O júri popular de Bruna Garcia Barbosa Marinho, acusada de envenenar com arsênio o médico Victor Murad, foi anulado na noite desta segunda-feira (26), após um dia de depoimentos. O juiz Carlos Henrique Rios do Amaral Filho, que presidia a sessão do Tribunal do Júri, considerou que a ré estava sem defesa adequada e determinou a dissolução do Conselho de Sentença.
O pedido foi apresentado pelos representantes do Ministério Público do Espírito Santo (MPES), os promotores Rodrigo Monteiro e Leonardo Augusto Cezar dos Santos, com o argumento de que houve ausência de uma defesa técnica, o que deixou a ré indefesa, com risco de condenação a uma pena de quase 30 anos.
“Diante do lamentável episódio visto no plenário, fundado em manifestação do MP, da assistência de acusação e por ter perguntado três vezes aos jurados, que informaram não compreender as perguntas do advogado de Bruna, declaro a ré indefesa e dissolvo o Conselho de Sentença”, declarou o magistrado.
Entre os problemas apontados durante o julgamento estavam perguntas consideradas impertinentes ou de difícil compreensão, questionamentos repetitivos e ofensas pessoais à vítima.
Com a dissolução do Conselho de Sentença, um novo julgamento será marcado, com a escolha de outros jurados. A data ainda não foi definida.
“Réu precisa ter direito à ampla defesa”
O pedido de anulação foi apresentado pelo promotor de Justiça Rodrigo Monteiro, declarando que estavam desde as 9 horas em um júri cuja condenação poderia chegar a 30 anos de pena.
“Não é uma decisão fácil, mas somos promotores de justiça. Nosso objetivo é fazer justiça, com uma condenação justa, em que a ré tenha direito a ampla defesa. Mas chegamos à conclusão de que a defesa técnica da Bruna não alcança a compreensão dos jurados. Estamos pedindo a dissolução do Conselho de Sentença (jurados) para que ela tenha uma defesa técnica à altura da pena que receberá”, informou.
O assistente de acusação, que representa a família da vítima, Waldyr Loureiro, acompanhou o pedido do MP. “Represento a vítima, mas queremos uma condenação justa, em que haja equilíbrio de forças, e não uma condenação sem defesa. Tenho compromisso com Deus e com o juramento da advocacia”, assinalou.
Advogado contesta decisão
O advogado Jorge Florentino, que fez a defesa de Bruna no júri anulado, não concorda com a decisão. “A última pergunta que fiz, reconheço que estava complexa, e alertei que iria reformular a pergunta. E não reconheço que tenha desrespeitado a vítima ao fazer algumas perguntas”, informa.
Ele acrescentou que vai avaliar a decisão do magistrado e quais ações pretende adotar, incluindo uma possível arquição de suspeição do magistrado. “Conversei com a mãe da Bruna e a família informou que estava satisfeita com o meu trabalho”, destacou.
O advogado Jean de Almeida Dias, que atuava auxiliando a defesa de Bruna ao lado de Florentino, considera a anulação uma injustiça. “O que presenciamos foi uma injustiça com o trabalho do doutor Jorge Florentino, que tem uma carreira brilhante, já tendo realizado mais de mil júris, e sempre foi muito bem reconhecido e respeitado por todos. Os argumentos de que os jurados não estavam conseguindo acompanhar as teses da defesa não procedem. Quem estava acompanhando teve outro entendimento”, pontuou.
Ùltimos depoimentos
Os trabalhos do júri começaram às 9 horas com o depoimento da vítima, o médico Victor Murad e foi encerrado pelo magistrado por volta das 12h30. O período foi marcado por muitos debates entre os promotores, o magistrado e o advogado da ré.
Após o almoço houve o depoimento da esposa da vítima, Edna Pancieri, seguido pelo depoimento da funcionária que localizou o arsênio na clínica. A suspensão dos trabalhos e a anulação ocorreram durante a fase final do depoimento de um policial civil.