo das lideranças presas para as ruas. 


Ela teria ainda oferecido vantagem financeira indevida de R$ 50 mil, além de outras promessas de pagamento, como 13º salário,  a Iuri de Souza Silva, seu companheiro, para criar dificuldades na apreensão de documentos criminosos ("catuques") e direcionar o aparato policial para a prisão de integrantes de facções rivais, como o Terceiro Comando Puro (TCP). 


2 - Iuri de Souza Silva

Guarda Municipal de Vila Velha e companheiro de Bárbara, Iuri é acusado de utilizar as prerrogativas de seu cargo — ele é ex-comandante da Guarda do município — e o acesso a sistemas restritos de segurança pública, relacionados a informações dos presos, da Secretaria de Segurança, Detran, entre outros, para atuar em benefício direto da facção. 


A perícia em seu aparelho celular encontrou indícios de que ele fazia varreduras constantes de boletins de ocorrência, mandados de prisão e registros veiculares a pedido da célula jurídica do PCV. Na decisão é dito que havia um duto de vazamento de informações sigilosas e de inteligência em favor do crime organizado, mediante o suposto recebimento de vantagens indevidas.


3 - Vinicius Bastos Rodrigues

Advogado, irmão e sócio no escritório de Bárbara. É informado que Vinicius integrava a associação voltada à prática de crimes de violação de sigilo funcional.


E dito que conversas interceptadas revelam que ele solicitava de forma direta a Iuri a realização de consultas nominais de dados protegidos e "Boletins Unificados" (B.U.) de interesse de clientes vinculados à estrutura do PCV. Na decisão é dito que ele tinha conhecimento da origem ilícita dos dados.  


Em outro ponto informa que ele já tinha sido condenado por crimes anteriores relacionados a  roubo e receptação.


4 - Arlis Schmidt 

Advogado que é apontado como integrante estável da organização criminosa PCV e da associação voltada ao tráfico. Na decisão é dito que há indícios  de que ele atuava de forma coordenada com Bárbara.


“Desvirtuava os atendimentos jurídicos em unidades prisionais para servir de vetor de comunicação de ordens ilícitas emanadas da cúpula da facção”, informa o texto judicial mencionando ainda que ele  tem condenações penais transitadas em julgado por estelionato e associação para o tráfico, nas quais teria empregado o mesmo modus operandi.


Arlis foi detido pela Operação Telic após prestar atendimento a uma das lideranças do PCV. Com ele foram encontrados, dentro de sua meia, “catuques”, bilhetes que continham ordens sobre a gestão financeira e operacional da facção nas ruas.


A investigação do Gaeco aponta um relacionamento próximo entre Arlis e "Frajola", que posteriormente foi transferido para presídio federal em Rondônia.


A denúncia apontou que entre março de 2023 e março de 2026, Arlis realizou aproximadamente 230 visitas a Frajola no presídio, o que foi considerado pelo MP como sendo incompatível com o exercício regular de direitos defensivos.


Ele também é suspeito de intermediar a comunicação e movimentações financeiras entre o líder preso, a esposa deste e o braço direito do criminoso nas ruas.


5 - Lohany Wagner Soares Ferreira

Advogada e sócia do referido escritório de Bárbara, foi denunciada por integrar a associação criminosa voltada à violação de sigilo funcional.  Segundo a denúncia do MP, as linhas telefônicas de Lohany e a própria infraestrutura do escritório eram utilizadas para triangular e receber as informações sigilosas extraídas por Iuri das plataformas policiais, viabilizando o monitoramento clandestino de investigações em curso.


PRISÃO E AFASTAMENTO


Na mesma decisão, a prisão temporária de Iuri foi convertida em preventiva, sendo mantido o seu afastamento funcional da corporação.


Para os quatro advogados denunciados, foi decretada a suspensão do exercício da advocacia, além da proibição de ingressar em unidades prisionais e de manter contato com pessoas privadas de liberdade. Três cumprirão prisão domiciliar e serão monitorados por tornozeleira eletrônica, medida não aplicada à advogada Lohany.


Os réus Iuri, Bárbara e Arlis foram denunciados pelos crimes de organização criminosa armada com participação de adolescente, tráfico de drogas, associação criminosa, corrupção ativa, corrupção passiva e violação de sigilo funcional qualificada. Enquanto Vinicius e  Lohany pelos crimes de associação criminosa e violação de sigilo funcional qualificado.


O QUE DIZEM AS DEFESAS


A defesa de Lohany, realizada pela advogada Luíza Teixeira Licks Flores, destaca que as acusações contra sua cliente possuem “contornos e proporções significativamente distintas da maioria”, referindo-se aos demais réus. Ela pontua que o recebimento da denúncia marca o início de uma fase processual na qual confia no senso de justiça do Judiciário, “certa de que, no decorrer da instrução e após o acesso à integralidade da prova, tudo será devidamente esclarecido”.


Bárbara e Vinicius são representados pelo advogado Marcos Daniel Vasconcelos Coutinho. Em nota, ele informou que a “defesa não comenta procedimentos em andamento”, acrescentando que todas as questões relativas ao interesse dos seus clientes serão esclarecidas nos autos do processo.


O advogado Antônio Carlos Costa Filho, que realiza a defesa do guarda municipal Iuri, relatou que acabou de assumir o caso. “Ao longo do processo vamos demonstrar a inocência de Iuri”, declarou.


O advogado Ian Alves, que faz a defesa de Arlis Schmidt, nega qualquer participação de seu cliente em organização criminosa e nos fatos apontados na investigação. “Embora a denúncia tenha sido recebida, isso não significa que já exista qualquer decisão sobre culpa ou inocência. O recebimento da denúncia apenas permite o andamento do processo, no qual os fatos ainda serão analisados pela Justiça”, diz.


Em nota, a defesa de Arlis sustenta que a “acusação precisa ser comprovada com provas concretas, e não com suposições, vínculos profissionais ou interpretações fora de contexto”. Finaliza informando ainda que “todas as explicações serão apresentadas no processo, com firmeza, serenidade e respeito à Justiça”.

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Atualização

30/05/2026

O texto foi atualizado com as informações do advogado Ian Alves, que representa Arlis Schmidt.

Vilmara Fernandes

É jornalista de A Gazeta desde 1996. Antes atuou em A Tribuna. Foi repórter nas editorias de Política, Cidades e Pauta. Foi Editora de Pauta e Chefe de Reportagem. Desde 2007, atua como repórter especial com foco em matérias investigativas em diversas áreas.

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